Carolina Araújo
UFRJ/PPGLM/CNPq
31 May 2019

Na quinta-feira passada, 23 de maio de 2019, representantes de diversos departamentos de Filosofia do Rio de Janeiro, professores do Ensino Médio e estudantes de Filosofia reuniram-se no evento "Filosofia contra a ignorância: um enfrentamento". O objetivo do evento era de discutir propostas de resistência a uma política federal que tem a meta particular de estrangulamento da Filosofia. É bem verdade que essa política tem propósitos muito mais gerais do que este – de combate à educação, à pesquisa e às humanidades –, porém o evento pretendia se focar na nossa comunidade, na destruição que pende sobre a cabeça de todos nós e no que é possível fazer sobre a nossa própria causa. A ocasião me fez elaborar uma sugestão que eu submeto aqui à comunidade filosófica brasileira por meio de nossa Associação Nacional de Pós-Graduação.

Eu começo com o enunciado do problema, ou seja, o anúncio do ministro da Educação, de 25 de abril de 2019, de que seu projeto é "descentralizar investimentos dos cursos de Filosofia e Sociologia", declaração repetida com ênfase na região Nordeste, porque "a função do governo é de respeitar o dinheiro do pagador de imposto". Ele adicionou: "Pode estudar filosofia? Pode, (mas) com dinheiro próprio". O Presidente da República ratificou o projeto explicando que "A função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta". A ênfase de muitos de nós foi de que a concepção de educação em tela é estúpida. Ela é de fato. O ofício que se tem em vista na proposta é algo como costurar tênis na sweatshop terceirizada de uma corporação transnacional, gerando a renda de um dólar por dia e o bem-estar de ter toda a família trabalhando junta o dia inteiro (com as crianças sem receber pagamento porque afinal estão "aprendendo o ofício"; assim melhora-se a sociedade à sua volta, ou seja, aquela dos privilegiados que têm ações da corporação, que desfrutam dos bens sociais em outras regiões do Globo; privilegiados, esses sim, que são suficientemente ricos para estudar filosofia. Essa foi a ênfase de muitos de nós. Eu acho que a interpretação é correta e se encaixa bem na estrutura de todos os discursos chulos e violentos que transbordam do Planalto.

Mas eu queria propor uma outra ênfase, baseada em um enfoque complementar da questão: o enfoque daquilo que depende de nós (ἐφ' ἡμῖν). E com esse enfoque me restrinjo a ser breve e propositiva. Meu ponto é sobre o ofício, o ofício do filósofo. Os filósofos têm muita dificuldade em se entender como profissionais. Este não é o espaço para contar as várias histórias que me ocorrem a respeito, vou me deter apenas em um fato indiscutível: nós, os filósofos, aprendemos a ler, escrever e fazer conta, aprendemos o ofício da filosofia e encontramos caminhos (nem sempre fáceis, é verdade) de gerar renda para nós mesmos, certo bem-estar para a nossa família e modos significativos de contribuir para a sociedade. A filosofia é um ofício, ponto. E com pelo menos 2500 anos de existência. Um ofício baseado no reconhecimento de nossos pares – são filósofos que reconhecem o trabalho de filósofos – e da esfera pública à nossa volta, que lê e reconhece o nosso trabalho. Nós não somos filósofos autodeclarados. Nós somos filósofos por formação e profissão. Argumentar que há um ofício filosófico não é defender procedimentos de normalização, garantir a averiguação de domínio de conteúdos mínimos na formação (embora isso já seja a política dos cursos), ou estipular regras para entrada no grupo. Nada disso. Argumentar que há um ofício filosófico, como faço aqui, é apenas apontar para um fato no mundo. Um fato que muitos querem negar: os nossos governantes antes de tudo, mas também alguns de nós.

Filósofos negam o seu ofício porque se percebem trabalhando individualmente, seguindo um percurso individual no qual ninguém fala por ninguém. Mas isso não é senão uma visão restrita de nossa prática. A filosofia sempre se fez pela cooperação e, sobretudo, pela contenda. Esse fato talvez tenha sido mais evidente em outros tempos do que agora. Mas fato é que é a contenda que nos une: os rivais, para mencionar um espúrio diálogo platônico, são rivais por causa do objeto do seu amor. Quando um filósofo supõe uma trajetória individual, ele deixa de tentar refutar sua contraparte e exercer sua atividade; por outro lado, quando a contraparte deixa de reconhecer sua refutação, a filosofia também aí desapareceu. Desse ponto em diante, nos dois casos, só há arrogância, discursos monológicos, silenciamento, violência. Manter a contenda e a refutação metódicas, entendidas como a regra de nossa cooperação, é manter a filosofia. Não é preciso mais do que isso para descrever a prática que define o nosso ofício. E com essa prática damos o nosso maior retorno à sociedade, nosso melhor produto: a inteligência. Nós produzimos inteligência, porque o resultado da refutação é pensar melhor sobre o que se considerava evidente. Nós produzimos modos de fazer melhor, com mais atenção, com mais rigor, com mais precisão. E não há sociedade no mundo, país no mundo, que não precise urgentemente de inteligência.

Se esse é o produto da filosofia e o modo como ela o produz, então quanto mais desafiados somos pelos nossos pares, quanto mais qualificada é a nossa comunidade, mais inteligência produzimos. Aqui se vê o quanto a associação dos filósofos é importante. Ela importa como o modo producente da filosofia, como o ofício dos filósofos. Enfim eu chego à ANPOF. Se a associação dos filósofos é importante, ela é hoje representada pela ANPOF. Porém a ANPOF não é uma associação dos filósofos, e sim uma associação de Programas de Pós-Graduação em Filosofia. Permitam-me introduzir alguns dados: o Brasil formou em 2017 (ano de
realização do último ENADE), 6935 filósofos (entre bacharéis e licenciados), tendo mais que dobrado o número de 3143 filósofos de 2005 (ano do ENADE anterior). O censo de 2010 (nosso último censo) indica que neste ano havia no Brasil 46.357 filósofos (com ao menos graduação em filosofia). Uma simples projeção dos números nos leva a estimar que há hoje quase 100.000 filósofos no Brasil. Como a ANPOF é uma associação de Programas de Pós- Graduação, ela não tem sequer ideia de quem são todos esses filósofos brasileiros. Mas não é só isso. Todas as suas decisões são tomadas pelos coordenadores (professores) de cada um dos (em média) 45 programas brasileiros. No total, pelos dados da CAPES, em 2017 esses programas tinham 895 professores. Tirando desse número uma margem de erro relativa a professores que atuam em mais de um programa, podemos dizer que as decisões que representam a filosofia no Brasil são tomadas por 800 indivíduos, o que é 0,8% dos filósofos no país.

A filosofia equivocadamente confunde o seu ofício com a instituição da pós-graduação. Isso é um erro. Um dos grandes problemas que isso nos causa é que nós silenciamos a maior parte dos filósofos no país: nós não sabemos se e como eles exercem a profissão, nós não prestamos atenção na variedade das condutas, nós desconhecemos completamente quem é o filósofo não-acadêmico, nós tiramos os professores do Ensino Médio da elaboração de pautas de discussão, nós desconhecemos quantos Departamentos de Filosofia há no país, nós não sabemos como o racismo opera excluindo filósofos de dentre os filósofos, nós não sabemos onde foram parar as mulheres graduadas em filosofia, já que, da média de quase 40% de graduadas temos apenas 20% de docentes na pós-graduação. Nós estranhamos a nossa própria profissão.

Enquanto isso, não muito longe daqui, dados das American Philosophical Association mostram que graduados em filosofia tendem a ter salários mais altos dos que os graduados em todos os outros ramos das Humanidades; a associação também acompanha de perto os números de raça e gênero relativos aos filósofos. A British Philosophical Association conduz hoje uma discussão sobre acesso aberto à publicação em filosofia e, além disso, tem uma posição sobre mensuração de impacto de trabalhos de filósofos que foi encaminhada ao Ministro Britânico (Note-se que, em seu programa recém-divulgado, o impacto das pesquisas em filosofia é o próximo argumento do nosso Ministro da Educação contra nós). Nós não temos nenhuma informação desse tipo, e isso passa pelo fato de que o Brasil não tem uma associação filosófica que está preocupada com questões mais amplas da conduta da filosofia. A minha proposta é pela ampliação da ANPOF em uma Associação Brasileira de Filosofia. Uma associação que continuará a ser sustentada pelos Programas de Pós-Graduação, mas que tenha como membros e agentes decisórios os filósofos brasileiros. Uma Associação que possa conduzir debates de modo mais amplo e com temática mais ampla, enfim uma associação do ofício filosófico tal como ele acontece no Brasil.


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