Um tratado etíope do séc. XVII: da tradução para o português do Ḥatatā Zar a Yācqob Show all records where Título is equal to Um tratado etíope do séc. XVII: da tradução para o português do Ḥatatā Zar a Yācqob
Adriano Aprigliano Show all records where Autor is equal to Adriano Aprigliano
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O pequeno tratado do etíope Zar a Yācqob (1599-1692), denominado Ḥatatā, ou “Investigação,” escrito por volta de 1667, constitui até o momento uma das duas fontes que se conhecem do que se pode chamar de Filosofia Etíope, sendo a outra o também pouco extenso tratado de mesmo nome de seu discípulo Walda Ḥǝywat, escrito anos mais tarde, provavelmente ainda no séc. XVII, considerado de interesse secundário diante da obra original do mestre. Trata-se, o Ḥatatā, de uma autobiografia intelectual em que o autor narra como se retirou da sociedade, fugindo de perseguição religiosa, e foi viver numa caverna por um período de dois anos, ao longo dos quais investigou com base no entendimento ou razão (lǝbbawe) as bases da fé e da ética transmitidos por sua tradição, a igreja ortodoxa etíope, de base copta, e por outras tradições religiosas assentadas naquele momento em território etíope, como a muçulmana, a judaica e a cristã católica. Ao avaliar a revelação dos Livros Santos e os discursos tradicionais pelo crivo da razão, que considera um dom dado aos homens pelo criador, Zar a Yācqob não hesita em rejeitar tudo aquilo que lhe parece contrário à criação ou natureza (fǝṭrat) desse criador e, dessa forma, propõe um modo de vida racional, baseado na observação e regulação daquilo que entende por dons naturais, e divinos, do ser humano, revisando a ressignificando temas tais como a sexualidade, a geração de descendência, a preservação da vida do corpo, entre outros. A obra de Zar a Yācqob, desde que foi editada e traduzida para o latim por Enno Littmann, em 1904, já chamara a atenção pelo lugar absolutamente singular que ocupa no âmbito da literatura em língua gǝcǝz (etíope antigo). Carlo Conti Rossini, um dos maiores estudiosos das fontes etíopes na primeira metade do século XX, chegou mesmo a duvidar da autenticidade da obra. Só em tempo mais recente, com a tradução para o inglês e estudo de autoria do canadense Claude Sumner (1976), é que se retoma sob nova luz o texto de Zar a Yācqob como obra de profunda originalidade, cujas ideias sobre o papel do entendimento ou razão na avaliação de como proceder diante da realidade, fomentadas no período de exílio entre 1630 e 1632, antecipariam pontos de vista encontráveis no Discours de la Métode (1637), do francês René Descartes e na obra de Hume, Voltaire e outros. O objetivo desta comunicação é apresentar meu trabalho de tradução do Ḥatatā Zar a Yācqob para o português a partir do original em gǝcǝz (etíope antigo), comentando brevemente as características formais da obra, a seleção de temas e os princípios de argumentação. Falarei também brevemente das fontes em que autor se baseia, da questão das influências e dos termos centrais do vocabulário filosófico do autor, tais como natureza, razão e investigação.

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24/10/2018
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