Alberto Sartorelli
UNICAMP

Crise da filosofia universitária no Brasil1

Alberto Sartorelli2

É assunto do conhecimento de todos o fato de o financiamento público para a área de filosofia estar sendo seriamente ameaçado, especialmente neste governo obscurantista que a crise econômica fez emergir em nosso país. Isso é motivo da maior preocupação por nossa parte, a categoria de pessoas que trabalham de alguma forma com filosofia e recebem dinheiro público para isso, seja na docência de ensino médio, superior, pesquisa ou colaboração. No entanto, confesso que também fiquei muito envergonhado com os discursos que tentavam justificar o investimento público em filosofia no Brasil. “Mãe de todas as ciências”, “Guardiã do conhecimento ocidental”, “Exercício da crítica em todos os âmbitos”, e outras afirmações que, ainda que verdadeiras, não passam de ladainha para a maioria das pessoas. Em mais 80 anos de filosofia institucional no Brasil, nossa produção pouco se destacou no cenário internacional, e restou-nos apenas apelar à condição de portadores da “história das ideias”, de Tales a Foucault. Passamo-nos por seus guardiões, não por produtores. Longe de mim defender aqui uma ideia de que devamos apresentar resultados práticos à sociedade; nada mais antifilosófico do que isso. Todavia, a filosofia universitária brasileira trabalha há algum tempo, talvez para sua própria sobrevivência, numa lógica de produtividade incessante e internacionalização. Escrevemos muito, para obter no máximo circulação interna. Nossos textos não fazem parte da bibliografia de cursos de filosofia no exterior. Aqui mesmo no Brasil, a maioria da carga bibliográfica está soerguida sobre autores estrangeiros; o espaço da produção nacional em filosofia é no máximo o do “Comentário”, âmbito no qual deveríamos estar próximos da autossuficiência. A pergunta que faço aqui é: onde estamos errando? Minha hipótese é a de que o Comentário, ainda que imprescindível para uma compreensão profunda da gênese das ideias de um autor ou uma época, não é um gênero textual capaz de tornar a produção filosófica brasileira relevante ao redor do mundo.

Esse texto pretende levantar alguns dados do Google Scholar, plataforma de medição de número e impacto de citações. É importante notar que essa plataforma contempla hegemonicamente os países anglófonos, e por isso o impacto da filosofia no mundo francófono não pode ser analisado nem por aproximação através desse indexador. Ainda assim, conseguimos encontrar alguns dados de interesse.

A professora Marilena Chauí é certamente uma das maiores personalidades na área de filosofia no Brasil. Segundo o Google Scholar, ela possui 25.500 citações. É um número altíssimo. Todavia, analisando mais a fundo essas citações, vemos que quase 16 mil delas são de somente dois livros: Filosofia e Convite à filosofia. Os dois são livros didáticos. O trabalho de comentário filosófico da autora sobre Espinosa, exaustivo e brilhante, chama-se A Nervura do Real, e possui 270 citações. A enorme maioria em português, e em sua maioria presentes em trabalhos produzidos no Brasil.

Por outro lado, o professor Newton da Costa, segundo o Google Scholar, possui 8 mil citações. Seu texto mais citado é On the theory of inconsistent formal systems, com 900 citações. Não possuo formação suficiente no idioma da lógica para explicar a inovação profunda que Newton da Costa realizou em seu campo de pesquisa. Desse modo, dou a palavra ao próprio autor, explicando sua ousadia em entrevista para a Folha em 1997.

Desde a época de Aristóteles, um dos princípios da lógica é o de não-contradição. Ele estabelece a impossibilidade de que uma sentença qualquer e sua negação sejam ambas verdadeiras. Tome, por exemplo, a sentença "eu moro em São Paulo". Não é possível admitir, com base nesse princípio que essa sentença e sua negação, "eu não moro em São Paulo", sejam verdadeiras. Desse modo, a lógica clássica não admite contradições. A grosso modo, na nossa experiência cotidiana, é assim que as coisas são e é por isso que a lógica clássica tem seu campo de aplicação. Mas acontece que quando diferentes campos da ciência evoluem e se tornam mais complexos, as contradições aparecem. Na física, por exemplo, as partículas atômicas, em determinadas circunstâncias, não se comportam como partículas, mas como ondas. Isso significa, sob certos aspectos, que elas são e não são partículas. Essa dificuldade pode ser superada, como usualmente os físicos fazem, tentando, de uma maneira ou outra eliminar a contradição e manter a lógica clássica. Porém, se quisermos tratar diretamente do problema, sem desvios teóricos, torna-se necessária a utilização de uma lógica diferente da clássica, que aceite contradições. E a lógica paraconsistente foi idealizada para tratar de problemas desse tipo. Ela pode ser aplicada, por exemplo, na computação em sistemas especialistas. Um sistema especialista de suporte a diagnósticos médicos baseado na lógica paraconsistente pode processar dados contraditórios sobre as condições de saúde de um paciente, quando é impossível verificar qual deles é o verdadeiro. (Entrevista de NEWTON DA COSTA para a Folha de São Paulo em 1997)


Há até quem não concorde com a lógica paraconsistente. Todavia, é inegável que Newton da Costa fez algo diferente: enfrentou um problema concreto, e não somente a tradição interpretativa de um filósofo. Na minha opinião, esse tipo de discurso, que assimila ideias, toma posições, encara problemas, e, se possível, os resolve, é muito mais promissor para propagar os trabalhos feitos aqui do que o gênero do Comentário. É importante colocar aqui que o Comentário possui uma história, e sua tradição não é internacionalizada. Quem nos legou essa tradição foi Martial Guéroult, um francês entre muito outros. Quando dizem que nossos cursos de filosofia são franceses, devemos responder: “de certos franceses”. A cartilha do comentário filosófico, Descartes selon l'ordre des raisons, possui 640 citações de acordo com o Google Scholar. Como já foi dito, o indexador não abrange de modo confiável o mundo francófono. Ainda assim, são números baixíssimos para o precursor do modelo de uma tradição textual que por aqui já parece até “natural”. Para quem ainda desconfia, vejamos os números de Jean Hyppolite, outro clássico do gênero Comentário. Seu famoso livro Genèse et structure de la Phénoménologie de l'esprit de Hegel possui 460 citações. A versão em inglês, Genesis and structure of Hegel's "Phenomenology of spirit”, possui 660 citações. Para fazer justiça, o comentário de Carlos Nelson Coutinho sobre Gramsci (1989) tem 1300 citações só em português. Talvez porque a circulação do marxismo seja mais ampla do que a daquilo que propriamente chamamos “filosofia”.

O Comentário filosófico por si só não é um problema. Há trabalhos muito bons, gente qualificada, pesquisas extensas, erudição imensa e, por vezes, até tomadas de posição em questões filosóficas. Todavia, estão sempre eclipsadas pelo filósofo a ser interpretado. Receio que se todos os nossos Comentários fossem traduzidos para o inglês, o impacto ainda assim seria pequeno. Quem circula mesmo são as fontes primárias, os filósofos-base dos cursos. Nos nossos cursos, nenhum deles é brasileiro, e isso não é por acaso.

Em todas as áreas do conhecimento, absolutamente todas, seus principais teóricos eram ou são versados em filosofia. Tratando especificamente da situação das ciências humanas no Brasil, vemos que em todas elas, com exceção da filosofia, possuímos teóricos cuja circulação interna é bastante razoável. Somente o livro A Natureza do Espaço, do geógrafo Milton Santos, possui quase 12.900 citações. Na sociologia, o livro de Florestan Fernandes, A Revolução burguesa no Brasil, possui quase 2.900 citações. Literatura e Sociedade, de Antonio Candido, tem 5 mil citações. Ao vencedor as batatas, de Roberto Schwarz, tem 2 mil citações. Já o artigo mais citado do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro é Cosmological deixis and Amerindian perspectivism, com 2.100 citações. Em comum, todos realizaram inovações interpretativas de problemas em suas áreas.

O mais bem-sucedido autor brasileiro no processo de internacionalização é Paulo Freire. Sua obra, só no Google Scholar, possui impressionantes 372 mil citações!!! Seu livro mais citado é Pedagogy of the oppressed, com 81 mil citações. Depois aparece Pedagogía de la esperanza, com 44.500 citações. Paulo Freire é uma fonte primária para a área da Pedagogia. É como se fosse um Foucault para nós. Inclusive, a obra de Michel Foucault, segundo o anglófono Google Scholar, possui 975 mil citações!!! Os livros mais citados estão em inglês, depois em espanhol, e em português. As palavras e as coisas, em português, possui 13.700 citações. Sabe-se lá a abrangência de sua obra se o indexador considerasse a francofonia.

Se falar de Foucault pode parecer apelo ou anacronismo, falemos então de filósofos contemporâneos vivos. A filósofa estadunidense Nancy Fraser, com seu livro Justice interruptus: Critical reflections on the" postsocialist" condition, possui 6.600 citações. Outros livros de Fraser mantém uma média de mais de 4 mil citações. Roberto Mangabeira Unger, filósofo brasileiro do Direito e professor em Harvard, que escreve em inglês, também possui uma média de cerca de 3 mil citações para seus livros mais conhecidos. Ora, esses dados parecem dar vazão para a hipótese do pensamento colonizado, pois só obtém alto número de citações filósofos e filósofas da Europa e Estados Unidos. Mas, aparentemente, há um público leitor para quem reage contra isso. O filósofo camaronês Achille Mbembe, que trabalha na África do Sul e escreve em inglês e francês, somente com seu livro On the postcolony, possui 5.200 citações.

O Comentário filosófico é importante para a formação do estudante de filosofia, com seu rigor argumentativo e enunciado claro. No entanto, não é o único gênero textual da filosofia. Para dar um exemplo, Deleuze possui dois doutorados: um Comentário sobre Espinosa e a tese autoral, Diferença e Repetição. Se ficarmos presos somente à tradição do Comentário, dificilmente alçaremos voos mais altos na internacionalização de nossa produção. Para isso, é preciso mudar um pouco a abordagem dos cursos de filosofia.

O primeiro exemplo que trago à tona é o da obra de Oswald de Andrade. Apresentou a tese A crise da filosofia messiânica em 1950, para a cadeira de filosofia da USP. Foi reprovado num concurso que, além de outros, concorriam Vicente Ferreira da Silva, assistente de Quine, e o vencedor, João Cruz Costa. Nessa época, havia muita vontade de se fazer filosofia no Brasil. É evidente que um concurso não é capaz de avaliar o impacto das teses apresentadas. Ainda assim, exigir uma tese para o concurso parece muito mais interessante do que a mera avaliação do Currículo Lattes. A tese de Oswald de Andrade, na minha opinião, é extremamente potente e inovadora.

Há uma cronologia das idéias que se sobrepõe à cronologia das datas. O decálogo daria Kant, Maquiavel, Loiola e Lênin. Essa linhagem é, na filosofia dos cimos, a linhagem que afirma que os fins justificam os meios, a que exige de seus adeptos, forçados ou não, a obediência inerte, a que, na existência dialética do espírito, estagna no segundo termo a que constitui a negação do próprio ser humano. Porque enfim, é a seguinte a formulação essencial do homem como problema e como realidade:

1.° termo: tese — o homem natural

2.° termo: antítese — o homem civilizado

3.° termo: síntese — o homem natural tecnizado.

Vivemos em estado de negatividade, eis o real. Vivemos no segundo termo dialético da nossa equação fundamental. (OSWALD DE ANDRADE, A crise da filosofia messiânica, p. 79)


Ora, nesse trecho, Oswald de Andrade traça uma história das filosofias da obediência, e se contrapõe a elas oferecendo um terceiro termo dialético: no caso, a superação da sociedade da liberdade cerceada pela sociedade livre e tecnizada. Isso em 1950, e no Brasil, bem antes das famosas teses de Marcuse na Califórnia.

No mundo do homem primitivo que foi o Matriarcado, a sociedade não se dividia ainda em classes. O Matriarcado assentava sobre uma tríplice base: o filho de direito materno, a propriedade comum ao solo, o Estado sem classes, ou seja, a ausência de Estado. Quando se instaurou o Estado de classes, como conseqüência da revolução patriarcal, uma classe se apoderara do poder e dirigia as outras. Passava então a ser legal o direito que defendia os interesses dessa classe, criando-se uma oposição entre esse Direito, o Direito Positivo e o Direito Natural. Sendo aquele um direito legislado, exigia obediência. Estabeleceu-se então a organização coercitiva que é o Estado, personificação do legal. (OSWALD DE ANDRADE, A crise da filosofia messiânica, p. 80)


Aqui, Oswald divide a história humana entre Matriarcado e Patriarcado, e mostra como o Direito [da propriedade] é um discurso de classe, hierárquico e patriarcal. Para o filósofo, a cisão entre sociedade civil e Estado acontece exatamente na revolução patriarcal. Um raro exemplar do gênero Antropologia Filosófica.

A nossa tese afirma:

1.°) Que o mundo se divide na sua longa História em: Matriarcado e Patriarcado.

2.°) Que correspondendo a esses hemisférios antagônicos existem: uma cultura antropofágica e uma cultura messiânica.

3.°) Que esta, dialeticamente, está sendo substituída pela primeira, como síntese ou 3.° termo, acrescentada das conquistas técnicas.

4.°) Que um novo Matriarcado se anuncia com suas formas de expressão e realidade social que são: o filho de direito materno, a propriedade comum do solo e o Estado sem classes, ou a ausência de Estado.

5.°) Que a fase atual do progresso humano prenuncia o que Aristóteles procurava exprimir dizendo que, quando os fusos trabalhassem sozinhos, desapareceria o escravo.

6.°) Que, sob o aspecto dissimulado ou não da secularidade, a filosofia comprometida com Deus nunca deixou de ser messiânica.

7.°) Que a URSS exprime um pequeno anseio da grande revolução do parentesco que se realiza com o advento do novo Matriarcado. A sua revolução se concentra numa ênfase — a do setor da propriedade.

8.°) Que, ao lado disso, a URSS, levada pela mística da ação, perdeu o impulso dialético de seu movimento, enquistando-se numa dogmática obreirista que lembra, em síntese, a Reforma e a Contra-Reforma.

9.°) Que isso exprime o último refúgio da Filosofia messiânica, trazida do Céu para a terra.

10.°) O Existencialismo exprime um momento alto da Subjetividade, aquele em que o indivíduo se historializa como consciência e como drama. No Patriarcado.

11.°) Que só a restauração tecnizada duma cultura antropofágica, resolveria os problemas atuais do homem e da Filosofia.

12.°) Que A Revolução dos Gerentes, de James Burnham, lembrando a gerontocracia da tribo, oferece o melhor esquema para uma sociedade controlada que suprima pouco a pouco o Estado, a propriedade privada e a família indissolúvel, ou sejam, as formas essenciais do Patriarcado.

13.°) Que o homem, como o vírus, o gen, a parcela mínima da vida, se realiza numa duplicidade antagônica, — benéfica, maléfica — que traz em si o seu caráter conflitual com o mundo.” (OSWALD DE ANDRADE, A crise da filosofia messiânica, p. 128-129)


A investigação de cada um desses tópicos poderia ser tema de uma aula. Temos aqui a estrutura completa de um curso, baseado numa obra extremamente vivaz e fértil em ideias. É possível envolver Freud, Nietzsche, Hegel, Kant, Marx, os teólogos clássicos, Plotino, Aristóteles, Sartre e muitos outros para ajudar a entender a filosofia de Oswald de Andrade… e não o contrário. Esse curso só não acontece por desconhecimento, má vontade ou por pudor de atentar contra o Olimpo filosófico estabelecido. Não nos faltam ideias. O que falta é uma permeabilidade maior dessas ideias na filosofia universitária.

Para dar outro exemplo de filosofia bem feita, desta vez contemporânea, vou evocar a obra de Daniel Cunha. Seu artigo Antropoceno como fetichismo é um dos mais sérios que conheço, exemplar enquanto produção no campo da Teoria Crítica. Foi publicado originalmente em inglês, e traduzido para o alemão, espanhol, francês e italiano por entusiastas da crítica do valor. Baseando-se na lei da queda tendencial da taxa de lucro de Marx, e também nas obras de Adorno, Marcuse, Debord, Wallerstein, Kurz e Postone, além de vasto conhecimento em ciência, Daniel Cunha desenvolve um pensamento original. Precisamos destes autores para entender Daniel Cunha, e não o contrário.

Deve-se enfatizar que a fetichização aqui descrita e a sua destrutividade ecológica são um desenvolvimento histórico, são específicas do capitalismo, e por isso podem ser superadas: o metabolismo social com a natureza não é necessariamente destrutivo. O fetichismo da mercadoria e o trabalho como categoria de mediação social (trabalho abstrato) são historicamente específicos do capitalismo, e começaram com a acumulação primitiva (POSTONE, 2014; HOLLOWAY, 2013; GRUPO KRISIS, 2003). O Antropoceno como distúrbio globalizado da natureza é a externalização do trabalho alienado, a sua conclusão material lógica (DEBORD, 2009). A sua superação exige a reapropriação do que foi constituído de forma alienada (POSTONE, 2014), isto é, a desmercantilização da atividade social humana ou a superação do capitalismo. A tecnologia assim reconfigurada e socializada não seria mais determinada pela lucratividade (COMMONER, 1971), mas seria a tradução técnica de novos valores, e tenderia a tornar-se arte (MARCUSE, 1973; MARCUSE 1969). Ao invés de ser determinada pela unidimensional valorização do valor, a produção social seria o resultado de uma multiplicidade de critérios discutidos em comum, englobando considerações sociais, ecológicas, estéticas, éticas e outras – em outras palavras, a riqueza material seria liberada da forma-valor. Tecnologias como a energia solar, a microeletrônica e a agroecologia, por exemplo, poderiam ser usadas para configurar um mundo de riqueza material abundante e um metabolismo social consciente com a natureza – um mundo com energia renovável e limpa abundante, tempo livre social abundante devido às forças produtivas altamente automatizadas e comida abundante ecologicamente produzida, sob controle social (KURZ, 1997; SCHWARTZMAN; SCHWARTZMAN, 2011; ALTIERI 2009). Então, e somente então, a humanidade poderia estar no controle consciente dos ciclos materiais planetários e poderia usar esse controle para fins humanos (mesmo se decidisse mantê-los em seu estado “natural”). De fato, isso significa levar a sério a promessa do Antropoceno, ou seja, o homem deve assumir o controle consciente dos ciclos materiais planetários, estender o terreno do político até aqui deixado à mecânica cega da natureza (SWYNGEDOUW, 2013) e, no capitalismo, ao fetichismo da mercadoria. E isso não apenas porque as forças produtivas desenvolvidas pelo capitalismo o permitem – ainda que até agora o façamos sem controle social consciente – mas também porque isso pode ser necessário. A civilização está adaptada às condições holocênicas que prevaleceram nos últimos dez mil anos (HANSEN, 2009; ROCKSTROM ET AL, 2009) e devemos estar preparados para agir para preservar essas condições que possibilitam o desenvolvimento humano, ou mitigar mudanças bruscas, porque elas poderiam ser ameaçadas não apenas pela atividade (fetichizada) humana, mas também por causas naturais, o que já aconteceu muitas vezes na história natural (como no caso dos ciclos glaciais disparados por perturbações na órbita terrestre, ou a extinção catastrófica dos dinossauros devido ao impacto de um meteoro). A “mão invisível” (fetichizada) e o “Antropoceno” (fetichizado) são duas faces da mesma moeda, da mesma socialização inconsciente, ambos devem ser superados com a comunização da atividade social, isto é, o controle efetivo dos ciclos materiais planetários depende do controle social consciente da produção mundial. […] A geoengenharia e a tecnologia avançada em geral, libertas da forma-valor e da razão instrumental, poderiam ser usadas não apenas para resolver o problema climático, mas também, como escreveu Adorno, para “ajudar a natureza a abrir os olhos”, ajudá-la “na pobre Terra a tornar-se aquilo que talvez gostasse de ser” (apud MARCUSE, 1973: 69-70). (DANIEL CUNHA, Antropoceno como fetichismo, p. 96-97)


A tese radical de Daniel Cunha até pode não chamar muito a atenção por aqui. Infelizmente. Em artigo de 2018, escreveu o conhecido economista francês François Chesnais:

Enfin le philosophe brésilien Daniel Cunha a inscrit une recherche critique sur la notion d’anthropocène dans le cadre mis en place par J. W. Moore et A. Malm. (FRANÇOIS CHESNAIS, Capitalisme et changement climatique) [Finalmente, o filósofo brasileiro Daniel Cunha escreveu uma pesquisa crítica sobre a noção de antropoceno, no quadro estabelecido por J. W. Moore e A. Malm.]


Formado engenheiro químico e sem nunca ter pisado num departamento de filosofia, ao falar de coisas importantes com conhecimento de causa, embasamento teórico e posições firmes, o philosophe brésilien Daniel Cunha nos dá um exemplo de pensamento vivo que encara problemas concretos e urgentes. Ainda que não seja conhecido no Brasil, a menção de Chesnais mostra que suas ideias estão circulando. As ideias vivem, falta à Universidade estar permeável a elas.

A impressão que tenho, como estudante em dois departamentos de filosofia diferentes, é que reina, segundo o termo de Nietzsche, um perene niilismo imperfeito entre os estudantes. O niilismo imperfeito fica estacionado no vazio. O niilismo perfeito, sua superação, seria a capacidade do indivíduo de dar a si mesmo o sentido da própria vida, sem recorrer a outrem. Nem que a conclusão seja a de que não há sentido. Só daí pode surgir na filosofia alguma coisa “nova”. Tenho a impressão de que os cursos de filosofia são organizados de modo pouco convidativo para a superação do niilismo imperfeito. Nossa energia libidinal é empregada em estudos densos que, em vez de proporcionarem aos estudantes plataformas de reflexão amplas, servem para avaliar de modo árido a capacidade de leitura e interpretação de texto. Além disso, o procedimento da castração intelectual reina silencioso nos corredores: você só pode fazer alguma coisa depois que souber tudo; antes disso é ambição cega, ego inflado ou “brisa” juvenil. Algumas vezes isso pode ser verdade, mas não sempre. Os filósofos devem ser a plataforma de voo dos estudantes, não o próprio avião. É nesse estado que estamos errando feio. O conhecimento ultraespecializado e a devoção a filósofos estabelecidos como fonte emanadora da verdade alienam o estudante da própria filosofia, que é pensamento vivo que não se deixa travar. Já houve uma tradição filosófica, de Epiteto a Raoul Vaneigem, que primava pela arte de viver. Os problemas da filosofia estão nas ruas. É preciso que os estudantes vivam a filosofia junto de sua vida cotidiana, que seus problemas filosóficos sejam vivos, que a perseguição das intuições nunca cesse, que suas decisões sejam tomadas a partir de posições filosóficas, e que os problemas filosóficos façam sentido na vida do estudante. Quando se está munido de conceitos adequados, até o asfalto das ruas vira uma questão filosófica.

Não estou propondo aqui uma simplificação panorâmica ou histórica dos cursos. Apesar dos números não apontarem para isso, nosso ensino de filosofia a nível superior provavelmente é um dos melhores do planeta. Proponho aqui um pouco menos. Acredito que os alunos devam ser incentivados a perseguir suas próprias intuições, e professores e colegas são importantíssimos nessa etapa. É preciso criar um ambiente intelectual no qual o estudante possa dividir suas ideias, indagações, receber críticas e sugestões, num teste e aprimoramento constante de suas hipóteses. Obviamente é impossível criar uma máquina de filósofos e filósofas. Porém, o estudante pode terminar o curso não somente tendo dado conta da bibliografia básica, mas saindo com uma maior segurança intelectual e um arcabouço de ideias suficiente para enfrentar problemas concretos sem precisar se esconder atrás de algum autor de renome. Tenho a impressão de que não somos incapazes.

Da parte dos professores, acredito que o primeiro passo seja apostar mais em teses que, munidas de conceitos, se propõem a enfrentar problemas. Não é meu intento aqui erradicar a tradição do Comentário; a questão é que não há muito espaço para textos que enfrentam problemas munidos de conceitos, e não somente a exegese de obras clássicas. Isso pode mudar, e é urgente que mude.

Em relação à internacionalização, é importante que a Universidade tenha um Centro de Tradução. Seria interessante um centro no qual o pesquisador pudesse estar em contato direto de correspondência com o tradutor, para minimizar os equívocos. Além disso, seria interessante se as próprias editoras universitárias publicassem em inglês e participassem de eventos e feitas internacionais.

Da parte dos alunos, acredito que seria interessante a existência de algum jornal ou revista, para que os estudantes pudessem discutir entre si, ou mesmo divulgar filósofas e filósofos que estão fora do panteão universitário. Na minha opinião, todas essas coisas representariam saltos institucionais em relação à vivificação de nossa produção, para então poder ser internacionalizada e se tornar objeto de interesse. Seria ainda melhor a reconsideração das classificações da Capes e o maior incentivo a trabalhos de mais fôlego no formato livro; mas isso é uma discussão ainda mais abrangente.

Para terminar, uma outra entrevista de Newton da Costa, para refletirmos seriamente.

Mudando de assunto, como vê, de maneira geral, a pesquisa em filosofia feita no Brasil?

A minha impressão é que não se faz filosofia propriamente no Brasil, e acho que vai demorar bastante para isso acontecer. Aqui se faz sobretudo exegese. A pesquisa é muito concentrada em autores, na exegese de alguns filósofos. No começo, o argumento era o de que todo estudante de filosofia deve fazer a exegese de algum autor para depois pensar sozinho, mas, pelo menos em lógica e filosofia da ciência, isso não faz sentido. Você pode fazer grandes contribuições sem precisar estudar [Karl] Popper, por exemplo. E aqui, pior ainda, não se tem o hábito de publicar nem em espanhol. Não se vê praticamente nada em inglês. Assim, mesmo se a pessoa fizer um grande trabalho, ninguém vai saber se ela só publicar em português.

Qual é a razão disso?

Não sei, o Brasil tem essa tendência histórica de focar na história da filosofia. Essa parte vai bem por aqui, há pessoas que fizeram coisas muito bonitas nesse campo. Mas não há muito incentivo para o pensamento independente. Parece que o Brasil, desde que foi descoberto, vive de reflexos, e não de produzir luz própria. Esse, porém, é um problema da América Latina inteira, e mesmo nos Estados Unidos, o máximo que eles fizeram lá de novidade foi o pragmatismo, com [William] James, [Charles] Peirce. É difícil você transformar isso aqui numa Alemanha, é enrolado. Precisaria mudar tudo, a começar pelas nossas universidades.

Como acha que a formação universitária em filosofia no Brasil deveria ser?

Na minha área, pelo menos, de lógica e filosofia da ciência, precisa mudar completamente. É preciso que o aluno tenha logo bons cursos de lógica, alguns cursos de matemática e de física. Ou talvez separar. Na Inglaterra, se não me engano, em alguns lugares você faz uma divisão entre aqueles que se interessam por filosofia da ciência e coisas correlatas, os que se interessam por ética, os [entusiastas] da metafísica, os da estética etc. Assim você prepara melhor a pessoa. Como você vai falar de mecânica quântica se você não conhece isso? O complicado aqui no Brasil é que você vê gente que se intitula filósofo da física e não sabe física. É uma coisa no mínimo estranha.

O que é fazer filosofia para o sr.?

Significa produzir, nas áreas usualmente consideradas partes da filosofia, como estética, ética, lógica e fundamentos da ciência, ideias originais. E elas precisam existir, o que quer dizer, ser publicadas e estar abertas à discussão e à crítica. (Entrevista de NEWTON DA COSTA para a Folha de São Paulo em 2016)


Não tenho mais o que dizer, mas suponho que tenhamos muito no que pensar.


REFERÊNCIAS

- ANDRADE, Oswald de, A crise da filosofia messiânica. Obras completas VI: Do Pau-Brasil à Antropofagia e às Utopias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

- CHESNAIS, François, Capitalisme et changement climatique. A l’encontre, 2018. http://alencontre.org/ecologie/capitalisme-et-changement-climatique-notions-theoriques-et-trajectoire-historique-initiale-i.html

- COSTA, Newton da, Entrevista para a Folha de São Paulo. 1997. http://almanaque.folha.uol.com.br/entrevista_filosofia_newton_da_costa.htm

- COSTA, Newton da, Entrevista para a Folha de São Paulo, 2016. https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2016/12/1843543-newton-da-costa-um-logico-em-busca-da-quase-verdade.shtml

- CUNHA, Daniel, Antropoceno como fetichismo. Revista Continentes, n. 6 [2015], p. 83-102. http://www.revistacontinentes.com.br/continentes/index.php/continentes/article/view/72

1 Comunicação apresentada no II Encontro de pós-graduação em filosofia da UNICAMP, em12/11,2019, com o título “Filosofia e crítica estrutural da sociedade”. Esta é uma versão levemente alterada.

2 Mestrando em filosofia pela UNICAMP.


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