A abordagem dos fenômenos oníricos em humano, demasiado humano: teoria da percepção e teoria do atavismo Show all records where Título is equal to A abordagem dos fenômenos oníricos em humano, demasiado humano: teoria da percepção e teoria do atavismo
William Mattioli Show all records where Autor is equal to William Mattioli
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Os aforismos 5, 12 e 13 de HH receberam dos intérpretes que se dedicaram a estes textos a alcunha de “aforismos sobre o sonho”. Pretendo destacar neles, em especial nos dois últimos, dois grandes eixos temáticos: um que gira em torno de uma teoria da percepção, que recupera aspectos das discussões de Nietzsche sobre os mecanismos cognitivos presentes no escrito sobre verdade e mentira no sentido extramoral e nos fragmentos póstumos do mesmo período; e um que gira em torno de uma teoria do atavismo, na qual vemos emergirem (implicitamente), não apenas uma, mas duas noções de memória, que pretendo chamar de memória associativa (secundária) e memória filogenética (primária). No aforismo 12, Nietzsche nos diz que, no sonho, nos assemelhamos ao selvagem e, nesse sentido, entramos num estado no qual certas funções cerebrais responsáveis pela apreensão racional do mundo (das quais se destaca a memória) estão como que comprometidas, de modo que há uma certa arbitrariedade e confusão nas associações que então têm lugar. Este seria justamente o estado no qual os povos primitivos criaram suas narrativas mitológicas. A conclusão do aforismo é que as representações oníricas e o modo como elas se associam nos lembram os estados primitivos da humanidade, e que, “portanto, no sono e no sonho, repetimos o pensum da humanidade primitiva.” (hh 12) o que vemos aqui é a tese de que há, nesse estado, a ativação de um tipo de memória distinto daquela primeira, que se encontra prejudicada. Com o afrouxamento daquela memória associativa (secundária), temos a ativação da memória filogenética, isto é, da memória que guarda traços não do passado recente ou distante da vida do indivíduo, mas de um passado remoto da história da espécie (uma referência importante a esta segunda noção de memória pode ser encontrada no aforismo 312 de aurora). Ela se manifesta menos na forma de conteúdos concretos do que em termos de um modo específico de associação de representações, que recapitula um padrão cognitivo arcaico (num estado que podemos chamar de “regressão arcaica”). Busco mostrar que, para Nietzsche, padrões cognitivos arcaicos continuam desempenhando um papel fundamental em nossas formas de assimilação do real e no condicionamento de nossos comportamentos; ademais, pretendo analisar em que medida a teoria da percepção pressuposta no aforismo 13 depende de uma retomada crítica da tese das inferências inconscientes com a qual Nietzsche já havia se confrontado em 1873, relida agora à luz da tese segundo a qual toda percepção se baseia numa forma primitiva de juízo que depende da aplicação de um princípio cognitivo básico. Trata-se do princípio de identidade, tomado de empréstimo de spir no aforismo 18 e reinterpretado, do ponto de vista genealógico, como uma função orgânica fundamental em atividade já nos organismos inferiores.

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Dia 24 | Quarta | Sala 14M|13:30-14:00
IC 4
24/10/2018
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