Um alerta para a "virada representativa" da teoria democrática contemporânea: o socialismo cooperativista de Mill Show all records where Título is equal to Um alerta para a
Gustavo Hessmann Dalaqua Show all records where Autor is equal to Gustavo Hessmann Dalaqua
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Nas duas últimas décadas, a chamada “virada representativa” tem seduzido um número cada vez maior de pensadores políticos. Conforme aponta Mónica Brito Vieira (2017) na introdução de Reclaiming Representation, um dos méritos de tal movimento foi denunciar as incongruências teóricas da antítese democracia vs. representação. Remetendo-se a filósofos dos séculos XVIII e XIX – dentre os quais se destaca John Stuart Mill –, uma parcela significativa da teoria democrática contemporânea afirma que representação e democracia são conciliáveis e adverte que a polarização entre ambas mais atrapalha do que ajuda, quando mais não seja porque desestimula a luta pela democratização das instituições representativas existentes. Afinal, se o conceito “democracia representativa” não passa de um oximoro, por que perder tempo tentando transformar nossas instituições representativas de modo a torná-las veículo de promoção da democracia? Da premissa de que representação e democracia são irreconciliáveis, a consequência que se infere é a de que, para termos democracia, precisamos destruir os governos representativos existentes e, por assim dizer, começar do zero. A virada representativa tem razão ao lembrar que a representação pode virar aliada da democracia. Todavia, ao se opor ao painel desesperador delineado pelos detratores da representação, ela por vezes pinta um retrato demasiado cor-de-rosa, anuviando o fato de que, em verdade, a relação entre representação e democracia é tensa. Conforme observa Luis Felipe Miguel (2018) em Dominação e resistência, ao se esforçar para mostrar que a representação pode criar uma relação horizontal pujante entre representantes e representados que torna a democracia possível em países populacional e territorialmente amplos, os pensadores da virada representativa parecem esquecer que, na prática, esse modelo teórico tem ganhado pouca vazão. Seguindo o alerta de Miguel, minha apresentação sustentará que a “redescoberta” da representação feita por uma parte considerável da virada representativa é insuficiente. Para tanto, irei me focar na filosofia de Mill, justamente um dos teóricos da democracia que vários autores da virada representativa insistem em nomear como seu patrono intelectual. A insistência não é descabida, haja vista Mill ter sido um dos responsáveis pela ressignificação do conceito de democracia operada na filosofia política moderna. Em Considerações sobre o governo representativo, na própria definição que oferece para o termo “democracia”, Mill inclui a ideia de “representação”. Trata-se de uma passagem que os autores da virada representativa gostam de citar quando defendem que a representação é conducente à democracia. Entretanto, não se deve ignorar que, além de oferecer argumentos teóricos contra a oposição entre democracia e representação, Mill era a favor da adoção prática do socialismo cooperativista, segundo o qual a gestão do ambiente de trabalho e a distribuição dos bens dela provenientes deveriam se exercer democraticamente. Na contramão de grande parte da virada representativa, que tende a ler Considerações sobre o governo representativo e Chapters on Socialism como obras apartadas, minha proposta é ler o cooperativismo defendido nesta como complemento necessário para a realização da representação democrática apresentada naquela. Busca-se, com isso, preservar o aspecto radical da teoria democrática milliana e refutar a impressão de que ela seja uma mera apologia das instituições vigentes e do statu quo.

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IC 4
23/10/2018
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