Coluna ANPOF

COLUNA ANPOF

Mulheres que pensam e fazem pensar

Carla Rodrigues - professora do Departamento de Filosofia da UFRJ e pesquisadora Faperj

 

Durante todo o século XX, houve um amplo exercício teórico de retirar das sombras a grande contribuição das mulheres para a vida social. Somaram-se nesses esforços o aporte teórico de historiadoras feministas que questionaram a construção de uma historiografia supostamente neutra em termos de gênero, os movimentos feministas nas ruas, nas praças e na conquista do espaço de trabalho. Tudo isso convergiu e continua convergindo para aproximar as mulheres e qualificar a fixação de cânones na história, não somente da filosofia. No rastro de iniciativas de historiadoras como Michelle Perrot, na França, ou Joana Maria Pedro, no Brasil, em alguma medida fundamentadas ainda no trabalho de Joan Scott no seu célebre O gênero como categoria sutil de análise histórica, literatura, ciência e linhas de pesquisa descobriram as mulheres, tomando o verbo descobrir em sua literalidade: tirar a cobertura daquilo que existia, mas estava encoberto.

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Epistemologia em tempos de crise

Breno Ricardo Guimarães Santos
Professor Adjunto no Departamento de Filosofia da Universidade Federal 
de Mato Grosso (UFMT) e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em 
Filosofia da mesma Universidade

 

Pensemos na brincadeira “telefone sem fio”. Para quem não se lembra ou não conhece a brincadeira, aqui vai um guia rápido. Forma-se uma fila de pessoas; a primeira pessoa da fila inventa uma frase e transmite para a segunda; a segunda transmite para a terceira, e assim por diante. A graça da brincadeira era ver de que modo a frase chegaria ao seu receptor final. E, normalmente, ela chegava com algum grau de desfiguração.

O “telefone sem fio” é uma ilustração anedótica, e informativa, dos riscos da nossa vida epistêmica em comunidade. Dependemos uns dos outros para obter informações, mas essa dependência tem seus riscos e suas armadilhas. Quando atirado às garras de um mundo social e político complexo, esse telefone sem fio passa a ser, ao mesmo tempo, fundamental para conhecermos partes significativas do mundo e fonte de inúmeros problemas – alguns dos quais epistemólogas e epistemólogos contemporâneos tentam caracterizar e resolver.

Para entender a natureza do nosso telefone sem fio cotidiano, precisamos pensar no que faz esse jogo ser tão eficaz. Dependemos uns dos outros para conhecer muito do que conhecemos no mundo. Dependemos da palavra escrita, falada ou gestual de outras pessoas para que partes consideráveis do mundo se revelem para nós. Quando perguntamos a alguém, por exemplo, onde fica o prédio da reitoria, no campus de alguma universidade, estamos explorando essa relação de dependência mútua. Confiamos que, em geral, as pessoas nos dirão a verdade ou, pelo menos, que elas não nos dirão falsidades intencionalmente.

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O nome da confusão

Amaro Fleck (Professor de Filosofia da Universidade Federal de Lavras)

Há momentos em que moinhos de vento são vistos como inimigos, e contra eles travam-se batalhas épicas. Assim como o kitgay e a onipresente doutrinação nas escolas, o marxismo cultural não é mais do que a designação para uma grande confusão, um delírio, uma alucinação. O nome de algo que nunca existiu, ou melhor, que passou a existir pela série de efeitos que encadeia, embora em sua origem não exista mais do que a ausência de uma leitura. Ainda assim, os danos causados por tais batalhas não são menos reais.

O assim chamado marxismo cultural é uma teoria da conspiração. De acordo com ela haveria um plano bem articulado por parte dos comunistas (quais? O partido comunista soviético? A internacional dos trabalhadores? Um grupinho de intelectuais em um gabinete universitário? Um intelectual, solitário e preso, que nunca teve contato com os anteriores?) para dominar – e destruir, o que seria o mesmo – a cultura ocidental. O suposto objetivo seria “comer pelas beiradas”: em um primeiro momento controlar a formação da opinião pública para depois tomar e coletivizar os meios de produção; ou, o que por algum misterioso motivo aparece junto, para incentivar a promiscuidade em todas as suas formas não reprodutivas (afinal o objetivo último dos comunistas gayzistas é a eliminação da civilização, e não a coletivização dos meios de produção).

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“Nós, os inimigos”

Prof. Dr. André Constantino Yazbek
Doutor em Filosofia (PUC-SP), Professor Adjunto de Filosofia e Chefe do
Departamento de Filosofia da Universidade Federal Fluminense – UFF

 

Algumas declarações do atual Ministro da Educação, Abraham Weintraub, com intervalos de poucos dias e devidamente acompanhadas de afirmações de mesmo quilate proferidas pelo senhor excelentíssimo Presidente da República, Jair Bolsonaro, dão o tom exato da espécie de narrativa paranoica que é constitutiva das concepções autoritárias de governo: nós, os professores de filosofia e sociologia, dentre tantos outros espantalhos convenientes às concepções obscurantistas deste governo, devemos ser neutralizados, e isso a bem do próprio erário público. Assim, no dia 26 de abril, em uma “live” em rede social, terra de ninguém, o senhor Weintraub afirmou ser necessário “descentralizar” investimentos em faculdades de filosofia e sociologia, sem especificar exatamente o que isso significaria, mas sinalizando claramente a disposição de minguar o já parco suporte público aos cursos universitários e de humanidades em geral. No dia 30 de abril, por sua vez, uma nova investida, desta feita realizada em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo: afirmando a realização de um corte discricionário que pareceria beirar a ilegalidade – por seu caráter de retaliação e pelo tom difamatório que o acompanha –, o senhor Weintraub anunciou que o Ministério da Educação cortaria verbas de universidades que estivessem promovendo “balbúrdia” em seus campi, referindo-se especificamente à Universidade Federal de Brasília (Unb), à Universidade Federal Fluminense (UFF) e à Universidade Federal da Bahia (UFBA), instituições que gozam de prestígio nacional e internacional e que, inclusive, figuram entre as instituições de melhor desempenho do país, segundo números do próprio Ministério da Educação (MEC). Um dia depois, novo vai-e-vem errático, e somos informados, por um comunicado oficial, que o MEC cortará 30% das verbas de todas as universidades federais; e seguiram-se provocações ao Twitter contra os “reitores (ditos) esquerdistas”.

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O recrudescimento da obliteração da Filosofia diante de uma conjuntura reacionária (ou) sobre o papel constitucional de um governo que se supõe republicano num Estado democrático de direito

Prof. Dr. Jozivan Guedes
PPG/Filosofia-UFPI
Doutor Filosofia-PUCRS

Ouço, agora, porém exclamar de todos os lados: não raciocineis! O oficial diz: não raciocineis, mas exercitai- vos! O financista exclama: não raciocineis, mas pagai! O sacerdote proclama: não raciocineis, mas crede! [...]. Eis aqui por toda a parte a restrição da liberdade (KANT. Was ist Aufklärung).

Nada mais relevante para diagnóstico de época do que a oposição de Kant às restrições de seu tempo (e aqui é um dos fatores que me levam a pensar que Kant é mais interessante para Teoria Crítica do que o próprio Hegel) – sendo que ele próprio sofreu duras repressões do Estado prussiano quando tencionou publicar “A religião nos limites da simples razão”. Kant, no contexto do século XVIII de efervescência do Iluminismo, com seus conceitos de autonomia e publicidade, opôs-se radicalmente à restrição do pensar; considerava um regresso, uma pauperização, práticas que colapsam o lugar do filósofo na sociedade. Defendia que não era necessário que os filósofos entrassem na política, pois o poder poderia corromper o livre juízo da razão, mas, concomitantemente, reivindicava que os mesmos pudessem expressar livremente suas opiniões acerca do justo no que concerne aos direitos humanos, aos direitos de cidadania, à questão da paz, etc. Subscrevendo a isso, o Estado de direito estaria cumprindo o seu papel republicano, e, como ele afirma em Antropologia de um ponto de vista pragmático, apenas no republicanismo seria possível um equilíbrio entre liberdade, poder e lei.

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A Filosofia entre juízes, bispos e capitães: sobre pobreza, resistência e formas de vida (1)

Prof. Dr. Hélio Alexandre da Silva (2)

De Rousseau a Marx, de Kant a Rancière, a pobreza tem sido tema da filosofia, ainda que um tanto marginal. Sempre tida, ao menos na aparência, como filha bastarda do processo civilizatório, a experiência da falta e da privação não deixa de ser compreendida como um problema de real grandeza, em boa medida graças às consequências sociais que ela traz. Uma das formas de pensar filosoficamente o social é compreender que ele qualifica as relações humanas nas quais os mecanismos de reprodução e as experiências normativas estão estreitamente imbricados.

Essas experiências normativas podem ser positivas (quando contribuem para algum nível de cooperação social) ou negativas (quando aparecem como fonte de sofrimento). Na medida em que alinham-se às formas de sofrimento, fenômenos como a pobreza ganham particular interesse filosófico.

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Filosofia, modo de usar.

Alexandre de Oliveira Torres Carrasco  (Professor do Departamento de Filosofia UNIFESP)

Não faz muito tempo que a filosofia entre nós tinha algo de excêntrico. Faltava-lhe não sei o que de ordinário, de cotidiano, de prosaico. Tudo também se resume a entender quem seria esse “nós”, também um dos “nós” da questão, mas sigamos. O fato é que, repentinamente, pelo menos para efeito retórico, parece que não só, deixo aqui o palpite, a filosofia ou a “Filosofia” foi alçada à condição de inimiga, de vilã ou de notório instrumento do mal. Há nisso um inesperado reconhecimento que, de um jeito ou de outro, pega todos nós de surpresa, e até mesmo lisonjeia, reconheçamos. Acostumados como estávamos a certa irrelevância, agora temos que lidar com as injúrias dessa fama ou má fama. Claro que a surpresa decorre se colocarmos o juízo em perspectiva, não seria o caso, por óbvio, se considerarmos o emissor de tal juízo. O que mudou desde então, digamos, desde vinte anos – uso as medidas de minha própria formação, entre graduação, mestrado e doutorado –, o que nos fez passar do anonimato inofensivo ao primeiro plano das preocupações dos atuais donos do governo, e até anteontem pelo menos, donos também de muitas opiniões?

A resposta mais óbvia, a que seguiria pela mão o senso comum, seria a mesma que foi dada de viés pelos próceres do atual governo: multiplicamo-nos demais, e essa infestação de filosofia, esse excesso de filosofia vem corroendo as contas públicas. Verdade e mentira somados, em geral, dá em nova mentira. Não surpreende, portanto, a estratégia. Deixando de lado o peso irrisório que temos no orçamento do Ministério da Educação, nós e todas as ciências humanas, há um grão de verdade no sofisma: realmente nos multiplicamos e isso, com custo real ou irrisório, seria o verdadeiro incômodo.

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Por que não a Filosofia?

Franciele Bete Petry - UFSC (1)
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Uma sociedade que decide condenar a Filosofia precisa explicar por que o faz. Ela é inútil? Supérflua? Desnecessária? Seja qual for o adjetivo usado para (des)qualificá-la, será necessário argumentar para defender uma posição. E argumentar, com honestidade intelectual, requer apresentar boas razões para que uma determinada conclusão possa ser sustentada. Para isso, é preciso utilizar as ferramentas da própria Filosofia. Quem não reconhece tal exigência, pode aparentemente criticar, mas no fundo, apenas faz acusações. A crítica requer argumentos e quem não está disposto a apresentá-los, apenas usa o discurso como retórica para mascarar o caráter autoritário das suas afirmações.

A discussão poderia começar, em primeiro lugar, pelo esclarecimento daquilo que chamamos de “Filosofia”. Podemos ter a impressão de estarmos falando da mesma coisa, mas a própria história dessa disciplina nos presenteia com uma lista ampla de definições, sem falar das controvérsias. Ao buscarmos respostas, perceberemos que definir a filosofia já é um problema filosófico que exige considerar também a pluralidade de formas em que ela se expressa, as diferentes subáreas em que se divide, as diferentes tradições de pensamento que a constituem, a sua constante renovação frente aos problemas contemporâneos: estamos falando de qual Filosofia?

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O antifilósofo

Prof. Dr. Filipe Campello (1)

Certas ideias em destaque no Brasil de hoje deveriam provocar indignação não só naqueles com posições políticas de esquerda, mas em quaisquer simpatizantes da tradição liberal. Pois embora divirjam sobre vários assuntos, esses dois lados do espectro político possuem visões semelhantes sobre a defesa da dignidade humana, da liberdade de expressão ou da igualdade de gênero, por exemplo.

De modo similar, em assuntos como o aquecimento global, o efeito das vacinas na saúde humana e a forma do planeta Terra, ambos os lados preferem apoiar-se antes no consenso científico do que em exóticas teorias da conspiração. Isso acontece porque tais posições compartilhadas estão associadas ao próprio progresso moral e científico das sociedades modernas. Nada tem a ver com “marxismo cultural”.

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O ensino de Filosofia e a reforma educacional: o que fazer?

Prof. Dr. Christian Lindberg - UFS

A reforma do ensino médio compreende uma série de alterações no escopo legal do país que ocorreu nos últimos três anos. Pode-se considerar, além da lei nº 13.415/2017, a Base Nacional Comum Curricular para o Ensino Médio (BNCC/EM), as Diretrizes Curriculares Nacional para o Ensino Médio e a Educação Profissional (DCNEM), a emenda constitucional nº 95 (EC/95), a nova política para a avaliação do ensino médio e a proposta de Base Nacional Comum da Formação para o Professor da Educação Básica (BNC/Professor). Todas essas mudanças têm provocado uma série de dúvidas e apreensões na comunidade filosófica brasileira. Assim, apresento algumas ideias com o objetivo de auxiliar o debate que ocorrerá no decorrer de 2019.

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