Christian Lindberg L. do Nascimento
Universidade Federal de Sergipe

O futuro da ANPOF-EM

 

Prof. Dr. Christian Lindberg L. do Nascimento[1]

 

O Encontro ANPOF-EM é um evento consolidado dentro da agenda da ANPOF. Criado com o objetivo promover um espaço de discussão em torno de temas relacionados ao ensino de Filosofia, o evento tem permitido a aproximação dos segmentos da sociedade que trabalham na educação básica com os pesquisadores vinculados à pós-graduação em Filosofia do país.

Vale lembrar que o Encontro ANPOF-EM só pôde ser concretizado devido ao empenho da diretoria da ANPOF e do GT Filosofar e ensinar a Filosofar. Por outro lado, a inserção da Filosofia na educação básica gerou uma demanda específica, o que fez a diretoria da ANPOF e a coordenação do GT entenderem que era preciso ter um espaço para discutir o ensino de Filosofia nos encontros da ANPOF.

Nas quatro edições realizadas, o encontro propiciou espaços de intercambio teórico e prático. No realizado em Vitória, por exemplo, 171 trabalhos foram submetidos à Comissão Científica. Esse fato fez com que a área de ensino de Filosofia se transformasse em uma área destacada dentro do encontro da ANPOF, principalmente se adicionarmos as reuniões do GT Filosofar e ensinar a filosofar e os encontros do Prof-Filo e PIBID/RP/Filosofia. Este cenário tende a crescer devido a conclusão dos 500 mestrandos vinculados ao Prof-Filo, no período de 2019-2020.

Penso que alguns fatores podem contribuir para entender uma possível expansão: 1) A presença da área Ensino de Filosofia nos cursos de graduação pós-graduação, mesmo ela não existindo formalmente no âmbito da CAPES. Praticamente todo departamento/faculdade de Filosofia do país tem, pelo menos, um docente envolvido com a área; 2) A existência de programas governamentais direcionados à formação docente; 3) O mestrado profissional (Prof-Filo) em diversas instituições de ensino superior; 4) A inserção da disciplina Filosofia no currículo da educação básica, em que pese a conversão sofrida na BNCC; 5) A expansão dos institutos federais.

Diante do atual cenário, parece-me apropriado discutir o futuro do Encontro ANPOF-EM. A comunidade filosófica brasileira, através da ANPOF, precisa avaliar se mantém ou não o atual formato. Em caso de mudança, apontar que configuração organizacional ele deve ter para atender os desafios políticos postos ao ensino da Filosofia em nosso país.

 

A ANPOF-EM: um histórico quantitativo

 

            Antes de expor o que penso sobre o assunto em tela, talvez seja oportuno compartilhar alguns dados do Encontro ANPOF-EM. Pode-se dizer que a concepção do evento foi mantida nas quatro edições realizadas. Composto por relatos de experiências, um simpósio para discutir temas relacionados ao Ensino de Filosofia, e minicursos, o público presente foi composto por professores de Filosofia da educação básica e pesquisadores da área.

No encontro de 2012, realizado em Curitiba, 24 trabalhos foram aprovados, contemplando professores/pesquisadores de 17 estados. Além dos relatos de experiência, houve a realização de 6 minicursos e um simpósio. Devido a uma articulação da comissão local de organização e a Secretaria de Educação do Paraná, o evento contou com a presença de professores de Filosofia da rede estadual paranaense. Os relatos de experiência foram gravados e estão disponíveis no canal da ANPOF no Youtube.

Em 2014, na cidade de Campos do Jordão, 80 relatos de experiência foram submetidos à Comissão organizadora. 37 foram selecionados para apresentar, 24 no formato de comunicação e outros 13 no de banner, mobilizando apresentadores de 18 estados. A exemplo da primeira edição, o encontro contou com minicursos e um simpósio.

Na cidade de Aracaju, em 2016, houve uma diminuição quantitativa de trabalhos. Não se sabe ao certo o que aconteceu para que isso ocorresse, o fato é que foram submetidos 16 trabalhos, sendo 13 relatos aprovados e apresentados na capital sergipana. Além disso, ocorreram 5 minicursos e um simpósio. Os relatos, a exemplo da edição de Curitiba, estão disponíveis no canal da ANPOF no Youtube. Outro aspecto semelhante ao ocorrido na capital paranaense foi a presença de professores de Filosofia da rede pública estadual de Sergipe no encontro, totalizando 125 inscritos.

            Na última edição, realizada na cidade de Vitória, ocorreu o crescimento quantitativo do Encontro ANPOF-EM. Foram submetidos 171 trabalhos para a comissão organizadora, sendo que 41 foram aprovados e apresentados como relato de experiência. Outros 27 foram encaminhados às sessões temáticas realizadas durante o Encontro da ANPOF. Os expositores que apresentaram trabalhos vieram de 18 estados diferentes, mantendo a abrangência nacional do encontro. Além dos relatos, 3 minicursos foram ministrados e ocorreu, mais uma vez, o simpósio.

             A organização do evento foi feita por professores vinculados aos programas de Filosofia associados à ANPOF. As quatro comissões organizadoras, independentemente do tamanho, foram constituídas por integrantes do GT Filosofar e ensinar a Filosofar, da diretoria da ANPOF, um membro indicado pelo comitê local de organização do Encontro da ANPOF e pesquisadores da área. Assim, em 2012, a comissão de organização contou com nove integrantes, a de 2014 teve quatro, cinco na de 2016 e sete no último encontro ANPOF-EM. Nas quatro edições foi constituída uma comissão científica para avaliar os trabalhos submetidos.

 

A experiência das outras áreas

 

            Pretendo relatar, de forma pontual, como outras associações/sociedades científicas articulam e organizam a área de ensino no seu interior. Tentar absorver elementos da experiência alheia, principalmente aquelas mais próximas da Filosofia, pode ser um caminho interessante. Contudo, isso não significa dizer que o que vale para uma, valha para outra, principalmente em uma conjuntura de ataques pejorativos que a Filosofia tem sofrido.

            A Associação Nacional de História (ANPUH), criada originalmente para ser uma associação de professores universitários, é composta por uma diretoria nacional, sucursais e 26 Grupos de Trabalho. O GT Ensino de História e Educação é o que aglutina os filiados da ANPUH que possuem vínculo com a área ensino de História. É esse GT, por exemplo, que organiza o Encontro Nacional dos Pesquisadores do Ensino de História (ENPEH). O curso de História tem um mestrado profissional em Ensino de História (Prof-História). Ele não tem vínculo formal com a ANPUH, apenas político, e recebe forte influência dos integrantes do GT Ensino de História e Educação.

            O caso da Geografia não é diferente. A Associação de Geógrafos Brasileiros (AGB) é a sociedade científica que representa os geógrafos, geógrafas, professores e estudantes de Geografia do país. Sua estrutura é composta por uma diretoria nacional, seções locais e Grupos de Trabalho. O GT Ensino de Formação Profissional é um dos quatro GT’s que compõem a estrutura da AGB. Embora não faça parte dos fóruns da AGB, o Encontro Nacional de Prática de Ensino de Geografia (ENAPEG), tem como objetivo consolidar as pesquisas vinculadas ao ensino de Geografia na educação básica, congrega professores (educação básica e superior), estudantes da graduação e pós-graduação. A Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Geografia (ANPEGE), formada pelos Programas de Pós-graduação em Geografia do país, não suscita espaços específicos para discutir o ensino da Geografia.

            Diferentemente da História e da Geografia, a Ciência Social se organiza em entidades/associações científicas diferentes. Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciência Sociais (ANPOCS), Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) e Associação Brasileira de Antropologia (ABA) compõem este conjunto. A ANPOCS reúne mais de uma centena de centros de pós-graduação e pesquisa de todo o país, congregando antropólogos, cientistas políticos, sociólogos e da área de Relações Internacionais. A associação é feita por sócios institucionais e não por pesquisadores individuais.

Outra sociedade científica é a SBS. Ela busca representar pesquisadores brasileiros nas áreas de Sociologia e Ciências Sociais e, pelo visto, a relação dela com a educação básica é inexistente. A ABA é a mais antiga delas. Voltada a assuntos relacionados ao ensino superior, a ABA tem no seu interior uma Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia, coletivo que não promove a interface com a educação básica.

Contudo, as Ciências Sociais têm uma associação específica para tratar dos assuntos relacionados à educação básica. Criada a partir do sentimento de que as sociedades científicas da área não davam o devido valor ao tema do ensino da Sociologia, foi fundada, em 2012, a Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (ABECS). Sem ter a pretensão de se colocar em disputa com qualquer entidade sindical ou científica, a ABECS busca somar esforços para que o ensino da Sociologia na educação básica tenha relevo no campo acadêmico e seja legitimado no contexto da educação básica. Do ponto de vista organizacional, a filiação é individual, a entidade conta com uma direção nacional, unidades regionais e organiza o Congresso da ABECS a cada dois anos.

As Ciências Sociais têm um mestrado profissional, a exemplo do Prof-Filo e do Prof-História. Com 9 núcleos, o Mestrado Profissional em Sociologia (Prof-Socio) dedica-se à pesquisa e formação continuada dos professores de Sociologia que lecionam na educação básica. É bom registrar que o Prof-Socio não tem vínculo formal com a ABECS.

            Por fim, a última associação científica a ser investigada é a Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação (ANPED), entidade que congrega os programas de pós-graduação em educação, professores e estudantes vinculados a estes programas. Ela é composta por uma direção nacional, um fórum composto por coordenadores dos programas de pós-graduação em educação e 23 Grupos de Trabalhos (GT’s), sendo um dedicado à Filosofia da Educação. A ANPED organiza seu congresso nacional a cada dois anos e, de forma intercalada, encontros regionais. A filiação pode ser individual ou institucional.

 

O futuro da ANPOF-EM: uma possibilidade

 

A proposta que apresento tem alguns eixos norteadores: 1) Reforçar a ANPOF como a principal entidade acadêmica do país na área de Filosofia; 2) Manter a relevância do GT Filosofar e ensinar a Filosofar para as discussões da área ensino de Filosofia; 3) Incorporar novos atores para o debate, a exemplo dos estudantes que participam do Prof-Filo, dos programas governamentais (PIBID, Residência Pedagógica, etc.) e professores da rede federal de ensino; 4) Fortalecer a área ensino de Filosofia dentro da ANPOF.

A primeira sugestão visa criar um órgão, que pode ser um Conselho de Educação Básica da ANPOF, para articular as ações promovidas pela ANPOF que envolvam o ensino de Filosofia na educação básica. Nesta proposta de configuração, o protagonismo fica a cargo das coordenações do GT Filosofar e ensinar a Filosofar e do Prof-Filo.

Fortalecer o Encontro Nacional do Prof-Filo, trazendo-o para dentro do Encontro Nacional da ANPOF. Isso pode permitir o contato dos discentes do Prof-Filo com os demais integrantes da comunidade filosófica, estreitando a relação da Pós-graduação com a educação básica. Além disso, o GT Filosofar e ensinar a Filosofar manteria a regularidade das suas reuniões bianuais dentro da programação geral do Encontro da ANPOF. Assim, teríamos dois espaços específicos para discutir o ensino de Filosofia dentro do principal evento organizado pela ANPOF, que é seu encontro.

Sugiro a criação de um grande encontro nacional de Ensino de Filosofia, a ser realizado entre os encontros nacionais da ANPOF. Esse evento será concebido e organizado pelo conselho da ANPOF, sob supervisão da diretoria da ANPOF. O objetivo central é propiciar mais um espaço para a apresentação de trabalhos/pesquisas e discutir questões pertinentes ao ensino da Filosofia na educação básica (ensino fundamental e ensino médio). O público-alvo deve ser composto por estudantes de licenciatura, especialmente aqueles que participam de programas governamentais (PIBID e RP), pós-graduandos vinculados ao Prof-Filo, docentes da educação básica (fundamental e médio), pesquisadores da área, docentes da rede federal/estadual/municipal/privada de ensino, etc.

O ensino da Filosofia nunca esteve tão acessível como na atualidade. Por outro lado, o cenário aponta um futuro incerto para o Ensino de Filosofia na educação básica. Reler a atualidade parece ser imprescindível, o que impõe para a comunidade filosófica brasileira um olhar mais atento. Dar expressividade organizacional e relevância política que a área Ensino de Filosofia merece talvez seja o primeiro passo para superar os atuais desafios.

Em suma, a proposta que apresento não é definitiva. Ela está aberta, sujeitando-se à crítica e aos ajustes. O fato é que se faz necessário ressignificar o atual modelo do Encontro ANPOF-EM. Sob a coordenação da diretoria da ANPOF, o novo formato deve ser mais plural, representativo e promover as discussões em torno do ensino de Filosofia na educação básica brasileira.

 

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[1] Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe. É integrante do GT Filosofar e ensinar a filosofar, faz parte do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Filosofia (UFS) e do Prof-Filo (núcleo UFPE). É integrante da Comissão de Organização do Encontro ANPOF-EM.


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