Anizia Lino de Messias
Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
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Houveram filosofias diferentes para épocas diferentes, em cada momento houveram problemáticas específicas para seu tempo, e os filósofos e filosofias que se destacaram na época trataram de pensar as questões fundamentais para o mundo naquele período. O presente texto visa suscitar uma discussão acerca das ações que os estudos filosóficos poderiam implicar na conjuntura política atual, isto é, de que maneira poderíamos inferir algo significativo para mover as pessoas a se mobilizarem em prol de uma transformação em nossa sociedade.

Bem, como a filosofia é algo recente em nosso país, e por ser o brasil um dos últimos a trabalhar no que concerne a produção de conhecimento filosófico, isso nos fez reféns da produtividade dos outros países e civilizações que colonizaram nosso país. No início do processo de redescoberta do brasil fomos povoados por pessoas de diversas nacionalidades, não haviam ali pessoas para pensar o brasileiro, não havia sequer o “ser brasileiro”, havia somente uma vasta mistura de indivíduos de países diferentes transitando entre o brasil e seu local de origem.

E com cada um pensando nos problemas que diziam respeito a realidade deles, na realidade vivenciada na frança, portugal, espanha ou estados unidos, mas não no brasil. Logo, todo e qualquer tipo de produção de conhecimento não se voltava para o brasileiro, porque ainda não existia ali o “cidadão brasileiro”. Com o passar do tempo, foi se formando essa identidade do povo brasileiro, só que, todo nosso conhecimento havia sido moldado com base nos referenciais de realidades que não dizem respeito a nossa, fomos acometidos por um colonialismo cultural , não que isso seja de todo negativo, afinal, há de se ter um referencial para que se haja a produção de algo, contudo, não se deve fincar toda produção de conhecimento desta forma.

Como bem explicitou Franco Montoro:

Não se trata, evidentemente, de desprezar os estudos, as reflexões e os conhecimentos elaborados em quaisquer épocas, ou em qualquer parte do mundo. Em todo problema há aspectos universais e reflexões, cuja validade não está limitada por fronteiras ou épocas. Mas, as questões concretas apresentam sempre uma caracterização diferenciada e própria. E se a sabedoria deve voltar-se para a vida real e esclarecê-la, não podemos nos contentar com a repetição de princípios e reflexões divorciadas da realidade concreta ou elaborados em função de situações que não são as nossas”. (Significação da filosofia no contexto brasileiro, Franco Montoro. brasília. 1979, cap.4, p.25)

 

“A Quebra de Paradigmas Gerada pela Inserção da Filosofia no Ensino Médio”

 

Tendo em vista que, a filosofia como algo presente na sociedade brasileira é algo recente, e quando digo sociedade, refiro-me às pessoas comuns, não os eruditos, acadêmicos, mas me refiro a pessoas da sociedade em geral, desde a classe mais baixa, já que, a filosofia somente foi inserida na grade de disciplinas obrigatórias para o ensino médio, no ano de 2008.

Antes, a filosofia só estava presente nas universidades e instituições de ensino superior, talvez, somente após a inserção da filosofia no ensino médio é que o público de leitores e receptores da filosofia mudou, e com isso vieram também, as problemáticas dos contextos sociais desse público.

Essas circunstâncias na qual a filosofia brasileira se viu inserida, fizeram com que houvesse um desprendimento das filosofias europeia, e uma mudança na metodologia de escrita dos textos filosóficos, tornando o conteúdo filosófico mais solúvel, uma filosofia que pudesse ser passível de compreensão a este novo público.

Porém, tudo que foi dito até agora, é algo que ainda está acontecendo, pois essa passagem de transformação do conteúdo filosófico é um processo demorado, já que, muitos profissionais que estão formando e que formaram os professores que estão e irão para as salas de aula de hoje, não se formaram para serem professores dos professores de filosofia, ou de jovens e adolescentes do ensino médio, muitos desses profissionais ainda estão construindo e transpondo a produção de conhecimento atrelados ao colonialismo cultural, muitos nem se reconhecem como parte daqueles que estão presos a esse modo de produção.

Então, nos deparamos com umas das maiores problemáticas atuais do ensino de filosofia no Brasil, e essa problemática é consequentemente a causa motora de não haver uma corrente filosófica brasileira que esteja a se debruçar sobre as problemáticas sociopolíticas da atual conjuntura.

Pois, quando não se há, formadores de professores de filosofia que estejam inseridos e envolvidos com as questões sociais vivenciadas pelos alunos, e pelas pessoas da sociedade em qual se vive, não haverá o mínimo esforço para que haja a produção da discussão acerca desses temas, e nem a credibilidade devida a quem se aventurar a tratar de tais questões.

Mas, talvez, a inserção da filosofia no ensino médio esteja forçando-nos a voltarmo-nos para estas questões. O leitor não é o mesmo de antes, a brusca mudança começa pela diferença de idades, não são mais só os homens adultos, maduros, agora são jovens, adolescentes, o que implica numa mudança do modo como será transposto o conhecimento, e do quê será transposto.

Pois, o arcabouço intelectual e a capacidade de processamento de ideias que um ser humano tem quando já adulto, difere da de um adolescente que está em plena puberdade e em processo inicial da construção de sua própria identidade.  E isso faz com que o professor de filosofia tenha que mudar seus paradigmas, suas visões de mundo, suas reflexões e seus pontos referências para que haja uma adequada transposição e compreensão do conhecimento filosófico para esse novo público.

“Acerca da implicação de necessidade de uma ação social do filósofo”

O que se faz necessário em nossa conjuntura atual, é o incentivo a produção de  filosofia concreta , não no que diz respeito a algo puramente físico, mas uma filosofia, um filósofo, que busque pensar a realidade que o circunda, pois “uma das funções da filosofia é precisamente a de procurar, responder ou aclarar os grandes problemas que os homens colocam para si mesmo nos momentos de reflexão” , e se nós brasileiros não pensarmos, ou procurarmos aclarar esses problemas da nossa realidade, quem o fará por nós?

E, é preciso que a pessoa a pensar nessas questões seja alguém que esteja inserido com essa sociedade, que esteja familiarizado com nossos problemas, pois tais coisas são algo intrínseco a nossa realidade, se os filósofos brasileiros, e os estudantes de filosofia não se voltarem para a produção e busca de descoberta dessas problemáticas, a filosofia, e o filósofo no brasil vai continuar sendo “olhado como um ser estranho e meio marginal” , como um “vagabundo” que não tem nenhuma utilidade para a sociedade brasileira.

E para aqueles que se veem em uma não obrigatoriedade de pensar os problemas filosóficos que dizem respeito a realidade brasileira, deveria refletir sobre o fato de que, se não houver alguém que se preocupe em pensar a filosofia sob este âmbito, a filosofia no brasil irá morrer, (algo que já está acontecendo pouco, a pouco) e se isso acontecer, não será apenas a “disciplina de filosofia” que irá se esvair.

Caso não nos voltemos para pensar no processo de construção da utilidade social do filósofo, essa corrente de pensamento de que a filosofia não tem nenhuma utilidade na vida concreta só irá aumentar com o tempo, até chegar em ponto em que as discussões de âmbito filosófico, serão vistas com repulsa, tornando escassa a existência de pessoas que pensem criticamente acerca da vida, do mundo,  que questionam e confrontam aquilo que lhes é imposto.

E talvez, pelo fato dos próprios produtores do conhecimento filosófico não verem a profundidade da importância da filosofia, é que por isso não sejam capazes de ver o quão perigoso é a possibilidade de uma sociedade que repudia a filosofia, e os possíveis fins para as reações em cadeia que isso pode gerar. A ação de não pensar no processo de construção de uma utilidade social do filósofo, para agir sobre a conjuntura sociopolítica da realidade que o circunda, poderá levar a filosofia a um ponto em que a produção de conhecimento filosófico se tornará tão ínfima que não terá força, ou credibilidade alguma para atuar sobre qualquer assunto.

Em suma, para que haja uma mudança na corrente de pensamento e produção do conteúdo filosófico brasileiro, é preciso que os novos formandos voltem-se para esses problemas. É preciso reconhecer que estamos em processo embrionário do desenvolvimento de produção filosóficas que digam respeito ao nosso contexto sociopolítico, e que talvez, para que haja implicações de ações de fato, seja necessário pensar a filosofia conjuntamente com outras áreas de produção de conhecimento, para que possamos então, promover ações por meio das reflexões acerca das problemáticas filosóficas trabalhadas.

Deve-se também, influenciar os jovens formandos em professores de filosofia, a pensar em quê ou o no quê a filosofia, e nós filósofos, futuros professores, poderíamos fazer para inferir alguma transformação no cenário político atual. Afinal, sendo nos denominados muitas vezes como pensadores críticos, não seríamos nós os responsáveis, digo, os mais propícios a desenvolver a reflexão que implique na ação que possibilitaria as mudanças que se fazem necessárias nesse momento, fazendo uso das filosofias de outrora e aplicando-as de maneira a preparar as pessoas para lidarem com esses conflitos.


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