As instituições nada imaginárias e os sujeitos que as formam
Horacio Lujan Martínez
(River Plate)

Olá, Viviane: meu comentário é totalmente subjetivo, no sentido de não ter passado pela experiência que relatas , uma vez que nunca solicitei bolsa produtividade do  CNPq; mas sempre que solicitei para eventos, publicações, etc   à Capes, Fapesp, CNPq e Fundação Araucária, tive sorte de ser contemplado. Dito isto, nada mais longe de uma apologia destas ou outras instituições que este "desabafo". Vou contar o meu desgosto crónico que explica o título e subtítulo do mesmo.

O que descreves sobre bolsas - uma prática de injustiça sistemática - comigo acontece com avaliações de artigos. Cansei de receber pareceres sarcásticos, mal-educados, muitos deles demonstrando não ter lido o artigo por completo, em revistas nacionais. Está claro que não considero nenhum texto meu "irretocável", mas, poucas vezes recebo uma exposição detalhada dos problemas do texto e conselhos para solucioná-los. Por estranho que pareça, me resulta mais fácil publicar no exterior em revistas com as quais não tenho nenhuma relação prévia - embora sempre analise a orientação editorial da mesma - que no pais em que desenvolvo meu trabalho. Deixo claro que não estou falando de todas as revistas nacionais, mas, de algumas experiências pessoais.

A última experiência desagradable e absurda aconteceu o ano passado. Quis participar de um dossié sobre a filosofia de Laclau e Mouffe. A chamada fazia questão de que o texto fizesse uma relação entre a obra deles e outros pensadores/as e correntes.

Eu enviei um artigo sobre o uso e papel da obra  de Wittgenstein na Teoria do Discurso de Essex. Só para te informar, eu fiz mestrado e doutorado sobre Wittgenstein na Unicamp com o entranhavel Arley Ramos Moreno. E pósdoutorado na Universidade de Westminster com Chantal Mouffe. De fato o artigo era um dos resultados dessa rica experiência. A revista é B3 mas eu quis participar pelo fato de ser um dossier específico. A primeira correção (teve duas correções, não dois avaliadores) se resumiu a um displicente "Não se pode falar de Derrida como se todo mundo conhecesse sua filosofia". Como o texto não era sobre Derrida, e de fato projeto fazer um artigo específico sobre ele e o pósmarxismo, tirei as referências e, admito, o artigo ficou mais objetivo sem a menção de um autor tão complexo. Envio de novo e a correção é outra, absolutamente surreal: "Não se pode falar de Wittgenstein através de comentadores só...". Meu texto analisa as leituras conservadoras de Wittgenstein, as marxistas, a de Mouffe e depois escrevo quase 6 páginas sobre a obra de Wittgenstein para explicar as virtudes e limites das leituras dos comentadores.

Entendi que ou estava sendo avaliado por um psicótico ou por questões de lobby - isto é mais provável - não me deixariam publicar nunca nesse dossier. 

Expliquei o que acontecia ao editor da revista. Recebi um laconico e insipido:"Vc tem razão, não é a primeira vez que acontece. Vamos discutir isso numa reunião..." 

Bom, o comentário ficou mais longo do que pensava. Ao que aponto é que estou achando muito avaliador que não entende que sua função é cuidar que o artigo cumpra com as exigências de qualidade da revista, não que coincida com sua posição. Outra questão recorrente é a do avaliador que acha que essa situação o torna mais especialista ou conhecedor do tema que o autor do texto analisado. Algo que não é impossível, mas que não é obrigatório. Insisto em que o avaliador não pode se insmicuir no conteúdo do texto, sim na sua apresentação. Salvo que o conteúdo seja um disparate, claro. 

Bom, termino aqui, só queria comentar que pode ser teu caso institucional, mas, eu vejo muita improvisação e má vontade individual de pessoas que aproveitam o anonimato - que é uma proteção, não uma trincheira - para derramar suas neuroses sem talento sobre colegas. abraço e boa sorte, Horacio

 


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