Umbigo do mundo – subjetividade na encruzilhada temporal Show all records where Título is equal to Umbigo do mundo – subjetividade na encruzilhada temporal
Elizia Cristina Ferreira Show all records where Autor is equal to Elizia Cristina Ferreira
UNILAB Show all records where Instituição is equal to UNILAB

Minha fala versará sobre uma possibilidade ainda pouco explorada para a crítica a subjetividade, entretanto uma possibilidade ancestral. Para isso me valerei do pensamento bantu tal como ele foi sistematizado pelo filósofo contemporâneo congolês Fu-Kiau e das cartografias sensíveis e referências bibliográficas diversas relativas às performances brasileiras de motriz bantu africana. Procurei explorar a possibilidade de uma concepção subjetiva que prescinda, por assim, dizer de algumas armadilhas modernas das quais a contemporaneidade ainda tenta se desvencilhar. Penso aqui, sobretudo, nas concepções de tradição galilaico-cartesiana, das filosofias do sujeito que enfrentam os problemas relativos ao dualismo da substância, com as quais ainda, de uma maneira geral, nos empenhamos em romper. Essa necessidade de ruptura dá origem à fenomenologia, à filosofia da diferença, para mencionar alguns exemplos. Minha aposta é de que no pensamento ancestral dos povos bantu, no modo como ele se performatizou em solo brasileiro e com os encontros que aqui ocorreram, temos alternativas a esses caminhos ocidentais que respondem a alguns dos problemas que enfrentamos em filosofia clássica. Essas alternativas se fazem numa encruzilhada temporal em dois sentidos: o primeiro, mais imediato, porque remetem a concepções de mundo ancenstrais que de alguma forma resistem nas culturas ditas afro-brasileiras, o segundo, mais complexo, remete a própria noção de tempo apreendida tanto no pensamento bantu, por meio do símbolo da Kalunga, um cosmograma bakongo que alude a passagem do mundo dos mortos para o mundo dos vivos e à própria criação do mundo, segundo Farris, esse símbolo que remete a “encruzilhada” permanece ainda indelével no mundo atlântico Kongo e marca uma intersecção entre o mundo dos mortos (passado-presente) e o mundo dos vivos (presente-passado), sendo a Kalunga a “completude que acontece com uma pessoa que compreende as maneiras e os poderes de ambos os mundos.” Em nosso solo indígena e considerando o processo colonial e escravocrata essa concepção do mundo se manteve e se reinventou nos corpos e em suas performances como não poderia deixar de ser. Ao olhar/experimentar com mais atenção e sensibilidade para os sambas de roda, de caboclo, para a capoeira, seja vivenciando tais tradições, seja lendo a seu respeito (nas pesquisas da antropologia, bem como nos escritos de mestre Pastinha ou do sacerdote Taata Muta), podemos apreender sobre uma concepção de subjetividade imersa e constituída desde uma alteridade radical com o outro ou outrem que é a comunidade dos vivos e dos mortos, prescindindo, como pretendo mostrar das dicotomias que nos engavetaram nas filosofias da consciência. Vamos explorar isso a partir de três pontos: a expressão poética “umbigo do mundo”, e as performances do “pé no chão” (do samba do recôncavo e dos nkisis – deuses dos cultos de terreiros de angola) e do “movimento para o centro” sobre as quais oportunamente falarei. Por ora, aponto apenas, que é a temporalidade o fio que tecerá minhas reflexões até aqui, as une apontando para as possibilidades filosóficas dessas incursões cartográficas sentimentais. Pensando inclusive nas atualidades contemporâneas dessas discussões, Merleau-Ponty, por exemplo, em seus últimos escritos, substitui o conceito de corpo ou corporeidade pelo conceito de carne, na obra “O visível e o invisível” ele fala de uma injunção (me parece possível pensar assim) entre a carne do mundo, a carne do corpo que se dá no tempo. Procurarei mostrar como os três pontos acima mencionados potencializam e dialogam com concepções como essa, abrindo um campo vasto e sobre o qual há ainda muito explorado a ser explorado filosoficamente.

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24/10/2018
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