A FILOSOFIA DE PORCHAT: TECHNÉ, NEO-PIRRONISMO, PRAGMATISMO

Prof. Dr. José Crisóstomo de Souza

Durante seu percurso intelectual, Oswaldo Porchat Pereira veio a desenvolver, aos poucos, uma concepção filosófica própria, que chamou de neo-pirronismo, de ceticismo e – para neutralizar preconceitos – de “empirismo cético”. Antes de chegar a ela, porém, teve de se livrar, segundo ele nos conta, da “ideologia” da receita goldschmidtiana de filosofia que tão fervorosamente abraçara e pregara ao lado dos colegas de departamento. Pois, junto com o método, e embutido nele, o estruturalismo de Victor Goldschmidt passaria “uma filosofia sobre a história da filosofia”, e mesmo “uma filosofia sobre a filosofia” (2) – que permanece até hoje pouco tematizada entre nós e que bloquearia toda possibilidade de efetivamente fazermos filosofia. Gradualmente, Porchat passou a desencantar-se das perspectivas abertas – ou melhor, fechadas - ao trabalho propriamente filosófico, pelo goldschmitismo exclusivo, enquanto entrava em contato com o ceticismo grego, desafiador das pretensões da grande filosofia, de sistema.

Foi naquela conjuntura que, um tanto desencantado da filosofia, Porchat resolveu dedicar-se ao estudo da lógica formal. Foi então que saiu novamente do país (depois de sua formação goldschmidtiana na França), dessa vez para fazer na área de lógica um pós-doutorado de dois anos, de 1969 a 1970, na Universidade da Califórnia, Berkeley, com o professor Benson Mates. Bem mais adiante, em 1983, faria um outro pós-doutorado, dessa vez em Oxford, na Inglaterra, onde teve a experiência, marcante, de um modo vivo e discutido de fazer filosofia, baseado na argumentação própria sobre temas e problemas, em vez de voltado para a história da filosofia, muito menos para a exegese e o comentário estruturalista da obra dos filósofos canônicos, históricos. Esse contato com o modo anglo-saxônico de fazer filosofia, em universidades da Inglaterra e dos Estados Unidos, certamente contribuiu para mudar sua forma de encarar o trabalho na área, tanto no que diz respeito à pesquisa como ao ensino. Isso ainda que a forma que Porchat desenvolveu para essas coisas seja sua, resultado de um desenvolvimento próprio, no qual mantém-se ainda fiel ao modelo de leitura goldschmidtiana da obra filosófica, embora agora apenas como um “momento” do trabalho em filosofia.

Em todo caso, a descoberta gradual do ceticismo grego, em sua formulação pirrônica, (3) na obra de Sexto Empírico, e a elaboração de uma interpretação própria e restauradora de sua verdade, abriram-lhe, anos depois, perspectivas filosóficas positivas. Só que agora devidamente “desinfladas”. Porchat fora levado a refletir sobre a vida comum e o saber comum, em oposição à “alienação” da filosofia tradicional e especulativa, com seus grandes sistemas absolutos e excludentes. “Algo quixotescamente”- diz ele – “julguei que era preciso defender a vida contra a filosofia”. Logo Porchat passou a uma fase de “promoção filosófica da visão comum do mundo”, iniciada em torno de 1975. “O meu problema sempre foi o do reconhecimento da vida cotidiana” - o que, entretanto, numa primeira etapa, teria buscado “dentro ainda de certos parâmetros definidos pela filosofia tradicional”. (4)

Em 1975 era assim que Porchat resumia seu desenvolvimento filosófico até então, como um percurso “lógico” (até mesmo hegelianamente dialético), segundo uma sequência de etapas de algum modo necessárias: “descoberta do conflito das filosofias, experiência de sua indecidibilidade, tentação do ceticismo, renúncia à filosofia, redescoberta da vida comum, silêncio da não-filosofia, promoção filosófica da visão comum”. Quando, por fim, “damo-nos conta de que a filosofia buscada nas nuvens nos esperava, de algum modo, desde sempre por nós, na terra dos homens”. Se tivesse começado pela promoção da filosofia comum do mundo - ele depois entendeu -, esta seria apenas mais uma filosofia naquele eterno conflito das filosofias, onde nenhuma resolução ou vitória é possível. “Somente a renúncia à filosofia [dogmática] pôde conseguir” a virada filosófica que realizou – como numa verdadeira superação, não uma simples negação. (5)

Mais tarde, em meados de 1980, Porchat descobriria que é justamente aquele reconhecimento, da vida comum, da sua dignidade, que o ceticismo pirrônico, bem entendido, promove. Mas só em torno de 1991 ele passou decididamente a uma posição filosófica definida por ele como neopirrônica. “Foi na busca da conciliação necessária entre Filosofia e Vida que acabei por render-me ao pirronismo” – depois de “resistir-lhe por muito tempo”, enquanto descobria seu sentido mais genuíno. (6) Porchat pensara inicialmente que “o ceticismo era um desafio filosófico ao saber da vida comum”, mas mudou depois de ideia sobre isso. O ceticismo seria antes a própria defesa da vida comum e do simples saber dos homens comuns (embora não de seus eventuais resíduos dogmáticos), contra o “pseudo-saber” das filosofias de sistema. (7) Isso porque “em nenhum momento” a suspensão do juízo, a epokhé proposta pelo ceticismo grego, “diz respeito ao discurso empregado na vida comum”, que opera no nível modesto do fenômeno, isto é, daquilo que “nos aparece”. Em 1993, acerca de sua produção dos 25 anos anteriores, Porchat afirmava que, em meio a “voltas, contravoltas e autocriticas”, sua temática persistente sempre foi a vida cotidiana e comum, a koinòs bíos. Em 1997, ele se referia assim à relação entre a vida comum e a filosofia: “Acredito que boa parte dos filósofos certamente tomou os problemas da vida particular e da vida das comunidades em que viviam como ponto de partida para pensar as questões filosóficas; acontece que, em muita filosofia, a elaboração da problemática filosófica levou à criação daquilo que chamei, num texto meu, de elaboração de um espaço extra-mudano”. (8) É preciso retornar desse tópos ouránios à terra dos homens, e para tanto o pirronismo (mesmo sem ser para isso a única via) é tudo aquilo de que precisamos.

Porchat mesmo observa que sua elaboração neo-pirrônica converge com desenvolvimentos mais recentes da filosofia, na linha de um logos humanizado, finito e reconciliado com a contingência. “Tudo se passa como se a filosofia séria já tivesse superado sua fase extra-mundana, podendo agora instalar-se despreocupadamente no espaço do mundo do fenômeno e da empiria”. (9) E isso mesmo quando essa filosofia recente não se serve do vocabulário pirrônico (que, para Porchat, está longe de ser o único legítimo). “Eu diria que muitas e diferentes filosofias – como o pragmatismo de James e Dewey, o neo-positivismo de Carnap, o pós-empirismo de Quine ou o neo-pragmatismo de Rorty, apresentam grande número de elementos que são, do ponto de vista histórico, plenamente céticos” (10) - no sentido que Porchat recupera para ceticismo de Pirro de Élis e de Sexto Empírico. Pois o cético (pirrônico) é aquele que investiga permanentemente, que tem sempre uma posição cautelosa e falibilista com relação ao alcance de suas afirmações, e que, sobretudo, desconfia do discurso transcendente e tético em geral, que pretende instaurar o Real. O filósofo cético simplesmente não quer “aventurar-se além da empiria”, não quer “transcendê-la”; (11) em vez disso, ele denuncia a inclinação e precipitação (propéteia) dogmática dos sistemas filosóficos especulativos. O ceticismo pirrônico “é a atitude prática de pôr em xeque o discurso especulativo e a pretensão à transcendência,” (12) - próprios das filosofias de sistema.

Com relação às expressões mais clássicas da filosofia dogmática e especulativa, de sistema, para Porchat elas também podem ser, digamos, recuperadas, em chave atualizadora, para além do exercício escolar ou escolástico de sua reconstituição estruturalista (em que já nos tornamos tão bons): “Certas tramas fundamentais do pensamento, das várias filosofias, podem ser preservadas ou re-atualizadas”. É o que ocorre, por exemplo, no caso do neo-aristotelismo, do neo-hegelianismo, do neo-kantismo, etc. Pois, “embora muito do que Kant, Hegel, Platão e Aristóteles disseram esteja datado e corresponda às perspectivas da época, muito também pode ser utilizado atualmente, e utilizado de maneira bastante profícua”. (13) Como no próprio caso do pirronismo de Porchat: “Guardando grande fidelidade às concepções básicas originárias do pirronismo, me permito repensá-lo à luz da problemática filosófica contemporânea, eventualmente enriquecê-lo e corrigi-lo, onde quer que isso pareça necessário”. (14) Não é bem isso que o goldschmidtismo promove; é isso, antes, que este bloqueia. Como entendo, então, o pirronismo porchatiano oferece uma via para aquela recuperação / apropriação, atualizadora, da filosofia tradicional e dogmática. Pois, como diz Porchat, tal pirronismo “traz todas as filosofias de volta para o espaço da vida comum” e, “sob o prisma desta, as aprecia e as relativiza”. (15) O que me parece pode ser entendido como uma sugestão de um modo não-goldschmidtiano de estudo e apropriação da filosofia histórica: a leitura atualizadora, “desinfladora”, dos sistemas filosóficos passados. Com efeito, para Porchat, “os grandes filósofos contribuíram decisivamente para o estudo da problemática do ser humano, e retraduzir a sua linguagem” – para um registro fenomênico, como ele diz – “é de fundamental importância”. (16) Eis aí uma proposta de abordagem e de utilização da filosofia histórica.

O ceticismo grego, porém, não é apenas um método e uma sugestão de apropriação, mas é uma filosofia e um ponto de vista anti-dogmático e anti-metafísico (eu diria também promissoramente anti-autoritário e anti-hierárquico, em sentido epistêmico). O neo-pirronismo porchatiano, certamente, tem tanto um lado negativo, dialético, corrosivo, frente ao dogmatismo das filosofias metafísicas, de sistema, quanto um lado positivo, eminentemente prático, pragmático. No ceticismo clássico, “o discurso se torna um instrumento, de um lado, para a denúncia do dogmatismo, e, de outro, para a defesa da vida comum”. Mais ainda, deixado para trás o espaço da ultra- mundanidade alienada, restaria um grande campo para o uso fecundo da razão no espaço do fenômeno, da empiria, do mundo simplesmente humano. “A razão filosófica continua a ocupar-se” até mesmo “de tudo” – “mas tudo agora é o mundo dos homens”. E com que fins deveria ela se ocupar de tudo? Na sua face positiva, o ceticismo quer ser um “instrumento prático a serviço de uma vida melhor”. (17) Esse o verdadeiro objetivo da filosofia. E quando vemos Porchat falar nesses termos a respeito do caráter prático-instrumental do conhecimento e do escopo do interesse para a sua filosofia, não apenas nos vem à cabeça a noção grega de phaenomenon, mas também aquela de pragma, e ainda o sentido geral do que se tem denominado de pragmatismo.

Porchat mesmo entende que “o direcionamento da prática e do discurso céticos para o que é bom e útil para o homem indica uma razoável afinidade entre o pirronismo e o pragmatismo filosófico do século XX”. Com efeito, o interesse pirrônico por esses práticos fins humanos acompanha-se de uma afirmação do “primado da ação” sobre a contemplação, sobre a “razão puramente teórica”. Sendo assim, é no fenômeno (não na “Teoria”) que o cético encontrará o critério de sua ação, mas tampouco nada mais do que isso – como diz textualmente Sexto Empírico. Não entra aí um interesse pela verdade ou pela realidade com o alcance que pretende para essas noções a filosofia dogmática (o “platonismo” que tem imperado na maior parte da filosofia ocidental). Nas palavras do próprio Porchat, “não temos uma Realidade a conhecer (demos, na prática, nosso adeus a esse mito), o que temos é um mundo experienciado com o qual precisamos lidar: diante dele e de seus desafios, não podemos permanecer inativos”. (18) Lidar praticamente com o mundo (e não conhecer o que ele é “em si”) – eis do que se trata.

A meu juízo, essas são de fato posições ao mesmo tempo inteiramente pragmatistas tanto quanto autenticamente pirronianas. Se não me engano, temos aqui elementos de uma recusa da concepção contemplativa e correspondentista da verdade, uma rejeição do discurso “transcendente” e do conhecimento de uma realidade “em si”, com R maiúsculo, supostamente à parte da nossa relação com ela, relação que traz a marca dos nossos propósitos e necessidades. Em seu lugar, prevalece a ideia de que o onhecimento é simplesmente uma resposta frente à nossa necessidade de lidar com o mundo. No lugar da teoria e da epistéme, de pretensão, digamos, platonista, Sexto Empírico invoca “o senso comum e a sabedoria prática dos homens da tékhne”. (19) O cético prefere, como paradigma de conhecimento humano, no lugar da Teoria, justamente o saber das tékhnai (como a medicina, a agricultura, a navegação) - ligado à experiência e a ela aberto, ligado aos fins práticos dos homens. O que se articula com a crítica porchatiana ao “intelectualismo”, que “confere um privilégio absurdo às especulações da razão sobre a experiência do Mundo, aos devaneios da reflexão abstrata, sobre o bom senso e os ensinamentos da vida”. (20) Esse também é um ponto em que o ceiticismo pirrônico coincide com o pragmatismo do século XX.

Posso imaginar que, se tivesse lido Porchat, William James, um dos pais fundadores do pragmatismo norte-americano, quando, em busca de precursores, escreveu Pragmatismo: Um Novo Nome para Velhos Modos de Pensar (1907), teria dado uma atenção privilegiada ao pirronismo como proto-pragmatismo grego. Melhor do que James, Porchat oferece ao pragmatismo elementos para uma genealogia clássica. Eu também arriscaria dizer que Arthur Lovejoy, que, para fazer frente à grande variedade de versões, escreveu um ensaio intitulado “Os Treze Pragmatismos” (1908), poderia ver hoje, na filosofia de Porchat, algo como um décimo-quarto pragmatismo –informado, como o neo-pragmatismo de Rorty, por desenvolvimentos filosóficos posteriores (analíticos, quineanos, wittgensteinianos, etc.), ou simplesmente em convergência com eles. Mais do que qualquer negação da possibilidade de conhecimento, o neo-pirronismo de Porchat destaca sobretudo seu caráter experimental, fenomênico e falível, por uma perspectiva eminentemente deflacionista e destranscendentalizante. Em todo caso, não há como não ver o que Porchat associa ao seu modo de fazer filosofia, tanto como ao que a esse interessa, como essencialmente voltado para tudo que a palavra grega pragma evoca.

 

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1 "A FILOSOFIA DE PORCHAT: TECHNÉ, NEO-PIRRONISMO, PRAGMATISMO" Ofereço esse breve texto como homenagem ao querido e valoroso colega Oswaldo Porchat Pereira (1933-2017), no momento em que ele nos deixa, enquanto aguardamos a publicação do notável trabalho de Plínio Smith sobre seu pensamento, incluindo seus mais recentes desenvolvimentos. Creio que a melhor forma de celebrar Porchat é dialogar com sua filosofia e trilhar, com perfil próprio, o caminho aberto por ele. Esse pequeno texto é basicamente uma versão modificada de uma parte de “Porchat: Filósofo dos Homens Comuns e Professor Democrático de Filosofia”, Sképsis, ano VIII, n.15, 2017, p.22-38.

2 Porchat, “O Comum dos Homens”, em Livro Aberto, ano 1, n.5, 1997, p. 11. Podemos dizer que o método de Victor Goldschmidt é apenas um modo de leitura de sistemas filosóficos e um de tantos recursos da formação escolar no caminho para fazer filosofia. Embora na maioria dos países onde se faz filosofia e mesmo história da filosofia em nível superlativo ele sequer seja conhecido ou cultivado.

3 De Pirro de Elis (c. 365-c.275 AC), filósofo grego, pai da variedade mais importante do ceticismo antigo. É a Sexto Empírico (fl. C. 200 DC) que devemos a exposição mais completa da posição cética pirroniana.
4 Oswaldo Porchat em Conversas com Filósofos Brasileiros, Marcos Nobre e J. M. Rego, São Paulo: Ed. 34, 2000, p. 123 e 128.
5 A Filosofia e a Visão Comum do Mundo, São Paulo: Ed. Brasiliense, 1981, p. 94-95.
6 Prefácio a Vida Comum e Ceticismo, São Paulo: Brasiliense, 1993, p. 3.
7 Oswaldo Porchat, em Conversas..., p. 132.
8 Porchat, “O Comum dos Homens”, p. 13 e 12.
9 Porchat, “Ainda é Preciso Ser Cético”, Discurso, v. 32, 2001, p. 22.
10 “O Comum dos Homens”, p. 17.
11 “Ainda é Preciso Ser Cético”, Discurso, v. 32, 2001, p. 11 e 18
12 “O Comum dos Homens”, p. 17.
13 Oswaldo Porchat, em Conversas..., p. 129.
14 “Ainda é Preciso ser Cético”, op. cit. p. 10.
15 Ibid., p. 17 e 20.
16 Oswaldo Porchat, em Conversas..., p. 140.
17 “Ainda é preciso…”, p. 29 e 19.
18 Ibid., p. 18, 21, 18.
19 Ibid, p. 17 e 18.
20 “Prefácio a uma Filosofia”, Discurso, n. 6, 1975, p. 37.

 

 

ANPOF 2017/ 2018
 

 

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