As mulheres ou os 'silêncios' da história da filosofia

 

Susana de Castro (PPGF/UFRJ)

Carla Rodrigues (PPGF/UFRJ)

Nosso título é uma apropriação, para o campo filosófico, do título de um dos livros da historiadora francesa Michelle Perrot – As mulheres ou os silêncios da história –, com o qual pretendemos discutir, neste 8 de março marcado por uma série de manifestações feministas principalmente no mundo ocidental, mas não apenas, alguns dos motivos que nos levam a uma crítica da sobreposição da história da filosofia à história da filosofia feita por homens, como se não tivesse havido, desde a Grécia e da  participação de Diotima nos diálogos socráticos, a presença feminina na história do pensamento. Perrot é uma das responsáveis pela abertura do campo da historiografia feminista, esta que nos permite fazer hoje a crítica da história universal como uma narrativa exclusivamente protagonizada e escrita por homens. Ainda está por ser feito um trabalho como o seu na história da filosofia.

Identificar essa lacuna é possível hoje na medida em que, ao longo do século XX, inúmeros filósofos e filósofas se dedicaram a interrogar o lugar da filosofia como um lugar de neutralidade, no qual os discursos de poder – sobre o humano, sobre a verdade, sobre o mundo – foram naturalizados como universais, mas, de fato, escritos e protagonizados por homens. Como já nos ensinou Michel Foucault, não há discurso sem força, não há saber sem poder. Há, no entanto, uma história da filosofia feita por mulheres que não nos foi contada. Na França do século XVIII, quando Olympes de Gouges enfrentou os argumentos misóginos de J.J. Rousseau, na Inglaterra do mesmo período, quando Mary Woolstonecraft reivindicou direitos para as mulheres, na Alemanha de Lou Salomé no século XIX e de Hannah Arendt no século XX, ao longo de todo esse período as mulheres produziram filosofia assim como realizaram outras tantas obras -- porém, invisíveis.

A invisibilidade do trabalho filosófico das mulheres é a razão, por exemplo, de duas francesas – Simone Weil e Simone de Beauvoir – terem sido consideradas “apenas” escritoras, e de Perrot insistir na sua obra que o silêncio tem sido um mandamento reiterado às mulheres através de séculos: “Silêncio nas assembleias políticas povoadas de homens que as tomam de assalto com sua eloquência masculina. Silêncio no espaço público onde sua intervenção coletiva é assimilada à histeria do grito e a uma atitude barulhenta demais como a da ‘vida fácil’” (PERROT, As mulheres ou os silêncios da história, p. 10). A filosofia nasce na pólis, no espaço público onde as mulheres não estavam ou, se estavam, deveriam permanecer no silêncio da invisibilidade.

Hoje, a filosofia se faz no espaço público das universidades, onde as mulheres ainda são minoria, como mostra a pesquisa da professora Carolina Araújo (http://anpof.org/portal/images/Documentos/ARAUJOCarolina_Artigo_2016.pdf). Se a historiografia feminista foi fundamental para identificar as mulheres como “os excluídos da história” – citando de novo um título de Perrot (Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros) – , o momento atual tem imensa contribuição a dar na transformação desse silêncio histórico em emergentes iniciativas de escrever uma nova história da filosofia, que inclua as contribuições das mulheres. Além disso, o movimento de a descolonização do saber e o desenho de outra geopolítica do pensamento, nos impele a buscar uma representação mais plural das vozes femininas, abrindo espaço para divulgação das ideias das filósofas africanas, latino-americanas e brasileiras. No recente debate promovido pela Anpof sobre a necessidade de uma "filosofia brasileira", a exclusão das mulheres se reproduziu (http://anpof.org/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/1033-a-filosofia-brasileira-nao-e-feita-so-por-homens). Num dos artigos, o prof. Julio Cabrera afirmava já existir uma filosofia brasileira ou latino-americana ou mesmo africana. Para provar sua tese, lista de 16 autores, todos homens.   

Entre os objetivos do GT Filosofia e Gênero, criado na Anpof em 2016, está dar visibilidade às mulheres filósofas que fazem de temas como diferença sexual, hierarquia de gênero, opressão e discriminação contra minorias seus objetos de pesquisa. No entanto, embora seja uma iniciativa no âmbito da pós-graduação (assim como a criação de linhas de pesquisa que contemplem gênero, como a recém-criada Gêneros, Raças e Culturas, no PPGF da UFRJ), sabemos que o trabalho de reescrever a história da filosofia fazendo justiça às mulheres precisa ser feito desde a formação no ensino médio e na graduação. As filósofas ainda não fazem parte da história da filosofia contada nas escolas. Como diria Foucault, as estratégias discursivas de poder passam por dinâmicas de repetição e reiteração de um cânone, e exclusão de outras possíveis narrativas e perspectivas. A unanimidade não é consensual, mas fruto de uma política acadêmica que não abre espaço para vozes dissonantes. Evidentemente, como mostram Judith Butler e Michael Foucault, reconhecer a dinâmica violenta de construção de subjetividades a partir do padrão masculino hegemônico (e aqui diríamos também, a partir do padrão eurocêntrico hegemônico), não implica exatamente na possibilidade de escapar completamente dessa cultura que forja nossas identidades. Mas abre, sim, o caminho para que, primeiro, façamos a crítica dos discursos de verdade, segundo, que possamos utilizar também a mesma estratégia de repetição, mas a partir de outros parâmetros de 'verdade'. Somente assim escapamos à cilada já apontada por Joan Scott, de apenas criar um nicho filosófico que não afete a disposição e estrutura geral da disciplina. Sem questionar as escolhas epistêmicas subjacentes ao modus operandi da filosofia no Brasil, acabaremos restringidas ao campo das que trabalham com 'coisas de mulher'. Trata-se aqui de começarmos a ensinar e trabalhar em torno do pensamento de filósofas dando-lhes a projeção merecida de suas obras. A repetição dessa ação, acreditamos, levará ao final ao reconhecimento global de suas reflexões, da relevância de suas obras para o pensamento filosófico. No futuro nenhum manual de história de filosofia será publicado no qual não constem as contribuições das filósofas.

ANPOF (biênio 2017-2018)
08 de Março de 2017
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