Filosofando com sotaques africanos e indígenas

Renato Noguera
PPGFil/UFRRJ
Colaborador do PPFEN/Cefet-RJ
GT Filosofar e Ensinar a Filosofar

Nós temos acompanhado um debate muito fértil sobre filosofia brasileira. Nossa primeira intenção era comentar os textos de Rafael Hadock-Lobo,  Vladimir Safatle, Julio Cabrera, Carla Rodrigues, José Crisóstomo de Souza,  Filipe Ceppas e Ronie Alexsandro Teles da Silveira que integram mais diretamente essa discussão. Mas, vamos chamar atenção para outros aspectos que, invariavelmente, estão presente em alguns dos artigos.  Dentro de um contexto complexo formado pelo patriarcado, sexismo, misógina, eurocentrismo e racismo, o “fazer filosofia” não escapa à colonialidade. A partir de leituras de filósofas como  Marimba Ani, Sobonfu Somé e dos filósofos Mogobe Ramose e Nelson Maldonado-Torres, podemos fazer algumas conjecturas para enriquecer o debate. No contexto da colonialidade, a filosofia tem reproduzido um mito de universalidade que recusa o seu caráter geopolítico. Ou seja, a pessoa que fala fica apagada da análise e, ao permanecer oculta, facilita que desconsideremos o lugar epistêmico étnico-racial, sexual, de gênero e geográfico. O sujeito enunciador aparece desvinculado de suas condições geopolíticas. Vale uma ressalva, o lugar social não é a mesma coisa que o lugar epistêmico. Uma pessoa pode estar numa posição de desvantagens sócio-políticas e ser discriminada em alguma instância; mas, alinhar-se às fileiras epistêmicas hegemônicas. Ou seja, falando o que é “permitido falar”. O incômodo surge quando se fala o que não é permitido. Por exemplo, a afirmação de que é incorreto “impor” o nome “filosofia” ao pensamento africano antigo indica mais desconhecimento desses textos do que rigor filosófico. Afinal, seja por preconceito, vasta ignorância dos textos não-ocidentais e/ou fundamentalismo eurocêntrico, muitas(os) filósofas(os) insistem em não fazer um debate rigoroso e profundo sobre o assunto A filosofia antes dos gregos (título do livro do português José Nunes Carreira).  Considero esses motivos são antifilosóficos, porque uma atitude filosófica não precisa ser avessa ao exame das contradições do seu próprio argumento. Mas, quando o assunto é a exclusividade grega da filosofia na antiguidade, muitas(os) filósofas(os) se tornam intelectuais dogmáticas(os) incapazes de sequer considerar que existem outras abordagens que merecem análise. Até parece que têm medo de fazer um debate qualificado e se verem obrigadas(os) a rever suas “crenças” filosóficas, sobretudo a hipótese de que a filosofia não nasceu na Grécia. Por isso, defendo a necessidade de que seja obrigatório incluir filosofia africana nos cursos de graduação.

Em termos geopolíticos, a filosofia se parece com a gastronomia, quando um homem branco com sotaque francês vestido com os apetrechos do trabalhador da cozinha, ele se “torna” um chef. Uma mulher negra com a mesma roupa e preparando a mesma comida geralmente é vista como cozinheira. Por isso, considero que muitos comentadores dizem que o Brasil não precisa/não tem necessidade (de) fazer filosofia brasileira, bastaria cozinhar as receitas dos grandes filósofos (diga-se de passagem, a maioria homens brancos europeus). A pergunta que não podemos deixar de lado: o que dá mais prestígio, reconhecimento e impacto social? Um homem branco com sotaque francês fazendo comida? Ou uma mulher negra, ou ainda uma mulher indígena, cozinhando? Essa comparação serve para o mundo acadêmico da filosofia. As receitas e pratos são variados; os gostos são diversos. Existem chefs que cozinham para poucas pessoas, um tipo de “alta” e “fina” gastronomia que não seria para todos os paladares. Mas, existem chefs que preparam alimentos em larga escala, pratos gordurosos e pesados (iguarias que nem todo mundo tem estômago para digerir). Cabe às pessoas gourmet experimentar os pratos sem preconceito. Afinal, como uma pessoa pode dizer que jiló é ruim se nunca experimentou receitas diferentes com jiló?

Dentro desse debate alguns filósofos foram responsáveis por popularizar uma ideia controversa. Miguel de Unamuno, na esteira de Martin Heidegger, disse que “É indubitável que a língua alemã possui grandes vantagens para a investigação filosófica”. As línguas gregas e alemãs teriam grande vantagem para a atividade filosófica. Mas, não valeria conhecer melhor outras línguas como yorubá, kimbundu, yanomami e guarani, será que elas não são muito (mais) propícias para filosofar? De qualquer modo, o sotaque do português brasileiro, ou ainda, o pretoguês, como nos dizia a filósofa negra brasileira Lélia Gonzalez é uma língua que pode trazer muitas vantagens para a nossa filosofia. Mas, ela permanece desconhecida e sem o devido respeito de grande parte da comunidade acadêmica. Uma parcela de filósofas e filósofos parece colocar o grego num patamar mais elevado do que o yorubá, o kimbundu e o guarani. Mas, pouquíssimos historiadores e historiadoras da filosofia no Brasil têm conhecimento de línguas africanas e dos povos indígenas. Como criticar o que não se conhece? Existem trabalhos latino-americanos consolidados sobre filosofia dos povos astecas, maias e incas. Assim como muitos escritos falando de escolas africanas de filosofia tão antigas quanto as gregas e até mais velhas que tratavam de uma arte da palavra perfeita denominada rekhet, segundo o filósofo congôles Théopile Obenga essa palavra significa exatamente filosofia. Enfim, existem muitas tradições praticamente desconhecidas e sobre as quais pouquíssimas pessoas formadas dentro do cânone ocidental têm algo realmente sério a dizer. Por isso, concordamos com Felipe Ceppas é preciso ler Davi Kopenawa, assim como Daniel Munduruku. Nós também precisamos ler Ptahotep, Amenemope, Nkolo Foe, dentre outras e outros. Sem dúvida, é de interesse público que esses textos de autorias africanas e indígenas passem por análise para confirmamos que são filosóficos – coisa da qual estou convencido depois dos primeiros contatos com parte desse vasto material na virada do século, ainda no ano 2000.  Por isso, também considero importante as considerações de Julio Cabrera sobre a incursão na América Latina; mas, penso que alguns filósofos do quilate do boliviano Luis Tapia Mealla são tão importantes quanto os latino-americanos já consagrados, pela simples razão de trabalharem em cima de referências culturas andinas, maias, astecas e dos povos indígenas em geral. O que enriquece muito o debate filosófico.

Vale a pena interrogar, por que filosofia brasileira seria um exercício mais difícil que filosofia no Brasil? Por que tanto pudor em afirmar a possibilidade de uma filosofia brasileira? O mito da filosofia como saber universal sem sujeito geopolítico responderia essas perguntas. Ou ainda, estaríamos diante de um fundamentalismo eurocêntrico que arvora a “capacidade” filosófica para enfrentar todas as grandes questões. O fundamentalismo eurocêntrico na área de filosofia traz em si a ideia de que uma única tradição epistêmica pode ser responsável por garantir a “Verdade” e a “Universalidade”. Ora, esse universal abstrato não passa de um particular que ascendeu a essa posição após disputas políticas. Por razões geopolíticas, existem elementos subentendidos na dinâmica acadêmica que fazem alguns autores invisíveis.  Um paralelo pode ser estabelecido na literatura quando falamos de autorias africanas

É preciso descolonizarmos o Brasil para que a filosofia brasileira floresça. Ronie Alexsandro Teles da Silveira diz: “Por exemplo, quem se sentiria confortável em ter de lidar filosoficamente com um país que não é ocidental, cristão, capitalista e democrático? Essa me parece a tarefa de uma filosofia brasileira relevante para o que o Brasil tem sido”. Pois bem, esse é o ponto. O Brasil pode se reconhecer como conjunto de Quilombos e Aldeias, territórios afro-indígenas em que as mulheres são atrizes sociais fundamentais para resistir aos ataques do “Império”? Penso que essa pode ser uma inspiração filosófica mais contundente do que a ágora ateniense,  a floresta alemã, palácios franceses ou campos britânicos. Do mesmo modo como se perguntou Theodor Adorno sobre a possibilidade de falar em racionalidade após Auschwitz, a filosofia brasileira não pode deixar de se debruçar sobre os massacres de Eldorado do Carajás, da Candelária e do Carandiru, dentre outros. De maneira que possamos falar do caráter polirracional da razão e dos graves perigos da monorracionalidade (Dismas Masolo), discorres sobre a necropolítica deliberada que decreta “formalmente” que tipos de pessoas podem ser mortas à luz do dia sem provocar comoção pública (Achille Mbembe).

De que maneira uma trilha alternativa à cultura ocidental pode ser construída, se não através de inflexões e reflexões sobre a cultura brasileira (em seus elementos mais invisíveis: culturas afro-brasileira, africana e dos povos indígenas)? Ora, se concordamos que não somos a Europa, o que temos de específico e singular? Tudo indica que existem menos semelhanças com Portugal, França ou Dinamarca do que com as maneiras como a África reinventou o Brasil resistindo à escravização e ao racismo, assim como os povos indígenas combatem o genocídio. Por isso, que vale a pena destacar que a cultura brasileira passa pela pajelança, pelo samba, pela capoeira, dentre outros. Assim, não podemos deixar debaixo do tapete os conflitos entre a Senzala e a Casa Grande.  Um ponto de partida possível, dentre tantos outros, reconhecer que a filosofia não tem respostas consensuais e que a realidade brasileira não pode ser pensada fora dos embates étnico-raciais que constituem a nossa sociedade.  De certo, não podemos descartar que a hipótese de uma filosofia brasileira relevante precise ser escrita em pretoguês. A interlocução deverá passar menos pelo diálogo com o mito grego de Ulisses como fez belissimamente Adorno. Eu acredito que uma incursão filosófica, que esteja em encruzilhadas africanas e indígenas, pode ser mais interessante que retomar Apolo e Dioníso como fez Nietzsche de modo brilhante. Mas, Nietzsche era europeu e dizia que queria conhecer um deus dançarino. Ora, a filósofa burquinense Sobonfu Somé não precisa procurar uma divindade dançarina. A pensadora nigeriana Oyeronke Oyewumi fala em cosmosensação ao invés de cosmovisão. O filósofo Dismas Masolo explica que a polirracionalidade é fundamental para filosofar. Existem tantas abordagens interessantes que não circulam com muita frequência no nosso meio acadêmico pura e simplesmente por conta do fundamentalismo eurocêntrico. Não queremos abrir mão de Atenas, Apolo, Ulisses, Dioniso e tantos outros mitos europeus que têm atravessado a filosofia ocidental.  O filósofo alemão George Hegel posicionou a Coruja de Atenas como o símbolo da filosofia; mas, existem outras aves que servem de “metáforas” da filosofia. A Galinha D’Angola e o Uirapuru são duas imagens belíssimas para “representar” a filosofia. Com efeito, não podemos fechar os olhos, ouvidos e todo o corpo para as narrativas de Oxum, Orunmilá, Oxóssi, Exu, Iara e Jaci. Elas nos trazem muitas possibilidades para uma filosofia afro-indígena, quiçá as bases reais de uma filosofia brasileira escrita em pretoguês. 

ANPOF (biênio 2017-2018)
20 de Fevereiro de 2017
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