Uma crítica ao fascismo totalitário a partir de Levinas Show all records where Título is equal to Uma crítica ao fascismo totalitário a partir de Levinas
Ozanan Vicente Carrara Show all records where Autor is equal to Ozanan Vicente Carrara
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Toda a reflexão filosófica de Levinas pode ser lida como uma crítica da tradição ocidental que ele denomina egologia, mas também por uma crítica à sua ideia dominante de totalidade. A ética é uma relação ao outro que preserva sua alteridade como também o Mesmo conserva sua própria estrangeiridade. A ética é assim o pensamento do excesso e das relações humanas diferenciais que não se fundem em totalidade. Para Levinas, a política, ao contrário, gira em torno da perseverança no ser ou do cuidado do indivíduo com seu próprio ser-para-a-morte. No entanto, a política não apaga a ética da qual ela se origina em que o indivíduo é chamado a responder pela morte do outro e onde a caridade que funda a relação ética Eu-outro não se perde na simetria da relação política. A relação ética, diferentemente, se caracteriza pela assimetria que garante a transcendência de outrem. Enquanto a política tende à igualdade de direitos e de deveres, à luta pelo reconhecimento recíproco, a ética supõe uma responsabilidade gratuita por outrem que se mostra mais alto que o eu. A política, grega em suas origens, é cálculo, justiça, violência do pensamento do ser. Isso justifica um pensamento contra o Estado em Totalidade e Infinito que, aliás, associa a política com a guerra e, consequentemente, com a desumanidade, a impessoalidade e o apagamento do outro. Sem a consideração pela pessoa e pelo diferente, a política se torna uma tirania que julga o eu e o outro segundo regras universais. Levinas opõe à tirania política o individualismo ético. A consciência individual possui nela mesma o poder de ruptura. Ele rejeita os princípios neutros e impessoais da totalidade hegeliana e da política. Um estado homogêneo carrega em si os germes do totalitarismo. Há um vínculo oculto entre totalidade e totalitarismo que já começa na ontologia, pois todo “totalitarismo político repousa sobre um totalitarismo ontológico”. Isso não significa que o Estado moderno, de inspiração hegeliana, conduza ele mesmo ao totalitarismo, mas que ele pode se perverter num modelo totalitário, uma vez que os princípios neutros e impessoais deformam o Estado e abrem a totalização ao totalitarismo. Levinas oporá o conceito de separação ao de totalidade. Na obra Autrement qu"être ou au-délà de l"essence, aparece mais claramente a figura do "terceiro" que interrompe o duo ético. Levinas fala de uma ausência de princípio (anarquia ética) que impede a obra de totalização do Estado. O Rosto, como o Infinito, impede a violência da totalização com o “Não Matarás!” Nasce assim uma sociabilidade que não é a da guerra como a que se mostra na política. Nota-se então que a vocação do ser humano não pode se resumir à existência política e que a política não pode englobar o todo e ainda que ela comporta limites. Percebe-se então uma outra concepção do político que nasce a partir de uma crítica da totalidade que se apresenta como síntese das liberdades individuais. Para nosso pensador, as relações humanas não são sintetizáveis nem podem ser totalmente cobertas pela história. Há então uma pluralidade que não se perde na obra da totalização, uma responsabilidade individual pelo outro que ninguém pode assumir em meu lugar e, por isso, um individualismo ético que lhe resiste. Levinas vê uma conivência entre o pensamento (a filosofia grega) e a política, mas “a política se opõe à moral como a filosofia à ingenuidade” e a “escatologia da paz messiânica deve se substituir à ontologia da guerra”. O Infinito, como oposto à totalidade, se oferece como modo de coexistência do Mesmo e do Outro, sem a fusão de um no outro, mantendo-os separados. Abre-se então a possibilidade de pensar uma política desautonomizada e respeitadora do outro e de sua diferença e, por outro lado, capaz de preservar o individualismo ético, fora de qualquer tendência ao fascismo totalitário.

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Dia 23 | Terça | Sala 9A |13:30-14:10
IC2
23/10/2018
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