CATHARINE MACAULAY, PRECURSORA DE MARY WOLLSTONECRAFT

Camila Kulkamp
(Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFSC)

Catharine Macaulay (1731-1791) nasceu em dois de abril de 1731. Seu pai se chamava John Sawbrigde e sua mãe era Dorothy Wanley. A segunda filha a nascer de dois irmãos e mais uma irmã teve berço junto à beleza exuberante de um condado nsudeste da Inglaterra chamado Kent. Sua família possuía bens e propriedades, o que fez com que ela tivesse acesso à educação, com distinção especial em história Greco-romana. 1

Macaulay foi famosa no tempo em que viveu. Considerada a primeira “mulher historiadora inglesa”, escreveu não apenas livros de história, mas também um tratado filosófico, além de uma extensa obra sobre educação, poemas, panfletos e cartas. Foi reconhecida na cena intelectual por criticar o pensamento monarquista de Thomas Hobbes, o conservadorismo de Edmund Burke, o sexismo de Jean-Jacques Rousseau, por defender o republicanismo e a educação das mulheres.

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Angela Davis, a filósofa na cidade

Yara Frateschi
(Professora Livre Docente do Departamento de Filosofia da Unicamp)
Laíssa Ferreira
(Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unicamp)

 

Sócrates estava correto quando “afirmou que a razão de ser da filosofia é nos ensinar a viver de maneira apropriada. No nosso tempo, viver de maneira apropriada significa a libertação dos problemas urgentes da pobreza, necessidade econômica, doutrinação e opressão mental” (Angela Daivs, Lectures on Liberation).

Vire e mexe pessoas da comunidade acadêmica nos repreendem: “vocês estudam Angela Davis, a ativista?”. “Sim”, respondemos, “nós estudamos a filósofa e ativista Angela Davis”.

Pensando melhor agora, depois da sua vinda a São Paulo neste outubro de 2019, estamos encorajadas a suprimir a conjunção e responder: “sim, colega, nós estudamos a filósofa ativista Angela Davis”. Ou seria a ativista filósofa? Não importa a ordem, pois, para ela, na esteira de Marx, a filosofia deve almejar a transformação do mundo.

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O preço do ressentimento: sobre o ataque às ciências humanas

Érico Andrade
ericoandrade@gmail.com
Filósofo, psicanalista em formação, professor da Universidade Federal de Pernambuco

O ataque à ciência tem sido uma constante no governo Bolsonaro. Mas a sua destinação tem como foco principal as ciências humanas. O presente artigo tenta compreender porque esse ataque é deferido com tanta ênfase àquela área.

Longe de se localizar em certa noção de produtivismo, que exige extemporaneamente das ciências humanas uma produção científica simétrica àquela das ciências naturais, por exemplo, a minha aposta é que esse ataque se dirige mesmo à natureza das ciências humanas. Não se trata, portanto, de um ataque conjuntural. O que se quer combater é a noção mesma de humanidades produzida, sobretudo, nas universidades públicas do Brasil.

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As instituições justas e a nomeação do novo reitor da UFFS

Prof. Dr. Elsio José Corá (UFFS) - 1

Na madrugada do dia 30 de agosto, a comunidade universitária da Universidade Federal da Fronteira do Sul (UFFS), que nasceu a partir das demandas e da mobilização dos movimentos sociais da região, recebeu com perplexidade a comunicação da nomeação do terceiro colocado da lista tríplice, encaminhada ao MEC, para assumir a reitoria da Instituição nos próximos quatro anos. Perplexidade e não surpresa, pois as nomeações para direção de outras IES que ocorreram neste novo governo já denunciavam o novo modelo de gestão pretendido para as universidades federais.

É importante termos presente que o modelo que está sendo imposto possui raízes e capilaridades profundas e não deve ser tomado somente como uma ação impensada, ingênua e leviana. É isso e muito mais. O que se observa, no que se refere à política pública educacional, tanto no nível básico quanto no superior, é uma mudança de eixo, um direcionamento que afetará não somente o currículo e a formação dos nossos estudantes, mas, principalmente, as suas possibilidades e escolhas futuras, como preconiza o texto da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Médio. Além disso, o acesso e a permanência no ensino superior, sobretudo dos estudantes com vulnerabilidade social, correm um iminente risco. Assistimos ao desmonte de políticas públicas, comprometidas na sua concretização pelos cortes do orçamento a nível ministerial e pelo repasse de recursos para as universidades. A decisão desvincula a intencionalidade que se espera nas políticas educacionais, tendo em vista uma educação ampla, que ajude a equilibrar as diferenças sociais, históricas, econômicas, entre outras.

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Deus & Darwin: Breve Relato sobre o Argumento do Desígnio, a Memética e os Magistérios Não Interferentes

Maxwell Morais de Lima Filho – Universidade Federal de Alagoas (UFAL)

 

De acordo com o teólogo inglês William Paley, a bondade divina se reflete no modo pelo qual Ele projetou os organismos biológicos, dotados de múltiplos órgãos bem-arranjados e inter-relacionados que visam à preservação e à reprodução da vida. Nesse sentido, o propósito da Criação seria dedutível da contemplação do domínio biológico porque o intricado ajuste entre as partes do sistema – seja o corpo como um todo, seja uma de suas partes (articulação esquelética, coração, olho etc.) – apontaria para uma inteligência sobrenatural, mais especificamente para o Deus revelado na Bíblia.

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BRASIL COMO EFEITO DESCIVILIZADOR: EDUCAÇÃO, CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA SOB ATAQUE

Anderson Alves Esteves 1
Antonio José Romera Valverde 2

“nuvem de mosquitos
o ar se move
vento nenhum”
(Alice Ruiz S.
Desorientais)

“A gente está sendo atacado”, diz a personagem Lunga, do filme Bacurau; a sentença distópica, vinda de algum momento do futuro, pode ser proferida, no presente, por profissionais da educação e por estudantes no Brasil, aviltados pelo desmonte do Estado de bem-estar social que jamais ultrapassou o estágio de incipiência. Neutralizadas para deixarem de contribuir com a aceleração do “processo civilizador” 3 e não auxiliarem a estatuir a majoração progressiva do acesso, formal e substancial,àquilo que a humanidade edifica e edificou, as instituições de ensino, sob estrangulamento financeiro e perseguições doutrinárias, foram atacadas para se metamorfosearem em agências da mesma barbárie que ocorrem em outros âmbitos, tais como o ambiental, o ético, étnico, o de gênero, o econômico... O país literalmente queima, está manchado de óleo, soterra-se em barragens rompidas, afronta populações autóctones e os povos da floresta, eleva níveis de várias formas de desigualdade – e resta à educação, de acordo com entendimento do governo Jair Bolsonaro, somar esforços na força-tarefa descivilizadora. Antes de tudo, deve se calar.

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Filosofia e Ciências Sociais vs. Direito?

Henry Burnett
Professor livre-docente do departamento de filosofia da UNIFESP

Considero extremamente relevante o tratamento que a Folha dispensa ao problema da educação, por isso não hesitei em me cadastrar para receber a newsletter semanal do mais recente projeto na área, chamado “Folha na Sala”, que não só amplia as abordagens do jornal de modo específico, como também aumenta a responsabilidade ao atingir um número expressivo de professores cadastrados.

Ao ler a análise da professora Sabine Righeti, na newsletter recebida na quinta, 10 de outubro (“Cai demanda por graduação em filosofia e ciências sociais; em direito, número de novos alunos cresce”), fiquei surpreso com um “detalhe” mencionado neste trecho: “A reportagem da Folha tentou entender a baixa procura pelos dois cursos de humanas e encontrou algumas respostas. A reforma do ensino médio, que reduz o espaço de ciências sociais e de filosofia nos currículos escolares, é uma daspossíveis explicações. Com perspectivas reduzidas de carreira, os estudantes podem acabar escolhendo outras formações.” No caso, o direito.

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HEIDEGGER PROFESSOR DE HANS JONAS: NO DIA DOS PROFESSORES/AS, UMA LIÇÃO DE FILOSOFIA

JELSON OLIVEIRA
Professor do Programa de Pos-Graduação em Filosofia da PUCPR

Entre as páginas das Memórias de Hans Jonas, estão linhas de profundo e emocionado reconhecimento a respeito da importância de seus mestres na sua formação intelectual, em especial de Martin Heidegger.

Jonas, então com 18 anos, tinha decidido estudar filosofia e, para isso, fora atrás dos grandes nomes de sua época, entre os quais estava Edmund Husserl, professor em Friburgo. Mas foi aí também que ele se encontraria com aquele que marcaria de forma tão fecunda e tão dramática o seu pensamento: um jovem e ainda desconhecido professor, que logo lhe cativaria por completo - como a tantos outros jovens que lhe cercavam: Martin Heidegger, desde então, era considerado “muito mais difícil que Husserl mas também um brilhante pedadogo”. A partir de um encontro fortuito no primeiro semestre de 1921, Jonas passa a frequentar as aulas do futuro autor de Ser e Tempo, sobre Augostinho e o neoplatonismo.

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O FUTURO DA UNIVERSIDADE

João Carlos Salles
(Filósofo, reitor da UFBA e presidente da ANDIFES)

Para Georgina Gonçalves,
minha amiga Gina,
Reitora da UFRB

1. A universidade tem sido alvo de múltiplos ataques e incompreensões, como se não mais fosse um projeto da sociedade e tivesse se tornado um problema. De desejo cívico, passou a estorvo público. E, pior, a solução dos embaraços que julgam diagnosticar não estaria na própria universidade, nem em seu atores, como se nosso espírito democrático e crítico fosse uma prova a mais de nossa inanição. Com isso, sonhos urdidos em décadas são agora apresentados como pesadelos, cuja saída estaria antes no mercado ou na indústria.

Nesse cenário, o professor/pesquisador aparece como figura trôpega e inadequada, ora vista como miserável, ora como excessivamente remunerada, de sorte que deveria transmutar-se, de personagem crítico e engajado, em indivíduo empreendedor e negociante, para merecer enfim as riquezas todas da terra. Por outro lado, seus gestores públicos, talvez por pecados atávicos, são convidados a permanecer em cena, mas apenas como fantasmas ou encostos, que alguma reza ou exorcismo, cedo ou tarde, afastaria. Do ócio produtivo ao negócio. Será esse o deslocamento proposto?

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Mulheres que pensam e fazem pensar

Carla Rodrigues - professora do Departamento de Filosofia da UFRJ e pesquisadora Faperj

 

Durante todo o século XX, houve um amplo exercício teórico de retirar das sombras a grande contribuição das mulheres para a vida social. Somaram-se nesses esforços o aporte teórico de historiadoras feministas que questionaram a construção de uma historiografia supostamente neutra em termos de gênero, os movimentos feministas nas ruas, nas praças e na conquista do espaço de trabalho. Tudo isso convergiu e continua convergindo para aproximar as mulheres e qualificar a fixação de cânones na história, não somente da filosofia. No rastro de iniciativas de historiadoras como Michelle Perrot, na França, ou Joana Maria Pedro, no Brasil, em alguma medida fundamentadas ainda no trabalho de Joan Scott no seu célebre O gênero como categoria sutil de análise histórica, literatura, ciência e linhas de pesquisa descobriram as mulheres, tomando o verbo descobrir em sua literalidade: tirar a cobertura daquilo que existia, mas estava encoberto.

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