Montaigne e seus outros Show all records where Título is equal to Montaigne e seus outros
Maria Célia Veiga França Show all records where Autor is equal to Maria Célia Veiga França
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Período de expressiva abertura graças à abundância de viagens para lugares longínquos e graças às traduções dos textos antigos, o Renascimento acolhe grandes descobertas, encontros com o “outro”, experimenta o entusiasmo e também o choque. Algumas figuras da alteridade, como por exemplo o protestante e o ameríndio, surgem ou chegam ao conhecimento do europeu no século XVI, mas a maioria é “cotoyéé” por ele desde sempre: como a mulher. Se o olhar para o diferente é em grande parte conservador, ancorado na tradição medieval, algumas vozes desafiam o costume e se abrem para o “outro” em toda sua estranheza. Montaigne é um belo exemplar dessa postura e faz com que muitos “outros” desfilem de forma surpreendentemente harmoniosa ao longo do texto. Sendo assim, recorremos a algumas dessas figuras para ilustrar a leitura que os Ensaios fazem do diferente. Dois componentes parecem sobressair quando nos debruçamos sobre a questão da alteridade no renascimento francês. Primeiramente, a maioria dos autores ergue uma fronteira entre o natural e o não-natural – e lança para a esfera do não-natural quase toda a diferença com a qual se depara. Ora, o não-natural não é mera criação humana ou mera distância com relação à natureza: ele é imperfeição, incompletude, erro, desvio, transgressão, maldade, desnaturação, monstruosidade, presença diabólica, castigo divino, aberração, pecado, etc. O que nos leva ao segundo componente, consequência dessa caracterização extremamente negativa do “outro”: a necessidade de subordinação ou, muitas vezes, de destruição e erradicação dessa diferença. Se no caso das mulheres percebemos uma grande tolerância – desde que haja subordinação e resignação ao seu lugar -, quando nos voltamos para os protestantes, para as bruxas ou para os ameríndios, por exemplo, percebemos de forma muito clara, nos mais variados tipos de publicação, um ódio que só vislumbra a satisfação com a literal aniquilação do “outro”. Se tomarmos uma certa homogeneização da aversão pela alteridade como base do pensamento da época, veremos no texto dos Ensaios um contraste notável. De fato, Montaigne recusa a classificação do diferente como não-natural, porque tudo faz parte da natureza e tudo faz parte de uma criação que só pode ser boa. “Tudo bom, ele fez tudo bom”, nos lembra Montaigne. Nosso autor rejeita, portanto, a postura orgulhosa que pretende conhecer as possibilidades e os limites de Deus e argumenta a favor do infinito potencial da Natureza.

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25/10/2018
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