A filosofia em tempos de morte

Prof. Dr. Wendel de Holanda

Muito se escuta que a visão moderna ocupou quase que totalmente o espaço que antes parecia pertencer exclusivamente às formas antigas de compreensão da realidade, no sentido de que talvez agora uma postura mais pragmática e objetiva sobre o mundo se impõe, pela sua eficácia, à vida hodierna. Todavia, após cinco meses de confinamento social, essas abstrações parecem apenas nos aborrecer e tampouco conseguem alimentar qualquer expectativa positiva com relação a um futuro pós-pandêmico. O que nos obriga, diante da gratuidade dos acontecimentos e da morte iminente, a assumir uma posição menos ingênua sobre a realidade, como aquela talvez compartilhada pelas doutrinas helênicas e pelo cristianismo antigo [1].

O avanço científico-tecnológico, bem como a progressão do bem-estar social e a erradicação das doenças, produziu, em nossa cultura moderna, um entusiasmo temerário com relação à nossa sobrevida na Terra [2]. Por conta disso, criamos muitas falsas expectativas sobre nossas ações e decisões; sem considerar que, entre o dia de hoje e o de amanhã, há um amplo número de variáveis que escapa inteiramente ao nosso controle. Aliás, mesmo em países extremamente desiguais, onde a maior parte da população sobrevive em condições insalubres, não se pode negar ao menos que essas expectativas existem e são, diuturnamente, encorajadas e estimuladas.

Não obstante, ainda que nossa visão secular pareça triunfar diante das formas antigas de compreensão do mundo, amiúde tomadas caricaturalmente como meras superstições do passado, é evidente que muitas outras falsas expectativas, algumas até piores, também foram forjadas em torno da vida moderna. Em contrapartida, o cristianismo antigo e as principais doutrinas helênicas – epicurismo, estoicismo, ceticismo, cinismo – tinham uma preocupação genuína pelo bem-viver que não equivale meramente ao acúmulo de bens materiais, de poder, de dinheiro e de vantagens pessoais.

Ao contrário, um aspecto muito interessante dessas doutrinas antigas consiste na resignação e na paciência em lidar com acontecimentos fortuitos e inesperados da vida. Nessas circunstâncias, não há receita de bolo, padrões ou algoritmos que possam nos oferecer uma via de mão única, pois, embora fosse mais reconfortante, para nós, ter respostas prontas, fáceis e simplórias, devemos reconhecer que nem sempre essas soluções existem ou são eficazes para lidar com as vicissitudes da vida. A pandemia, o confinamento social, a morte iminente, a austeridade econômica, o desemprego e a expectativa sombria sobre o nosso futuro pós-pandêmico apresentam-nos um quadro assustador sobre nossa realidade. Todavia, antes de cedermos inteiramente a essa condição desalentadora, é importante ainda considerar de que maneira é possível lidar com ela, sem que essas adversidades nos esgotem por completo.

Diz-se, por exemplo, que os primeiros cristãos buscavam atingir as virtudes cardinais – prudência, justiça, fortaleza e temperança – a partir do auxílio das virtudes teologais – fé, esperança e caridade. As primeiras são qualidades da inteligência e da vontade humana e guiam a nossa conduta segundo a razão: “Se alguém ama a justiça, o fruto dos seus trabalhos são as virtudes, porque ela ensina a temperança e a prudência, a justiça e a fortaleza” (Sb 8, 7). As segundas, auxiliares das primeiras, têm como propósito imediato a própria fé: “Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade” (1 Cor 13, 13). Essas são, portanto, as sete virtudes cristãs que, reunidas, conciliam a sabedoria moral e a fé religiosa[3].

Farei aqui uma comparação grosseira entre o cânone moral do catolicismo, fundado na fé e na razão, e o jogo entre cálculo e expectativas que mobilizam o homem moderno a adquirir  “habilidades” práticas em função do trabalho. De ambos os modos, estamos diante de uma relação entre o lado racional e o irracional do ser humano. Nesse sentido, parece que a ética antiga foi substituída pelo pragmatismo individual. Não que seja evidentemente pecado criar expectativas sobre os resultados práticos de nossas ações ou decisões pessoais. Todavia, refiro-me a isso como um modus operandi que se generaliza para quase todas as nossas práticas cotidianas. Trata-se, pois, de um dogma que contaminou todos os lugares, inclusive os templos religiosos.

Se o conservadorismo chegou a apontar a ciência e o secularismo como substitutos da religião no mundo moderno, acrescento aqui outro sentido à acusação: religiosos ou não, não desejamos mais a vida póstuma num paraíso celestial como recompensa de nossa ascese espiritual. Ao contrário, crenças como essas são bem menos atraentes diante das novas expectativas de cura, da erradicação de doenças e da progressão do bem-estar social. Isso talvez esclareça por que algumas formas de espiritualidade estão principalmente plasmadas numa espécie de “ascese” baseada no trabalho duro e reiterado, em vista de ganhos mais imediatos e terrenos.

Em outras palavras, aprendemos a quantificar os níveis de incerteza sobre o futuro, de modo que nos tornamos capazes de avaliar os diferentes graus de expectativas que podemos depositar numa dada ação em vista de obter algum lucro. Assim, equipados com essa ferramenta que nos permite fazer previsões quase-certas sobre o porvir, acrescentamos o importante papel da ciência para o nosso cálculo de benefícios, como um saber idealizado que poderia nos oferecer um recurso inteiramente eficaz – ainda que pretensamente –, a fim de eliminar qualquer tipo de imprecisão, para qualquer novo impasse.

Entretanto, essa total confiança é agora posta em xeque pelo advento inesperado da pandemia global, de modo que nossas expectativas positivas sobre o futuro diminuíram drasticamente ou tornaram-se completamente irreais e ilusórias. Se, no cristianismo antigo, as virtudes cardinais – prudência, temperança, justiça e fortaleza – eram fundações sólidas de nossas ações, sobre as quais apoiávamos racionalmente a nossa fé religiosa, modernamente essas bases foram completamente implodidas, e não é de se estranhar que estejamos agora sem qualquer chão. Aliás, talvez isso explique um pouco sobre nossa idolatria pela ciência.

Em tempos de pandemia buscamos, principalmente na ciência, respostas prontas para nossas aflições. Mais que isso: exigimos dela uma solução prática, eficaz e rápida. Não obstante, os algoritmos, os métodos, as quantificações, as “técnicas para”, são todos agora colocados em total embaraço. Aliás, penso que o conhecimento científico se converteu em nosso paradigma civilizatório não propriamente porque atingimos finalmente as luzes da razão, assim como sonhavam os filósofos iluministas do século XVIII. Mas, pelo contrário, criamos um entusiasmo cego na ciência que transcende seu próprio escopo. Em outras palavras, o excesso de expectativas que temos sobre o conhecimento técnico-científico tornou-se, de um modo paradigmático, a nossa pseudociência.

Por isso, uma maneira de aproveitar melhor o conhecimento proveniente da ciência, passa, antes de tudo, pelo seu processo de desmistificação. No entanto, de um lado, temos os entusiastas da ciência, redentora do progressismo carcomido e, de outro, temos os negacionistas científicos como baluartes de um conservadorismo subletrado. No fim das contas, de ambos os lados, subsiste a mesma visão simplória do nosso passado e do nosso futuro [4].

Contudo, não parece verossímil que as pessoas sejam ingênuas a tal ponto. De fato, ninguém seria tão bobo a ponto de acreditar, por exemplo, que o trabalho reiterado da ciência na imunização da espécie humana signifique meramente um pacto ético pela vida, visto que essa tarefa aponta ainda para a obsessão por nossa sobrevida na Terra. Somos, portanto, somente acráticos quando nos tornamos assaz dependentes das promessas que foram feitas em nome da ciência. Alimentamos em nós a mesma vaidade de Sísifo ao tentar enganar a morte, mas talvez não seja um exagero dizer que pagamos com a alma por esse ideal, uma vez que compramos nossa imunização pelo esquecimento de quem somos. Aliás, para os antigos helênicos, não pensar a morte é o mesmo que não refletir.

Longe de ser uma saída meramente austera e impraticável, a resignação dos antigos significava nada mais que uma postura de indiferença diante das coisas que não temos qualquer controle. Isso nos permite redefinir, com bastante precisão, o nosso verdadeiro campo de ação. Neste ponto, não se deve compreender a resignação pela chave do conformismo e da apatia, mas sim como condição para ações mais eficazes perante a vida e o mundo.

De fato, a pandemia nos faz vacilar diante de nossa fé moderna: a promessa do bem-estar social e da cura de todas as doenças já não pode garantir qualquer vantagem diante da morte iminente e da realidade crua do capitalismo mundial. Como meros mortais, somos sempre perdedores com relação ao nosso destino. Por outro lado, a quarentena pode significar um momento de reavaliação de nossas ações e decisões, assim como uma oportunidade para o exercício da resignação e da paciência e, por conseguinte, do cuidado, da generosidade e da empatia para com os outros.

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 Autor: Wendel de Holanda - Doutor em filosofia pela UFMG, atualmente professor do IFES e autor do blog “interfaces filosóficas”. Conferir: https://interfaces-filosoficas.blogspot.com.

LINKS:
[1] “A adivinhação no mundo helenizado do segundo século”.
Link: https://revista.classica.org.br/classica/article/view/579/558. 
[2] “Quando a Europa desdenhava de pandemias” Laure Lugon, tradução André Gomes.
Conferir: https://interfaces-filosoficas.blogspot.com/2020/06/traducao-da-materia-jornalistica-
[3] Catecismo da Igreja Católica, terceira parte.
Conferir:http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3s1cap1_1699-1876_po.html.
[4] A pós-verdade da fé e da razão. Conferir: https://interfaces-<br< a=""> />filosoficas.blogspot.com/2020/01/a-pos-verdade-da-fe-e-da-razao.html

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