O Covid-19 no Brasil e a Filosofia: O Horror Chegou, Onde Estão Os Intelectuais?

Hilton Leal da Cruz 1

Recentemente pudemos acompanhar uma calorosa polêmica em torno das declarações do conhecido filósofo Agamben acerca da pandemia provocada pelo vírus Covid-19. Minha própria posição em relação às declarações a que faço referência consiste, abreviadamente, nos seguintes pontos: 1- Já faz muito tempo que a filosofia, como disciplina estritamente teórica, tem perdido progressivamente sua capacidade de dialogar com as demais esferas da cultura; me refiro pontualmente à arte e à política. 2- Como consequência desse afastamento a nossa formação, na melhor das hipóteses, nos tem tornado incapazes de fazer frente aos desafios de nosso tempo. Pior ainda, acontece que, em certas situações, quando não nos mantemos reclusos nos nossos respectivos círculos de iniciados e pretendemos falar ao grande público sobre questões de interesse coletivo o temos feito através de discursos que transitam entre o delírio e a irresponsabilidade. Diversos filósofos, de diferentes países e tradições têm, de formas diversas, apontado essas e outras tantas deformações do discurso filosófico contemporâneo, mas, pela limitação do espaço, não vou comentá-los. No texto que segue, eu apenas tento contribuir com o trabalho desses autores; trabalho esse que entendo como um esforço de autocrítica do discurso filosófico tendo em vista a sua responsabilidade frente à esfera pública.

O título desse artigo é, ao mesmo tempo, uma tentativa de trocadilho irônico e a expressão sincera de alguém perplexo com a polêmica que citei no parágrafo anterior. Por um lado, ele faz alusão à frase do filósofo argelino Albert Camus datada de setembro de 1939 e registrada em seus Cadernos na qual questiona “A Guerra Começou, onde está a Guerra?” 2 Por outro lado o título também faz referência à duas obras primas do cinema e da Literatura: o filme Apocalipse Now (1979) dirigido Francis Ford Coppola e ao romance No Coração das Trevas (1902) de Joseph Conrad que serviu de inspiração ao filme de Coppola.

Em determinada altura do longa-metragem dirigido por Coppola, o presumidamente insano Coronel Walter E. Kurtz, personagem interpretado por Brando, desenvolve um belíssimo e assustador monólogo no qual declara: “O horror tem um rosto. E nós temos de fazer do horror um amigo. O horror e o terror moral. São nossos amigos, se não são, então são inimigos a temer. São verdadeiros inimigos.” A declaração de Brando traduz, entre outras coisas, o sofrimento psicológico resultante da exposição às barbáries da guerra do Vietnã. No clássico romance de Joseph Conrad a menção feita ao horror se relaciona diretamente com os sombrios recantos da alma humana do qual, às vezes, a situação faz emergir monstros. Para outros estudiosos da obra, entretanto, tal menção faz referência direta às, não menos horrendas, atrocidades provocadas pela ocupação europeia do continente Africano.

Como deve ser quando se trata da crítica artística em sua mais pura forma, há muitas maneiras de interpretar ambas as menções feitas à palavra “horror” nos casos mencionados, o do Coronel Kurtz do filme de Coppola e do aventureiro Marlow, no livro de Conrad. Eu, por razões que logo mencionarei, prefiro interpretá-la como uma metáfora para determinadas formas de sofrimento humano que surgem quando a redoma civilizatória se fratura ou se torna espessa demais. O Nazismo, o totalitarismo soviético e a Escravidão dos povos Africanos nos fizeram perceber como determinados processos civilizatórios – arranjos sociais, instituições e leis - podem trazer à tona o que há de pior em cada um de nós. Eram, se posso usar essa metáfora, redomas civilizatórias espessas demais para deixar transparecer as semelhanças que pessoas diferentes possuem conosco, para que as pessoas pudessem questionar se o que elas faziam umas com as outras era de fato correto. O desmonte das instituições, as guerras civis, as crises humanitárias, a perda dos referenciais éticos que sustentam solidariedade ou o simples e puro medo da morte também podem produzir os mesmos efeitos. Nesses casos, a redoma civilizatória se fratura, os laços de solidariedade que criam a sociabilidade se rompem e o que sobra é simplesmente a lealdade em relação às pessoas de nossa família, etnia ou religião. As epidemias, historicamente, tendem a produzir essa última forma de horror.

Em um artigo publicado na Folha de São Paulo em setembro de 2009 Donald G. Mcneil Jr, jornalista especializado na cobertura de pragas e epidemias ao redor do mundo, afirmou que “na Europa medieval, a culpa (pela peste negra) era atribuída aos judeus com tamanha frequência e brutalidade que é até surpreendente que a doença não tenha sido chamada de Peste Judaica.” Segundo o estudioso, entre 1348 e 1351 mais de 200 comunidades judaicas foram erradicadas. Embora o antissemitismo já fizesse parte da cultura cristã na época, a irrupção assustadora da peste alimentou os ódios e enfraqueceu as solidariedades. Podemos, creio, especular que alguns cristãos da época podem ter sido colocados na terrível posição de ter que renunciar a algumas afinidades pessoais com membros das comunidades judaicas – já que muitos deles eram seus vizinhos, amigos e colegas de ofício - e a necessidade de unirem-se aos demais cristãos em uma tentativa desesperada de interpretar o horror com os parcos recursos civilizatórios que tinham à mão; entre eles aescatologia cristã e o antissemitismo.

É verdade que a ideia hobbesiana de um puro estado de natureza é vista por uma considerável parte dos intelectuais como uma simples ficção ou uma hipótese heurística, no melhor dos casos. Depois de centenas de anos de popularização dos jargões de Freud e Darwin, as pessoas mais reflexivas de nossa cultura tendem, penso, a descrever-se de outra maneira. Parece-me que se a filosofia quiser frutificar e vicejar como uma disciplina relevante publicamente nós, os filósofos, precisamos traduzir essa percepção modesta acerca de nós mesmos e do mundo. É por isso que eu considero razoável afirmar que nossos temores e nossa brutalidade nunca são totalmente “naturais” nem puramente fabricados; nossos medos são sempre produzidos dialeticamente nas relações sociais em interface com o meio ambiente. Traduzidos e direcionados segundo o sistema de coordenadas morais disponível. Além disso, nossa identidade moral requer um vocabulário que só pode ser desenvolvido através das interações sociais. As diferentes maneiras de descrever o mundo e a nós mesmos nem são arranjos insidiosos de uma vontade de poder escondida nas profundezas do coração humano, nem simples e neutras descrições do que “realmente” são as coisas ou, pior ainda, resultados de invisíveis e cruéis de “estruturas” embutidas nas práticas humanas. Todas essas e muitas outras descrições das relações interpessoais apenas reproduzem, no meu entendimento, a antiga autoilusão filosófica de que os livros que escrevemos podem oferecer uma espécie posição privilegiada, fora dos arranjos sociais aos quais o próprio filósofo foi exposto; posição essa que lhe permitiria ver “o que há por detrás” da vida cotidiana dos homens e mulheres que não filosofam.

Nesse ponto, de fato, eu me exponho à crítica de que apenas me alinho com filósofos como J. Dewey, Donald Davidson e Richard Rorty, Richard Bernstein e, para falar do Brasil, Mangabeira Unger e José Crisóstomo de Souza. De fato. Apesar das diversas discordâncias em relação a muito do que esses grandes escritores afirmam – e não é pouco – eu compartilho com eles de uma visão prático-humanista acerca de nossa condição. Nessa visão, nossos ideais morais ou nossas descrições do mundo se desenvolvem através da interação dos seres humanos entre si e destes com os contextos concretos em que eles interagem cooperativamente. Essa cooperação cria um modo de vida, um conjunto de hábitos, que as guerras e as epidemias colocam em risco ou suspendem totalmente. Esse é o ponto em que o horror se avizinha e é nele que os brasileiros estão situados, ou melhor, sitiados, nesse momento.

O que fazer perante o horror? O que dizer? Se os laços de solidariedade ameaçam se romper creio que a coisa mais razoável a ser feita seria investir nossos melhores esforços para fortalecê-los. Há inimigos em nossa porta e logo passarão caixões. O ódio no discurso político e a mortandade generalizada nos cerca e o que você e eu estamos fazendo à respeito? Denunciando o liberalismo, o comunismo, e repetindo frases de efeito ditas por nossos filósofos de estimação? Porque ainda não conseguimos deixar de lado querelas sobre sutilezas acadêmicas e engajamentos partidários em prol de um futuro espetacular e começamos a trabalhar para que tenhamos algum futuro? Não podemos tentar adaptar o mundo e a crise atual aos nossos esquemas de pensamento e esperanças utópicas; precisamos fazer o possível para suspender ainda que temporariamente nossas filiações a autores, partidos e igrejas. Em face das atuais circunstâncias somos apenas seres humanos desnudos lutando contra o horror que está aí; não adianta negar, sob risco de tornamo-nos insensíveis à dor e ao desespero daqueles que não compartilham de nosso vocabulário acadêmico.

A expectativa da morte que nossos sistemas de crença procuram contornar com promessas de reconhecimento intelectual, transcendência ou gozo sensível estão diante da hipótese cada vez mais plausível da morte iminente e, portanto, não se sustentarão por muito tempo. Como argumentou Ernest Becker no livro A Negação da Morte 3 , embora os diferentes sistemas de crença constituam artifícios necessários para a nossa sobrevivência e saúde psíquica, certas circunstâncias precisamos relativizá-los temporariamente sob o risco de expormo-nos à autodestruição.

No cenário mundial de uma crise sem precedentes o Brasil, segundo observadores internacionais, ocupa uma posição pior que a média, para dizer o mínimo. No entanto, do ponto de vista político, as oposições ao governo de Jair Messias Bolsonaro não conseguem se alinhar em uma estratégia conjunta que possa traduzir o imenso sofrimento das famílias em luto, dos desempregados e daqueles sem uma perspectiva sobre qual será seu futuro. Cada um dos ex- candidatos à presidência, governadores, congressistas e demais políticos auto intitulados progressistas, parece sentir-se confiante de que a crise terá um final feliz para seus respectivos interesses. Por outro lado, os filósofos em sua grande maioria, esmeram-se em ler a crise atual segundo os chavões herdados de seus próprios pensadores de estimação. Para estes é como se Marx, Foucault, Deleuze, Nietzsche, Camus e muitos outros – de grande importância cultural, sem dúvida – pudessem servir de oráculos para um horror que desconheciam. Onde estão as vozes para o choro abafado, para o temor calado de nosso grande país?

Haverá, assim espero, um momento para retornarmos às nossas diferenças de credo e de opinião, de preferências artísticas e de sutilezas intelectuais; as flores espontâneas da cultura. Mas no atual contexto se faz necessário um compromisso honesto e engajado com as questões mais básicas, elementares, da existência humana, sob pena de nos alinharmos com aqueles que por pretensão ou covardia nada fazem. Como disse Camus acerca da segunda Guerra Mundial “as torres de marfim desabaram. A Complacência é proibida para si mesmo e para os outros.” 4 

Por essas razões e outras mais que não cabem nessas linhas é que eu creio que é necessário perguntar: O horror está aí. Onde estão os intelectuais?

 

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1 Hilton Leal é Doutor em Filosofia pelo PPG-UFBA e Professor do IFBA.
2 Camus, Albert, A Guerra Começou Onde está a Guerra? Trad. Raphael Araújo e Samara Deske Ed. Hedra, 2ª Edição, São Paulo 2014, p.19.
3 Becker, Ernest, A Negação da Morte, tradução Otávio Alves Filho, editora Círculo do Livro, São Paulo.
4 Camus, Albert, A Guerra Começou Onde está a Guerra? Trad. Raphael Araújo e Samara Deske Ed. Hedra, 2ª Edição, São Paulo 2014, p.19.
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