Entrevista: “É preciso afirmar a potência de um feminismo agonístico”, Carla Rodrigues (UFRJ)

Dra. Franciele Petry, professora UFSC e diretora de comunicação ANPOF

Em entrevista concedida à ANPOF, Carla Rodrigues, Professora do Departamento de Filosofia da UFRJ, pesquisadora no Programa de Pós-Graduação de Filosofia (IFCS/UFRJ) e bolsista da Faperj, comenta o contexto teórico a partir do qual a crítica de Butler em Problemas de gênero foi desenvolvida, assim como suas implicações no campo da luta política. A professora explica como Butler adotou uma via de conciliação para lidar com “o problema de fazer política feminista supondo uma estabilidade da categoria "mulheres" e nem assim se desfazer do feminismo como forma de luta”. Também esclarece a posição de Butler em relação ao conceito de gênero e comenta as distorções de que se alimentam os críticos ao falarem de uma suposta “ideologia de gênero”.

Refletindo sobre o lugar das mulheres na Filosofia, a professora indica a tarefa que cabe a elas de ir além da denúncia do machismo, alcançando a crítica à misoginia estrutural que autoriza “a violência contra tudo aquilo que carrega a marca do feminino”. Nesse sentido, partindo da contribuição teórica de Butler, propõe que as mulheres pensem em “‘alianças contingentes’ com outros grupos marcados por vulnerabilidade e subalternidade”. A professora destaca, ainda, que considerando as diferenças epistemológicas existentes no campo acadêmico, quando se trata das teorias feministas, há um encontro entre elas na prática política cotidiana, o que não significa que haja uma unidade.


Defende o “feminismo agonísitico”, em referência ao termo da filósofa Chantal Mouffe, já que “conflitos não precisam ser superados em nome da tolerância, podem ser mantidos em função do reconhecimento de que a potência do pensamento está na abertura para a pluralidade e não no silêncio forçado dos consensos”. Para finalizar, a professora destaca as conquistas observadas nos últimos anos no cenário filosófico brasileiro, como, por exemplo, a criação do GT Filosofia e Gênero na Anpof em 2016 e a realização de estudos que ajudam a “identificar os inúmeros gargalos no ingresso das mulheres na carreira filosófica”.

1. Já nos anos 1990, Butler escreve em “Problemas de gênero” que “a teoria feminista tem presumido que existe uma identidade definida, compreendida pela categoria de mulheres, que não só deflagra os interesses e objetivos feministas no interior de seu próprio discurso, mas constitui o sujeito mesmo em nome de quem a representação política é almejada” (p. 17). Como a crítica de Butler contribuiu para se repensar a categoria de sujeito feminista e suas implicações para a prática política?

Uma das questões em debate na teoria feminista no anos 1980 era o deslocamento do conceito de mulher - que no singular parecia por demais restritivo - para “mulheres”. O plural tinha o objetivo de tentar superar diferenças irredutíveis: brancas e negras, ocidentais e orientais, ricas e pobres, heterossexuais e lésbicas, apenas para mencionar alguns exemplos. Butler está dialogando com esse problema, se valendo de livro da feminista Denise Riley (“Am I that name?” - Feminism and the Category of ‘Women’ in History, 1988), que ela chega a citar muito brevemente em Problemas de Gênero (p. 20). Dois argumentos são centrais: o primeiro, que apenas substituir "mulher" por "mulheres" não era suficiente para abarcar as diferenças internas que existem no grupo “mulheres”; o segundo, seguindo Riley muito de perto, a proposição de que “ser mulher” não tem base ontológica de sustentação. Butler caminha por uma via muito arriscada, numa tentativa de conciliar o problema de fazer política feminista supondo uma estabilidade da categoria "mulheres" e nem assim se desfazer do feminismo como forma de luta. Arriscada porque, por um lado, Problemas de Gênero chegou a ser saudado como a confirmação do “fim do feminismo”, que vinha sendo pregado pelos grupos conservadores nos EUA no rastro da onda finalista, de fim da história, fim da utopia socialista, com a queda do Muro de Berlim, e fim das lutas por mais direitos. Por outro lado, a expansão proporcionada pelo pensamento da Butler foi fundamental para revigorar a luta feminista e aí fazer aparecer novos sujeitos/as/es/xs/_s. Uma das saídas que ela encontra, a meu ver, é apontar para o paradoxo que existe na exigência de que, para adentrar o espaço político da representação, é preciso ser constrangido a uma categoria identitária unívoca, para só então se valer desta categoria identitária na reivindicação de direitos. Mesmo que conquistados, esses direitos já serão limitados por estarem destinados a atender apenas aqueles sujeitos submetidos à representação. A prática politica, a partir da percepção da importância dessa crítica, de alguma forma se modificou, e a política feminista passou a poder ser feita em nome de todos/as aqueles/as cuja marcação de gênero torna sua vida vulnerável. A articulação entre o pensamento de Butler e a teoria queer, por exemplo, é um dos desdobramentos notáveis justamente porque o termo queer cumpre pelo menos duas funções: funciona como um referente vazio, não pré-estabelecendo determinações para identificação; e torna-se uma estratégia política de tomar para si as denominações violentas ou discriminatórias e fazer disso uma forma de denúncia. A estratégia se repete, por exemplo, na Marcha das Vadias, quando as jovens feministas resignificam o termo “vadias”.

2. Acompanhamos em 2017 um forte movimento que se disseminou por meio das mídias sociais no Brasil de rejeição à figura de Butler. Para além de uma simples discordância em relação às ideias da autora, você considera que estaria na base de tal oposição incompreensões ou distorções teóricas relevantes?

Gostaria de lembrar que em 2017 foi a segunda vez que a filósofa estadunidense esteve aqui. Em 2015, ela cumpriu uma série de compromissos na UFBA, na UNESP e no SESC da Vila Mariana, em seminário organizado pela revista Cult. Havia 10 pessoas na porta se manifestando contra a presença dela ali. Como, dois anos depois, foi possível que 400 mil assinaturas tenham sido recolhidas contra a sua vinda ao Brasil? No encontro da Anpof de 2018, a professora Aléxias Bretas (UFABC) apresentou um excelente trabalho mostrando como foram articuladas as reações contrárias à vinda de Judith Butler ao Brasil. Olhando retrospectivamente, a mim parece óbvio que as mobilizações de 2017 já eram eleitorais e tinham como objetivo alimentar um clima de pânico moral, decorrência de uma suposta “ideologia de gênero”. A expressão tem sido usada pela Igreja Católica desde o final dos anos 1990 para deslegitimar toda a mobilização política feminista internacional em torno dos direitos das mulheres. Recentemente, Butler escreveu um ótimo artigo explicando o que não é ideologia
de gênero (https://sxpolitics.org/ptbr/judith-butler-precisamos-parar-o-ataque-a-ideologia-de-genero/9094?fbclid=IwAR1CVqKr8GPRBfBvD7HcmuF6hX92mL5t7f-WGzmfF8BMTCEHPO9yUVBJM-Q) , do qual gostaria de citar um pequeno trecho que sintetiza bastante bem as distorções que estão sendo feitas em torno da teoria de gênero : “Se a ideia de gênero promove algo, é a abertura em direção a uma forma de liberdade política que poderia levar as pessoas a viver sem discriminação ou medo daquilo que é “dado” ou daquilo que é “escolhido” como seu gênero. Negar essas liberdades políticas, como o papa e muitos evangélicos querem fazer, leva a consequências terríveis: aquelas que desejam abortar serão privadas do exercício dessa liberdade; gays e lésbicas que quiserem casar terão negada a opção de realização desse desejo; e aqueles que desejam assumir um gênero diferente da designação sexual do nascimento serão proibidos de fazê-lo.” É essa abertura que me parece que os adversários temem quando distorcem o que fazemos para chamar de “ideologia de gênero”.

3. Pensando a partir das contribuições do pensamento de Judith Butler, como poderíamos compreender o lugar do feminino no contexto da Filosofia? E quais seriam os principais enfrentamentos das mulheres em sua própria formação subjetiva dentro de um campo marcado historicamente por uma relação de poder fortemente opressora?

Uma das interlocuções importantes na filosofia de Butler é com a teoria psicanalítica. Digo isso porque sua pergunta se vale de dois termos – feminino e mulheres – que não estão necessariamente sobrepostos. Ela tem reivindicado essa separação na interlocução com a psicanálise, para que estas não reforcem a ligação entre homem/masculino/atividade/força, por um lado, e mulher/feminino/passividade/fraqueza, por outro lado. Entendo que você faz duas perguntas diferentes. A primeira, sobre o lugar do feminino na Filosofia, gostaria de poder compreender como um elemento constitutivo de todo sujeito, de modo que aquilo que a Filosofia entende como o “sujeito universal abstrato” não possa se sobrepor tão facilmente ao homem. Essa foi uma contribuição inicial muito importante em “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir, que este ano completa 60 anos de publicação. É um tempo histórico curto na filosofia para que já se tenha assimilado todos os problemas de sustentar a ligação entre o sujeito ontológico e o sujeito homem. Há 20 anos, a Butler de Problemas de Gênero retomou o debate de Beauvoir para propor que todo sujeito é marcado, não apenas pelo sexo e pelo gênero, mas também por intersecções que incluem raça, classe, religião, local de nascimento, lugar de moradia, idade, escolha de objeto sexual, coerência corporal, escolaridade etc. Partindo para a resposta da segunda pergunta, nesse contexto em que o sujeito universal abstrato ainda detém o privilégio de representar apenas o sujeito masculino, considero que a nossa tarefa, como mulheres na Filosofia, é ir além da denúncia do machismo, desse do dia a dia que, mesmo precisando ser confrontado, não nos fornece reconhecimento e legitimidade no campo. Acredito que temos uma tarefa filosófica de pensar origem e telos da misoginia estrutural sobre a qual se assenta a epistemologia.

Estou propondo pensar a misoginia estrutural como algo que vai além do machismo porque acredito que na misoginia haveria uma negação absoluta tanto do feminino quanto da mulher. Se o machismo se caracteriza pela inferiorização da mulher, na misoginia há ódio, aversão, horror. Se eu pensar que o horror à mulher é estrutural – assim como o racismo é estrutural – então posso pensar que a misoginia está presente em todo o aparato institucional, econômico e jurídico que ordena a vida social. Consigo inclusive pensar que há uma autorização, ainda que velada, para toda a violência contra tudo aquilo que carrega a marca do feminino. E aí sim, com Butler, pensar em “alianças contingentes” com outros grupos marcados por vulnerabilidade esubalternidade. Para nós, professoras, é uma oportunidade de exercitar essas “alianças contingentes” com as jovens negras, ingressantes nas universidades, muitas delas as primeiras mulheres da família a não seguir o roteiro de trabalhos domésticos. Também há uma chance grande de interlocução com professoras que, mesmo não sendo pesquisadoras do campo da filosofia feminista, sentem o cotidiano de discriminação e estão cada vez mais interessadas em conversar.

4. Se considerarmos a pluralidade em que as teorias feministas hoje se apresentam, quais seriam os pontos comuns entre elas? Ou a busca por uma unidade deveria ser ela própria questionada?

Há um risco enorme na afirmação que vou fazer, mas acredito que a unidade não é do interesse das teorias feministas, que se desenvolvem no campo da teoria crítica ou, para falar como Max Horkheimer, a partir de um diagnóstico do tempo presente, orientadas à emancipação, e capazes de perspectiva crítica. Acho um risco porque sabemos que o campo acadêmico é muitas vezes marcado por confrontos epistemológicos que tanto podem promover encontros como separar e afastar pesquisadores. Mas há uma especificidade nas teorias feministas que justifica o risco que estou correndo aqui: são inseparáveis da prática política cotidiana e, nisso, diferem muito de outras abordagens teóricas que podem existir apenas no terreno da abstração. Tenho defendido há muito tempo que é preciso afirmar a potência de um feminismo agonístico, para usar um termo da filósofa Chantal Mouffe.

Conflitos não precisam ser superados em nome da tolerância, podem ser mantidos em função do reconhecimento de que a potência do pensamento está na abertura para a pluralidade e não no silêncio forçado dos consensos. Aceitar que não há unidade é manter as questões em aberto, sujeitas a modificações, revisões, reinterpretações. A exigência de unificação pode nos levar para o mesmo modo de funcionamento da teoria tradicional. Prefiro pensar que podemos nos reconhecer como pessoas capazes de pensar, errar, acertar, agir e mudar. Em resumo, de nos manter em movimento, transformando a prática a partir da teoria e a teoria a partir da prática. Essa capacidade talvez seja o único ponto em comum nas diferentes teorias feministas a ser preservado.

5. Apesar das mulheres ainda encontrarem dificuldade para se fazer presentes e também permanecer atuando na filosofia, quais conquistas você destacaria no cenário filosófico do Brasil nos últimos anos?

A criação do GT Filosofia e Gênero na Associação Nacional de Pós- Graduação em Filosofia (Anpof), em 2016, por iniciativa da professora Susana de Castro Amaral Vieira. É a correção de uma defasagem histórica, sobretudo considerando que gênero é um tema multidisciplinar e transversal, e levando em conta o amplo desenvolvimento dos estudos de gênero em diversas outras áreas de pesquisa na academia no Brasil. É de 1967 a tese de doutorado de Heleieth Saffioti, defendida nas Ciências Sociais da Unesp sob orientação de Florestan Fernandes (A mulher na sociedade de classe: mito e realidade). Na Literatura, na Antropologia, na História, na Saúde Coletiva, na Educação e em diferentes campos de pesquisa, os estudos de gênero estão estabelecidos desde os anos 1980, quando ocorreu um maciço ingresso de mulheres nas universidades. Um exemplo da nossa defasagem temporal na Filosofia: em 1990, havia dois núcleos na Anpocs que estudavam temas ligados às mulheres, um voltado para a participação na política e outro para a inserção no mercado de trabalho. Os dois grupos se uniram para a criação do primeiro GT de Ciências Sociais e Gênero, intitulado “O caráter transversal do gênero nas ciências sociais” e então coordenado pela economista Lena Lavinas (UFRJ). Observo que gênero foi institucionalizado na Anpof num ambiente filosófico que há dez anos considerava Simone de Beauvoir “apenas” uma grande escritora francesa premiada. Outra iniciativa que merece destaque foi a pesquisa “Quantas filósofas?”, coordenada pela professora Carolina Araújo, instrumento fundamental para identificar os inúmeros gargalos no ingresso das mulheres na carreira filosófica. A entrevista da atual coordenadora do GT Filosofia e Gênero, professora Silvana de Souza Ramos (http://anpof.org/portal/index.php/en/2014-01-07-15-22-21/entrevistas/2011-entrevista-com-silvana-ramos-uma-mulher-que-entra-no-curso-de-filosofia-ja-transgrediu-uma-serie-de-interditos-sociais-e-culturais-da-sociedade-patriarcal?fbclid=IwAR1GJphB59SyIHCHNtQE5a5ajyKEl1dWbaRQjD7QcvRujbzrKumWU55_GpM), explica de maneira muito competente a importância dos dados obtidos no levantamento.

 

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