Fernando Costa Mattos
UFABC
03 Ago 2015

Caros colegas da Comunidade ANPOF,

Fiz uma breve análise do Documento de Área, com vistas ao encontro da semana que vem (infelizmente tão esvaziado, como sabemos todos), e gostaria de partilhar algumas impressões com vocês. Trata-se de uma reflexão despretensiosa, de alguém que coordena uma Pós-Graduação recém nascida, e meu único intuito é talvez, a exemplo dos colegas que ma antecederam neste fórum, contribuir para estimular o nosso debate sobre o assunto.


I. Considerações gerais


"Interdisciplinaridade"

Acredito que esse é um tema muito importante, e que merece uma análise mais detida por parte de todos nós (como, aliás, indicado no próprio documento de área, ao final do tópico com esse título - p. 5). Como a UFABC tem nisso um de seus grandes motes, trata-se de um desafio que, de certo modo, enfrentamos cotidianamente. Ainda que, a meu ver, também estejamos longe de praticar efetivamente a interdisciplinaridade, talvez tenhamos algo a contribuir nesse ponto.


Uma das coisas que vejo como fundamental é a tentativa de integrar de algum modo as pesquisas de docentes e discentes de diferentes programas, com eventuais coorientações, disciplinas partilhadas, colóquios conjuntos e assim por diante. Na comunidade filosófica, porém, creio que ainda têm prevalecido os colóquios estritamente filosóficos e, em particular, aqueles que se centram em autores e/ou temas bem específicos. Nossa ideia ao fazer, por exemplo, o Colóquio de Filosofia Alemã da UFABC, em outubro de 2014, com mesas sobre diferentes autores (mas com todos, em princípio, participando o tempo todo), era justamente adotar um modelo mais aberto, com diálogo entre pessoas que estudam diferentes autores (muito embora no interior de um âmbito relativamente específico - a filosofia alemã).
 
Também estamos trabalhando com o pessoal da nossa Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais para realizar eventos comuns e criar um núcleo de pesquisas em Direitos Humanos (integrando sobretudo a nossa linha de Ética e Filosofia Política), de modo a criar um ambiente que seja de fato interdisciplinar. O mesmo vale para iniciativas que vêm sendo feitas pelo pessoal da linha de Teoria do Conhecimento com o pessoal de Ciências Naturais, inclusive com disciplinas comuns  ao  PPG-FIL  e  à  Pós-Graduação  em  Ensino,  História  e  Filosofia  das Ciências e da Matemática.


Nosso receio, porém, é que iniciativas desse tipo possam não vir a ser bem avaliadas pela Capes porque, embora em princípio valorizadas (como nesse campo das "considerações gerais"), tenderão a ter pouco impacto quantitativo quando se avaliarem, por exemplo, publicações nossas em revistas que não sejam bem avaliadas no Qualis da área. Um exemplo interessante disso é a revista Novos Estudos, do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), que é extremamente bem conceituada na área de Ciências Sociais, mas era, até pouco tempo, mal avaliada na Filosofia (agora aumentou para B2, o que, em todo caso, ainda é pouco).


Enfim: acredito que parte do esforço para dar real valor à interdisciplinaridade passa por incorporar iniciativas como essas também no âmbito da avaliação quantitativa. E, de outro lado, penso que a Capes deve mesmo insistir nessa tecla: estimular os pesquisadores em Filosofia a dialogarem mais com os pesquisadores de outras áreas; a se relacionarem mais com os outros setores da universidade (algo que de fato ocorre na UFABC); e assim por diante.


"Diálogo nacional e internacional"

Esse é outro ponto importante, e em relação ao qual já estamos talvez mais avançados. Em entrevista relativamente recente, Vinicius Figueiredo falou sobre a importância de nos lermos mais uns aos outros, e durante a sua gestão na ANPOF procurou incentivar isso - através do site "Estante", por exemplo, uma iniciativa que considero  extremamente  oportuna.  Novamente,  contudo,  penso  que  seria importante abarcar também esse ponto na avaliação quantitativa: as resenhas críticas que escrevemos para o "Estante", por exemplo, deveriam talvez valer como artigos, e receber uma boa pontuação. Não sei exatamente como proceder a isso de  um ponto de vista técnico (tamanho mínimo de toques, ISSN etc), mas creio que possíveis  mecanismos  devem  ser  discutidos.  Quanto  à  parte  internacional  do diálogo, também penso que avançamos bastante nos últimos anos, mas vejo a necessidade  de  seguir  reforçando  esse  processo  (muito  embora  não  saibamos como estarão as verbas para financiamento de convidados e projetos nos próximos anos!).


"Ensino fundamental e médio"

Esse é outro ponto que merece discussão. Considero muito bem vinda a criação do Prof-Filo, no qual a UFABC terá uma participação importante, assim como acho oportuna a abertura da ANPOF no sentido de incluir o pessoal do Ensino Médio e, de algum modo, vencer a barreira que antes separava por completo essas duas dimensões  da  comunidade  filosófica.  Também  penso  que  a  UFABC  poderá colaborar nessa discussão, e estou colhendo as sugestões dos colegas que trabalham diretamente com isso para o nosso encontro da semana que vem. Novamente, acredito que é preciso, na parte quantitativa, dar o devido valor a publicações qualificadas voltadas para o ensino médio.


III. Considerações gerais sobre a Ficha de Avaliação

Acho interessante o modo como o documento propõe relacionar a avaliação e a reflexão sobre a nossa identidade como comunidade filosófica, e acredito que os "seminários de acompanhamento" surgem exatamente com essa função. (É realmente uma pena que o próximo aconteça tão esvaziado, pelas razões que todos conhecemos!) Recentemente, na palestra inaugural do nosso Programa de Pós- Graduação em Filosofia da UFABC, o Marcelo Carvalho falou bastante sobre esse tópico,  tendo  em vista  o  impressionante  crescimento  da  área  nos  últimos  dez, quinze anos: é necessário repensarmos o que somos, o que fazemos, o que queremos etc (tema que ele também aborda em seu artigo para este fórum).


Quanto  a  isso,  acredito  que  é  preciso  discutir,  além  dos  pontos  acima, também o que significa fazer pesquisa em Filosofia - não no sentido de estabelecer um padrão e excluir o que nele não se enquadre, mas, pelo contrário, no sentido de abrir possibilidades inovadoras em nosso campo. Acredito que os critérios de rigor instituídos pela tradição francesa, por exemplo, devem continuar a ter o seu lugar, sobretudo na formação dos estudantes. Mas, para que possamos praticar a interdisciplinaridade, interagir efetivamente com outras áreas do saber e da sociedade, pensar questões do presente, tais critérios não são talvez suficientes. Por outro lado, sabemos que é bastante difícil desenvolver um trabalho rigoroso, em Filosofia, sem as balizas que esses critérios oferecem. Estou longe de ter a solução para o problema, mas acho importante que essa questão seja enfrentada abertamente.  Como  todos  sabemos,  na  nossa  área  há  quem resista  a  sequer colocar o problema nesses termos.


Como já diz o próprio documento de área, porém, é preciso "debater quem são os nossos leitores, qual o papel de nossas publicações, o que significa a produção do conhecimento e sua crítica no campo da Filosofia" (p. 14). E o mesmo vale para o seguinte ponto (que consideramos igualmente válido e, por isso mesmo, digno de um enfrentamento efetivo): "consideramos a avaliação quantitativa apenas como o ponto de partida da avaliação, que com base nos dados fornecidos deve então interpretá-los à luz das características e necessidades da área, de nosso entendimento  do  tipo  de  trabalho  que  se  faz  em  Filosofia  e  de  sua  função acadêmica e social, de nossas prioridades, metas e objetivos e de nossa inserção no mundo acadêmico nacional e internacional."


IV. Qualis, Livros etc

Evidentemente, o Qualis Periódicos já está em estágio bem mais avançado do que o Qualis Livros. Com relação ao primeiro, eu questionaria apenas o peso zero atribuído aos artigos publicados em periódicos avaliados como "C". Isso não seria um desestímulo, por exemplo, à criação de novas revistas? Não seria um desestímulo  a  prestigiar  novas  revistas  –  ou  revistas  de  outras  áreas  –  com eventuais publicações nossas? Talvez pudesse haver algum critério (pessoas envolvidas nos conselhos e comissões executivas, por exemplo) que permitisse incluir um periódico mais rapidamente no extrato B5. Mas isso é só um palpite. Sei que essa discussão é bem complicada. Com relação ao Qualis Livros, penso que os critérios propostos são bons - acho positivo que se tenham contemplado as traduções, por exemplo - e serão certamente discutidos no encontro da semana que vem e ao longo do semestre, neste fórum.

V. Fichas de Avaliação

Também não tenho muito a sugerir aqui, mas acho interessante que se possam discutir eventuais mudanças nos pesos atribuídos a este ou aquele fator. Por exemplo: será que o item 2.4 (atividades de ensino ou pesquisa na graduação) não poderia valer um pouco mais, de modo a reforçar os vínculos entre a pesquisa na graduação e na pós? Outro item que eu cogitaria aumentar seria o 4.3, com ênfase para participação em eventos e bancas examinadoras em diferentes instituições (atividades que tomam muito tempo nosso, atestam o respeito de nossos pares etc, mas  acabam  pesando  muito  pouco).  Com  relação  aos  eventos,  sei  que  eles poderão  ser  computados  se  virarem  publicação,  mas  penso  que  valorizar  os eventos independentemente da publicação é também uma forma de estimular o diálogo, o intercâmbio etc. Outro ponto que eu cogitaria aumentar: o peso do item 5 (inserção social) na pontuação geral – o que tem a ver com questões que levantei antes, a respeito da efetiva relação com a sociedade etc.

Bem, são essas as impressões que eu queria compartilhar. Espero que tenhamos um debate produtivo – não somente no encontro da semana que vem, mas ao longo do  semestre  –  e  possamos  construir  coletivamente  um  novo  e  equilibrado documento de área.

Saudações cordiais,
Fernando Costa Mattos
Coordenador do PPG-FIL da UFABC


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