Eduardo Barra
Universidade Federal do Paraná
24 Jul 2014

Física, Sociologia, Química, Artes, Matemática e Letras. Em todas essas áreas, há mestrados profissionais em rede nacional para professores (PROFs). Alguns deles estão ainda em fase de implantação; outros já funcionam há pelo menos dois anos. Entre os professores das disciplinas que compõem a grade curricular do ensino médio brasileiro, apenas não dispõem de PROF em suas áreas de formação os professores de geografia, biologia e filosofia. Para o caso particular da filosofia, penso que não há mais razão seja para a persistência dessa carência seja para a falta de iniciativa da comunidade filosófica nacional diante dela.

Na mensagem inicial deste fórum de debates, informamos que 80 professores de filosofia no ensino médio, atuando nas mais diversas regiões do país, inscreveram-se na próxima edição da ANPOF_EM, a ser realizada em outubro deste ano. Esse evento, ainda na sua segunda edição, tornou-se uma referência para esses professores, com ramificações importantes para o restante da comunidade filosófica do ensino médio, que ainda inclui os professores universitários que se dedicam a pesquisas e ações de apoio nesse nível de ensino. Contribuíram para esse sucesso precoce, sobretudo, a vitalidade própria disso que aqui chamarei “mobilização pró-filosofia no ensino médio”, cujo início remonta às campanhas pelo retorno da filosofia ao ensino médio e que foi impulsionada pelas ações em torno do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, a partir de 2006.

Mas suponho que a expressiva recepção da ANPOF_EM pelo seu público-alvo deveu-se a um outro fator relativamente externo à “mobilização pró-filosofia no ensino médio”. Refiro-me à própria ANPOF. Antes de tudo, é importante dizer que não duvido de que aquela mobilização, de forma autossuficiente, pudesse ter alcançado o mesmo êxito, se incluísse em sua pauta eventos com os encontros da ANPOF-EM. Todavia, é um fato incontestável que, tão logo as discussões sobre o ensino da filosofia passaram a ser acolhidas no âmbito dos encontros nacionais promovidos pela ANPOF, esses encontros e a própria ANPOF converteram-se num componente nada desprezível – ouso dizer imprescindível – da mobilização pró-filosofia no ensino médio.

Creio que, para muitos daqueles 80 professores que inscreveram seus trabalhos na próxima ANPOF_EM, contou decisivamente para a sua decisão o fato desse ser um evento promovido pela ANPOF e ocorrer de modo integrado ao mais importante e representativo evento da sua área de formação. Não seria surpresa, portanto, se dentro de mais alguns anos os encontros nacionais de filosofia saírem da condição de meros coadjuvantes e passarem à condição de protagonistas das práticas e políticas do ensino da filosofia nas escolas brasileiras.

A esta altura, então, é compreensível que se levantem as seguintes questões: mas, afinal, tornar-se protagonista nas questões do ensino da filosofia nas escolas básicas seria mesmo parte da missão da ANPOF? Haveria como justificar esse notável “desvio de função” da nossa associação? Ou, no mínimo, haveria como compensar os riscos envolvidos nessa passagem abrupta da agenda da pós-graduação para aquela do ensino médio?

Respostas negativas a questões como essas, provavelmente, traduzam as motivações para as reservas com que alguns encararam a simples presença das mobilizações pró-filosofia no ensino médio nos encontros nacionais de filosofia. Hoje, às vésperas da segunda edição do encontro ANPOF_EM, essas reservas ainda persistem. Para os que delas divergem, o desafio passa a ser encará-las sem meias palavras e procurar desarmar o seu potencial deletério sobre os tênues nexos entre educação básica e pós-graduação em filosofia que emergiram nos últimos anos.

Paradoxalmente, a meu ver, a proposta da criação de um PROF da Filosofia catalisada por ações e realizações da ANPOF ao mesmo tempo em que permite radicalizar essas reservas, permite também dirimi-las. É justamente com esse último objetivo que farei com as seguintes considerações sobre a viabilidade da proposta de um PROF da Filosofia nessas circunstâncias:

1) Um mestrado profissional para professores de filosofia não pode dispensar a recente, mas promissora, prática de fomentar e discutir relatos de experiência que caracteriza ANPOF_EM desde o seu início. Ao contrário do que ocorre nos mestrados acadêmicos, o objetivo dos mestrados profissionais não é a realização de uma pesquisa, pura e simplesmente. A pesquisa nos mestrados profissionais é interessada, no sentido de que se destina ao planejamento e execução de um determinado processo (tais como materiais didáticos, planos de aulas, unidades curriculares, projetos de ensino, ações interdisciplinares etc.).

2) É imprescindível o envolvimento dos atuais PPGs em Filosofia com um futuro PROF da Filosofia. Uma intensa clivagem entre os mestrados profissionais e mestrados acadêmicos seria desastrosa entre nós, visto a centralidade da formação para a pesquisa em qualquer formação filosófica, mesmo quando voltada à docência. A área de ensino de filosofia não está estruturada em PPGs próprios – tal como ocorre, por exemplo, nas áreas de ensino das disciplinas de ciências naturais. Isso tem reflexo no baixo desenvolvimento de pesquisas nessa área. Mas, por outro lado, isso permite que, potencializada pela criação de um PROF, a área de ensino de filosofia ingresse num novo período de expansão em estreita colaboração com os PPGs em Filosofia já consolidados.

3) É sabido por todos que, a partir de 2009, a CAPES passou também a fomentar ações e programas voltados à formação inicial e continuada de professores da educação básica. Essas ações e programas estão a cargo da DEB, que é a Diretoria de Formação de Professores da Educação Básica. Um programa central nessa estratégia é o PIBID (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência). O engajamento dos departamentos de filosofia nesse programa foi bastante significativo – talvez por se sentirem pressionados pelos alarmante índices de evasão ou pela baixa procura dos nossos cursos de licenciatura. O primeiro encontro nacional do PIBID Filosofia, realizado em 2013, em Vitória-ES, contou com participação de representantes de 13 estados. Mas os PIBIDs de Filosofia, sobretudo aqueles iniciados há mais de quatro anos, dão mostras de que ressentem da ausência de uma agenda e um repertório formativos próprios, que ainda não estão disponíveis. A elaboração de uma agenda e um repertório dessa natureza exigirá, entre outros, um expressivo investimento institucional na consolidação de uma pós-graduação em ensino de filosofia.

4) Uma vez em pleno funcionamento, é razoável supor que um PROF da Filosofia seja admitido entre os programas associados à ANPOF. Nessa condição, os mestrandos do futuro PROF da Filosofia estariam tão credenciados a participar dos encontros nacionais de filosofia quanto os pós-graduandos dos demais programas associados à ANPOF. Da mesma forma, seus professores poderiam propor e integrar núcleos de sustentação de GTs, tanto quanto podem seus colegas das demais pós-graduações acadêmicas. Nesse cenário, cumpridas as condições para a plena participação de seu público-alvo nos encontros nacionais de filosofia, descortina-se um novo cenário: talvez não haja por que prosseguir com os encontros da ANPOF_EM. Aparentemente, eles teriam cumprido integralmente a sua missão e, assim, poderiam deixar o seu legado aos futuros GTs dedicados aos temas afeitos ao PROF. Enquanto participações em encontros são eventuais, participações em GTs ao menos pressupõem uma expectativa de maior duração. As vantagens obtidas com intercâmbios e cooperações de uma maior duração são tão óbvias que dispensam maiores justificativas.

5) Se ainda não preenchemos todas as condições para desencadear o processo de criação de um PROF da Filosofia, temos as mais decisivas e isso é suficiente para sustentar que não se justifica mais adiar os próximos passos desse processo. Todas as mobilizações pró-filosofia no ensino médio dão mostras tanto da maturidade alcançada quando do seu esgotamento próximo, caso não sejam suplementadas com uma nova agenda, maior inserção institucional e vínculos mais sólidos com programas mantidos pelas agências de fomento oficiais – PPGs, PIBID etc.. A meu ver, esse é particularmente o caso dos encontros da ANPOF_EM. O esgotamento dessa fórmula é iminente, seja pela persistência das reservas a seu respeito seja pelo efeito reverso das novas oportunidades eventualmente desperdiçadas. Portanto, não vejo razão para não optar pelo caminho mais construtivo.

6) Por fim, resta esclarecer por que a ANPOF deveria, seja de que modo for, envolver-se com a criação de um PROF da Filosofia? Sendo uma associação de programas de pós-graduação, a ANPOF não incorreria em novo – e talvez mais grave – desvio de função se se alinhasse entre as proponentes de um programa qualquer? Para responder a primeira pergunta, basta dizer que o legado da ANPOF para a mobilização pró-filosofia no ensino médio é imprescindível para dar a projeção necessária ao PROF da Filosofia. A presença e o reconhecimento nacional da liderança exercida pela ANPOF – que se verifica mesmo nos departamentos onde ainda não há programas de pós-graduação – são elementos indispensáveis para o sucesso de qualquer iniciativa visando essa construção.

Além disso, respondendo a segunda questão, por essas mesmas características, a ANPOF tem autoridade para avalizar a representatividade e acompanhar as ações dos prováveis agentes dessa iniciativa. A ANPOF pode tanto atuar como instância de apoio e de disseminação dessas ações quanto se candidatar a instância de avaliação e acompanhamento dos seus resultados, quando assim for solicitada. Mas tudo isso são meras especulações, apenas a título de ilustração, que podem ser inteiramente revistas tão logo o processo esteja em andamento. Por ora, é importante deixar claro que a coordenação executiva de qualquer PROF deve estar a cargo de uma única instituição universitária escolhida entre aquelas participantes do programa. Portanto, nem se pode cogitar delegar à ANPOF a coordenação desse processo. O que se espera é que a nossa associação participe e ajude a zelar pela credibilidade do processo. Afinal, de modo comparativo, foi isso que fizeram as associações e sociedades nacionais da área de Física, Matemática, Química, História e Sociologia – respectivamente, SBF, SBM, SBQ, ANPUH e SBS –, para me limitar aos casos em que há informações públicas sobre o assunto, ao empenharem a liderança que exercem em suas áreas para promover a criação dos seus respectivos PROFs.

 

Sugestões de consultas:

 

PROF História

http://www.profhistoria.uerj.br/ 

 

PROF Física

http://www.sbfisica.org.br/~mnpef/ 

 

PROF Matemática

http://www.profmat-sbm.org.br/ 

 

PROF Letras

http://www.comperve.ufrn.br/conteudo/posgraduacao/profletras/201301/informacoes.php 

 

PROF Artes

http://www-dev.ceart.udesc.br/?id=41 

 

PROF Química (em construção)

http://boletim.sbq.org.br/noticias/n1222.php 

 

PROF Sociologia (em construção)

http://www.fundaj.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3603:profsociofundaj&catid=44:sala-de-impressa&Itemid=183 

 

 


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