As contribuições de Angela Davis ao pensamento feminista contemporâneo: por um 8M cada vez mais diverso

Thaís Rodrigues de Souza - Doutoranda UNIFESP - Profa. de Filosofia IFG

Uma das mais importantes expoentes do feminismo negro e membro de destaque de uma tradição radical de lutas, a filósofa Angela Davis tem alcançado proeminência nos estudos que visam compreender gênero, raça e classe em nosso país apenas muito recentemente, não obstante, muitas sejam suas obras, nas quais figuram em destaque temas como o racismo, o sexismo, a emancipação feminina, o sistema penal e a inter-relações entre esses temas.

Sua obra mais acessada no Brasil, Mulheres, Raça e Classe, publicada em 1981, é uma obra que expressa um contexto intelectual e político muito específico. Recuperando algumas das ideias já elaboradas em seu primeiro artigo Reflections on the Black Woman's Role in the Community of Slaves, Davis nos apresenta, em um estudo histórico e filosófico amplo, suas elaborações sobre a condição da mulher negra que remontam às campanhas feministas e abolicionistas do século XIX e à dificuldade do movimento negro em elaborar estratégias de enfrentamento ao sexismo na luta antirracista. Trata também do enfrentamento ao racismo na luta pelos direitos das mulheres e da tendência desses movimentos a não levar em consideração as especificidades das mulheres negras e trabalhadoras, sendo também fundamental em suas análises a desconstrução de estereótipos e imagens fictícias atribuídas às mulheres negras, a oposição a um discurso hegemônico do movimento de mulheres que invisibilizava a produção intelectual e as práticas de organização social de mulheres negras e a recuperação de iniciativas individuais e coletivas de resistência.

Ao questionarmo-nos o motivo da “demora” na publicação e diálogo sobre a autora e suas obras, em especial no contexto da filosofia acadêmica no Brasil, podemos nos deparar com repostas que tendem a apontar a pouca visibilidade no que concerne à filosofia produzida por mulheres, o reduzido número destas na academia e ainda a dificuldade existente em nosso país em pensar o racismo como componente estruturante de nossa sociedade. É somente através de muita luta dos movimentos sociais organizados que vemos hoje uma alteração neste estado de coisas, e tanto a filosofia tem se aberto à discussão destes temas, como a produção filosófica de Davis tem ganhado visibilidade, sendo finalmente traduzidas as suas obras Mulheres, Raça e Classe, Mulheres, Cultura e Política e A Liberdade é uma Luta Constante, pela editora Boitempo, e mais recentemente, Estarão as Prisões Obsoletas pela Editora Difel.

Reconhecida defensora dos direitos humanos das mulheres e da população negra, Angela Davis possui longa trajetória intelectual e política, iniciada na Universidade de Brandeis, com passagens pela Sorbonne, Universidade Goethe em Frankfurt e no contato com autores como Marcuse e Adorno. No que concerne à militância política, esta inicia-se em sua juventude, com passagens pelo hoje lendário Partido dos Panteras Negras e pelo Partido Comunista Americano. No entanto, a contribuição da autora para a defesa dos direitos das mulheres se expande para a defesa das mais variadas causas progressistas presentes na atualidade, perpassando a Causa Palestina e a importância da cultura produzida por mulheres nos países da diáspora.

Pode surpreender a muitos a quantidade de temas abordados pela autora em suas digressões e também em suas obras, no entanto, a busca por uma ampliação de lutas é parte do modo com Davis compreende a constituição das resistências e o papel das mulheres, e em especial das “mulheres negras na construção de uma nova utopia”.

Em suas análises, centradas na indicação de que as particularidades dos variados grupos de mulheres criam demandas especificas, e na visibilização e apoio a estratégias de resistência, reside a distintiva contribuição da obra e atuação política de Angela Davis, em uma análise que visa compreender as inter-relações entre classe, gênero e raça, que apresentam uma radicalização do pensamento feminista, ao antecipar a constituição do conceito de interseccionalidade, termo cunhado pela jurista afro- americana Kimberlé Crenshaw e hoje importante instrumental para pensar opressão e resistência no mundo.

No contexto de possibilidades reais e iminentes de perda de direitos que vivemos hoje, com a diminuição de ações de assistência às camadas mais pobres de nossa sociedade,  discussão de reformas trabalhista e previdenciária que afetam negativamente as mulheres trabalhadoras e com o aumento alarmante dos índices de violência degênero e feminicídios em nosso país, torna-se urgente que dialoguemos e compartilhemos contribuições relevantes para uma alteração de nossa sociedade, que garanta mais direitos, menos violência e mais qualidade de vida.

Em suas últimas visitas ao Brasil (1), Davis repetiu por diversos momentos a expressão “quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta junto”. Com essa frase a filósofa busca indicar a importância da compreensão das especificidades dos variados grupos de mulheres para a construção de uma luta ampla por direitos, na qual haja apoio mútuo. Davis é categórica em indicar em sua última obra publicada A Liberdade é uma Luta Constante a necessidade de catalisar e estabelecer conexões progressistas entre movimentos, criar elos com outras lutas sociais, sendo um processo feminista a compreensão dessas articulações, construção por ela denominada interseccionalidade de lutas.

Embora Davis nos informe ser esse um conceito a ser forjado, ela oferece-nos sua contribuição: a interseccionalidade de lutas diz respeito ao aprofundamento do conceito de interseccionalidade, no sentido de que ele seja elaborado e utilizado não apenas no que diz respeito aos corpos e experiências, no sentido de pensar marcadores sociais de exclusão e suas consequências, mas como referencial para criar estratégias globais de luta por justiça social. A ideia é que se desenvolvam estratégias de organização afim de que movimentos se identifiquem com uma questão específica como se esta lhes dissesse respeito, conexões no contexto das próprias lutas (2018, p. 34).

Desta feita, o feminismo é por Davis compreendido como uma orientação metodológica que em sua fase atual se caracteriza pela possibilidade do estabelecimento de relações com outros movimentos progressistas, o que permite a criação de solidariedades internacionais, e a interseccionalidade, “não tanto a interseccionalidade das identidades, mas a interseccionalidade das lutas” (2018, p. 131), mostra-se como uma construção teórica de valor crítico e rico, possibilitador de análises complexas da política contemporânea e dos limites das democracias. Que possamos nos abrir a essas contribuições para a construção de uma luta pelos direitos humanos das mulheres e um 8M cada vez mais diverso.

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(1) Em um contexto de participações que visavam contribuir para a discussão dos direitos humanos das mulheres, Davis esteve em nosso país já algumas vezes. A primeira na Iª Jornada Cultural Lélia Gonzalez, promovida pelo Centro de Cultura Negra do Maranhão, no ano de 1997, na cidade de São Luís do Maranhão, momento no qual Davis indicou a importância da historiadora e professora de filosofia Lélia Gonzalez para pensar os direitos da mulher negra em nosso país. Em sua última participação, ocorrida no mês de dezembro de 2018, no contexto do Encontro Nacional de Mulheres Negras – 30 anos – Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, realizado pelo Movimento Mulheres Negras do Brasil, na cidade de Goiânia, Davis explanou sobre a importância de um movimento organizado de mulheres, do combate à violência doméstica, ao racismo estrutural, à interseccionalidade de opressões, às relações entre acumulação primitiva do capital, escravização, colonialismo e suas consequências para as sociedades atuais, tratando ainda de eleições, encarceramento em massa e conflitos na Palestina.

 

Referências Bibliográficas
DAVIS, A. Mulheres, Raça e Classe. Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2016.
_______. Mulheres, Cultura e Política. Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2017.
________. As mulheres negras na construção de uma nova utopia. Conferência realizada no dia 13 de dezembro de 1997, em São Luís (MA), na Iª Jornada Cultural Lélia Gonzales, promovida pelo Centro de Cultura Negra do Maranhão e pelo Grup. Disponível em https://www.geledes.org.br/as-mulheres-negras-na-construcao-de-uma-nova-utopia- angela-davis/. Acesso 05 de setembro de 2017.
_________. A Liberdade é uma Luta Constante. Organização Frank Barat. Tradução Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2018
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