Coluna ANPOF

COLUNA ANPOF

Filosofia, modo de usar.

Alexandre de Oliveira Torres Carrasco  (Professor do Departamento de Filosofia UNIFESP)

Não faz muito tempo que a filosofia entre nós tinha algo de excêntrico. Faltava-lhe não sei o que de ordinário, de cotidiano, de prosaico. Tudo também se resume a entender quem seria esse “nós”, também um dos “nós” da questão, mas sigamos. O fato é que, repentinamente, pelo menos para efeito retórico, parece que não só, deixo aqui o palpite, a filosofia ou a “Filosofia” foi alçada à condição de inimiga, de vilã ou de notório instrumento do mal. Há nisso um inesperado reconhecimento que, de um jeito ou de outro, pega todos nós de surpresa, e até mesmo lisonjeia, reconheçamos. Acostumados como estávamos a certa irrelevância, agora temos que lidar com as injúrias dessa fama ou má fama. Claro que a surpresa decorre se colocarmos o juízo em perspectiva, não seria o caso, por óbvio, se considerarmos o emissor de tal juízo. O que mudou desde então, digamos, desde vinte anos – uso as medidas de minha própria formação, entre graduação, mestrado e doutorado –, o que nos fez passar do anonimato inofensivo ao primeiro plano das preocupações dos atuais donos do governo, e até anteontem pelo menos, donos também de muitas opiniões?

A resposta mais óbvia, a que seguiria pela mão o senso comum, seria a mesma que foi dada de viés pelos próceres do atual governo: multiplicamo-nos demais, e essa infestação de filosofia, esse excesso de filosofia vem corroendo as contas públicas. Verdade e mentira somados, em geral, dá em nova mentira. Não surpreende, portanto, a estratégia. Deixando de lado o peso irrisório que temos no orçamento do Ministério da Educação, nós e todas as ciências humanas, há um grão de verdade no sofisma: realmente nos multiplicamos e isso, com custo real ou irrisório, seria o verdadeiro incômodo.

Continue Reading

Por que não a Filosofia?

Franciele Bete Petry - UFSC (1)
.

Uma sociedade que decide condenar a Filosofia precisa explicar por que o faz. Ela é inútil? Supérflua? Desnecessária? Seja qual for o adjetivo usado para (des)qualificá-la, será necessário argumentar para defender uma posição. E argumentar, com honestidade intelectual, requer apresentar boas razões para que uma determinada conclusão possa ser sustentada. Para isso, é preciso utilizar as ferramentas da própria Filosofia. Quem não reconhece tal exigência, pode aparentemente criticar, mas no fundo, apenas faz acusações. A crítica requer argumentos e quem não está disposto a apresentá-los, apenas usa o discurso como retórica para mascarar o caráter autoritário das suas afirmações.

A discussão poderia começar, em primeiro lugar, pelo esclarecimento daquilo que chamamos de “Filosofia”. Podemos ter a impressão de estarmos falando da mesma coisa, mas a própria história dessa disciplina nos presenteia com uma lista ampla de definições, sem falar das controvérsias. Ao buscarmos respostas, perceberemos que definir a filosofia já é um problema filosófico que exige considerar também a pluralidade de formas em que ela se expressa, as diferentes subáreas em que se divide, as diferentes tradições de pensamento que a constituem, a sua constante renovação frente aos problemas contemporâneos: estamos falando de qual Filosofia?

Continue Reading

O antifilósofo

Prof. Dr. Filipe Campello (1)

Certas ideias em destaque no Brasil de hoje deveriam provocar indignação não só naqueles com posições políticas de esquerda, mas em quaisquer simpatizantes da tradição liberal. Pois embora divirjam sobre vários assuntos, esses dois lados do espectro político possuem visões semelhantes sobre a defesa da dignidade humana, da liberdade de expressão ou da igualdade de gênero, por exemplo.

De modo similar, em assuntos como o aquecimento global, o efeito das vacinas na saúde humana e a forma do planeta Terra, ambos os lados preferem apoiar-se antes no consenso científico do que em exóticas teorias da conspiração. Isso acontece porque tais posições compartilhadas estão associadas ao próprio progresso moral e científico das sociedades modernas. Nada tem a ver com “marxismo cultural”.

Continue Reading

O ensino de Filosofia e a reforma educacional: o que fazer?

Prof. Dr. Christian Lindberg - UFS

A reforma do ensino médio compreende uma série de alterações no escopo legal do país que ocorreu nos últimos três anos. Pode-se considerar, além da lei nº 13.415/2017, a Base Nacional Comum Curricular para o Ensino Médio (BNCC/EM), as Diretrizes Curriculares Nacional para o Ensino Médio e a Educação Profissional (DCNEM), a emenda constitucional nº 95 (EC/95), a nova política para a avaliação do ensino médio e a proposta de Base Nacional Comum da Formação para o Professor da Educação Básica (BNC/Professor). Todas essas mudanças têm provocado uma série de dúvidas e apreensões na comunidade filosófica brasileira. Assim, apresento algumas ideias com o objetivo de auxiliar o debate que ocorrerá no decorrer de 2019.

Continue Reading

Columbine já se anuncia aqui. Evitemos Columbine enquanto há tempo

Valéria Cristina L. Wilke - Departamento de Filosofia

Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO

Columbine é certamente um dos paradigmáticos eventos violentos que marcaram a recente cultura norte-americana, uma vez que o massacre teve um planejamento cuidadoso durante meses, do qual fizeram parte a aquisição de armas de fogo e a de material para a produção de bombas caseiras e de propano; e os atiradores tornaram-se marca a ser copiada. Em 1999, dois estudantes transformaram a Columbine High Scholl, no Colorado, num palco de horrores e mataram doze colegas e um professor, além de ferirem outras pessoas, antes de se suicidarem. Filmes eternizaram a tragédia, dentre eles os premiados Tiros em Columbine, o documentário de Michael Moore/Michael Donovan, e Elephant, de Gus Van Sant.

Continue Reading

O nome da confusão

Amaro Fleck (Professor de Filosofia da Universidade Federal de Lavras)

Há momentos em que moinhos de vento são vistos como inimigos, e contra eles travam-se batalhas épicas. Assim como o kitgay e a onipresente doutrinação nas escolas, o marxismo cultural não é mais do que a designação para uma grande confusão, um delírio, uma alucinação. O nome de algo que nunca existiu, ou melhor, que passou a existir pela série de efeitos que encadeia, embora em sua origem não exista mais do que a ausência de uma leitura. Ainda assim, os danos causados por tais batalhas não são menos reais.

O assim chamado marxismo cultural é uma teoria da conspiração. De acordo com ela haveria um plano bem articulado por parte dos comunistas (quais? O partido comunista soviético? A internacional dos trabalhadores? Um grupinho de intelectuais em um gabinete universitário? Um intelectual, solitário e preso, que nunca teve contato com os anteriores?) para dominar – e destruir, o que seria o mesmo – a cultura ocidental. O suposto objetivo seria “comer pelas beiradas”: em um primeiro momento controlar a formação da opinião pública para depois tomar e coletivizar os meios de produção; ou, o que por algum misterioso motivo aparece junto, para incentivar a promiscuidade em todas as suas formas não reprodutivas (afinal o objetivo último dos comunistas gayzistas é a eliminação da civilização, e não a coletivização dos meios de produção).

Continue Reading

“Nós, os inimigos”

Prof. Dr. André Constantino Yazbek
Doutor em Filosofia (PUC-SP), Professor Adjunto de Filosofia e Chefe do
Departamento de Filosofia da Universidade Federal Fluminense – UFF

 

Algumas declarações do atual Ministro da Educação, Abraham Weintraub, com intervalos de poucos dias e devidamente acompanhadas de afirmações de mesmo quilate proferidas pelo senhor excelentíssimo Presidente da República, Jair Bolsonaro, dão o tom exato da espécie de narrativa paranoica que é constitutiva das concepções autoritárias de governo: nós, os professores de filosofia e sociologia, dentre tantos outros espantalhos convenientes às concepções obscurantistas deste governo, devemos ser neutralizados, e isso a bem do próprio erário público. Assim, no dia 26 de abril, em uma “live” em rede social, terra de ninguém, o senhor Weintraub afirmou ser necessário “descentralizar” investimentos em faculdades de filosofia e sociologia, sem especificar exatamente o que isso significaria, mas sinalizando claramente a disposição de minguar o já parco suporte público aos cursos universitários e de humanidades em geral. No dia 30 de abril, por sua vez, uma nova investida, desta feita realizada em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo: afirmando a realização de um corte discricionário que pareceria beirar a ilegalidade – por seu caráter de retaliação e pelo tom difamatório que o acompanha –, o senhor Weintraub anunciou que o Ministério da Educação cortaria verbas de universidades que estivessem promovendo “balbúrdia” em seus campi, referindo-se especificamente à Universidade Federal de Brasília (Unb), à Universidade Federal Fluminense (UFF) e à Universidade Federal da Bahia (UFBA), instituições que gozam de prestígio nacional e internacional e que, inclusive, figuram entre as instituições de melhor desempenho do país, segundo números do próprio Ministério da Educação (MEC). Um dia depois, novo vai-e-vem errático, e somos informados, por um comunicado oficial, que o MEC cortará 30% das verbas de todas as universidades federais; e seguiram-se provocações ao Twitter contra os “reitores (ditos) esquerdistas”.

Continue Reading

O recrudescimento da obliteração da Filosofia diante de uma conjuntura reacionária (ou) sobre o papel constitucional de um governo que se supõe republicano num Estado democrático de direito

Prof. Dr. Jozivan Guedes
PPG/Filosofia-UFPI
Doutor Filosofia-PUCRS

Ouço, agora, porém exclamar de todos os lados: não raciocineis! O oficial diz: não raciocineis, mas exercitai- vos! O financista exclama: não raciocineis, mas pagai! O sacerdote proclama: não raciocineis, mas crede! [...]. Eis aqui por toda a parte a restrição da liberdade (KANT. Was ist Aufklärung).

Nada mais relevante para diagnóstico de época do que a oposição de Kant às restrições de seu tempo (e aqui é um dos fatores que me levam a pensar que Kant é mais interessante para Teoria Crítica do que o próprio Hegel) – sendo que ele próprio sofreu duras repressões do Estado prussiano quando tencionou publicar “A religião nos limites da simples razão”. Kant, no contexto do século XVIII de efervescência do Iluminismo, com seus conceitos de autonomia e publicidade, opôs-se radicalmente à restrição do pensar; considerava um regresso, uma pauperização, práticas que colapsam o lugar do filósofo na sociedade. Defendia que não era necessário que os filósofos entrassem na política, pois o poder poderia corromper o livre juízo da razão, mas, concomitantemente, reivindicava que os mesmos pudessem expressar livremente suas opiniões acerca do justo no que concerne aos direitos humanos, aos direitos de cidadania, à questão da paz, etc. Subscrevendo a isso, o Estado de direito estaria cumprindo o seu papel republicano, e, como ele afirma em Antropologia de um ponto de vista pragmático, apenas no republicanismo seria possível um equilíbrio entre liberdade, poder e lei.

Continue Reading

O que estamos fazendo com os nossos meninos?

Érico Andrade
ericoandrade@gmail.com
Psicanalista, filósofo e professor de filosofia da UFPE

Qualquer tentativa de oferecer uma explicação exaustiva para o massacre de Suzano está fada a figurar no hall das pretensões narcísicas de dar a um evento imponderável à medida daquilo que mais nos importa. A maior segurança na escola depende das pessoas se sentirem pertencidas naquele espaço e não de qualquer controle rígido de circulação de pessoas. As armas, diversos estudos apontam, quanto mais circulam mais matam e só pessoas engajadas com a indústria das armas podem reconhecer em qualquer cidadão (qualquer professor ou professora) uma espécie de Rambo capaz de reagir ao perigo de forma tão rápida quanto precisa. O bullying é tão difundido quanto praticado e se para cada estudante que sofreu bullyins houvesse uma reação violenta, já não teríamos mais escolas.

Continue Reading

A história da filosofia e as obras escritas por mulheres: uma nota metodológica

Nastassja Pugliese
FE/UFRJ - PPGLM/UFRJ

Hipátia de Alexandria, Marie de Gournay, Christine de Pizan, Margaret Cavendish, Kristina Wasa, Anne Conway, Damaris Cudworth, Mary Astell, Émile du Châtelet, Mary Wollstonecraft. Mesmo com a ampliação dos debates na comunidade filosófica brasileira sobre a ausência de autoras mulheres nas obras canônicas da história da filosofia, ainda é muito provável que um aluno de graduação termine seu curso sem ter ouvido falar sobre nenhuma delas. É possível, ainda, que um aluno pós-graduação não tenha participado ou ouvido falar bem de pesquisa alguma sobre elas. Também não é impossível que professores universitários que trabalham com história da filosofia não tenham lido obras produzidas por mulheres filósofas. E, sejamos realistas, há um grande desinteresse por parte destes últimos em investigar sobre obras não-canônicas escritas por “autores menores”. É comum que os professores pesquisadores descartem de antemão a relevância destas obras por não terem eles mesmos sido expostos a elas ao longo da carreira (afinal, se não estão no cânone, é porque suas obras não são tão importantes assim). (1)

Continue Reading

FaLang translation system by Faboba

Todos os Posts