ENEM 2017: Questões sem respostas

Silvio Ricardo Gomes Carneiro           
Coordenador do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, Professor do curso de Filosofia da UFABC.
 

Em recente reportagem (1) sobre o Exame Nacional do Ensino Médio de 2017 (ENEM 2017), as questões de Filosofia foram consideradas como entre as que ofereceram maiores dificuldades entre os candidatos e as candidatas. Os professores entrevistados apontam o caráter “conteudista” das questões como um dos fatores para tal dificuldade. Significa dizer que era esperado que os candidatos e candidatas apresentassem alguma afinidade com o rol de tendências filosóficas apresentadas, sendo avaliado não o exercício reflexivo-filosófico, mas o reconhecimento de escolas de pensamento em suas características mais relevantes.

Compreendendo a influência de exames nacionais na composição dos currículos de nossas escolas, a inflexão “conteudista” das questões de Filosofia neste último ENEM permite-nos uma série de questões sobre modelos de avaliação da disciplina, como também o modo como a experiência filosófica é oferecida em nossas escolas. Ora, é pelo dito “sucesso de seus alunos nos vestibulares” que muitas escolas se apresentam como um bom negócio aos pais, os quais, por sua vez, anseiam justificadamente pelo bom encaminhamento de seus filhos e filhas. Nesse sentido, muitas vezes o processo de formação escolar é confundido com a boa preparação para testes. O impacto desse treinamento na educação é enorme e, no caso da Filosofia, precisamos avaliar o quanto é contrário às pretensões formativas previstas nos próprios documentos oficiais que sustentam a importância deste conteúdo no Ensino Médio. 

 

Primeiras questões: os autores escolhidos

Este ano, o ENEM seguiu de certo modo o padrão de questões das suas últimas edições, oferecendo 8 questões de Filosofia num corpo de 180 questões objetivas. Ocorreram alterações logísticas que precisam ser melhor apreciadas (a realização da prova em dois fins de semana, ao invés de um; a composição dos cadernos da prova de ciências humanas com linguagens e redação, e não mais com as ciências naturais – apresentadas agora no caderno de questões juntas ao conteúdo de matemática; a perda de seu caráter certificatório para o ensino médio, caracterizando cada vez mais o ENEM como mais um exame vestibular etc.). Estes são elementos importantes para entendermos o perfil de candidatos e candidatas do ENEM – índices ainda não divulgados pelo MEC – e o nível de dificuldades demandados.

No campo da Filosofia, propriamente, as 08 questões destacaram autores e suas ideias, em geral, ético-políticas – com exceção para duas questões de história da filosofia antiga: sobre o átomo em Demócrito e o método dialético socrático. No mais, as alternativas foram sobre o pensamento de Bentham, Habermas, Kant e Rawls, além de uma questão sobre o caráter ético-político do Iluminismo.      

Sobre o destaque aos temas ético-políticos, o ENEM 2017 não oferece muitas novidades. Conforme havia já indicado em outro artigo (publicado aqui) (2), que acompanhava tendências das edições do exame até 2015, cada vez mais os avaliadores seguem a preferência por esta temática. Segue ainda a tendência das edições anteriores em privilegiar o uso dos textos de filósofos nos enunciados de suas questões (ainda que adaptados). Das 8 questões deste ENEM: cinco questões partem de textos de comentadores ou historiadores da filosofia (compreendendo também aqui a questão de Demócrito, formulada a partir de um comentário de Hegel) e três questões são elaboradas a partir de citações adaptadas dos filósofos (Rawls, Kant e Aristóteles).

Desde aqui, apontamos já uma primeira questão: não haveria certa inflexão ideológica na escolha dos autores neste ENEM? Ora, certamente nenhum filósofo é menor em interesse. Todavia, comparando a última edição do ENEM com as anteriores, o rol de autores anteriormente indicados era mais sortido. Em geral, a avaliação era mais cuidadosa na distribuição das correntes filosóficas, sustentando maior abertura para a diversidade de pensamentos, permitindo aos candidatos e às candidatas uma experiência mais heterogênea de pensamento que não ficasse reduzida ao imaginário liberal, conforme podemos pensar na reunião de autores elencados na edição de 2017. Além disso, apesar das tendências ético-políticas, as edições anteriores do ENEM ampliavam a experiência filosófica – de maneira condizente com o currículo oferecido nas escolas – equilibrando as questões com temas epistemológicos, metafísicos ou estéticos, bem como atendendo a uma visão mais ampla da história da filosofia.

Assim, podemos dizer que a falta de heterogeneidade das questões oferecidas no ENEM 2017 pode ser um dos fatores da “dificuldade” enunciada na reportagem. Afinal, o exame – em grande medida – reduz a experiência filosófica a uma corrente de pensamento – importantes para filosofia, claro – deixando de explorar um maior repertório dos alunos, ato facilmente realizado com uma melhor distribuição de correntes filosóficas entre as questões. Eis uma questão que ficou no ar: O ENEM não estaria privilegiando uma corrente ideológica e, assim, caindo num dos grandes riscos do ensino de Filosofia, que é reduzir as aulas em plataformas doutrinárias? Não haveria um filtro ideológico na escolha de seus temas? São questões importantes para evitarmos equívocos avaliativos.


Segunda questão: A forma das alternativas

Uma segunda questão possível é saber até que ponto a experiência filosófica dos candidatos e das candidatas pode ser avaliada por um modelo de prova objetiva com questões de múltiplas escolhas. Embora haja o que se pensar sobre isso, não se trata de descartar modelos avaliativos possíveis. Conforme o próprio histórico de edições do ENEM, há diversas formas de se estruturar questões de múltiplas escolhas, muitas delas conseguindo escapar da restrita resposta – extremamente antifilosófica – que pende entre o “certo x errado”, o “verdadeiro x falso”. Infelizmente, a edição do ENEM 2017 acaba por repetir modelos fracos de questões objetivas, com enunciados ora facilitados pela identificação de termos enunciados, ora apresentados sem o menor contexto – fatores que reforçam o caráter “conteudista” sugerido pelos professores entrevistados na reportagem inicialmente mencionada.

Basicamente, o modelo adotado em 2017 seguia um roteiro divido em três etapas:

1º) Texto de um autor, comentador ou historiador da filosofia)

2º) Enunciado da questão (em geral, uma frase direta que aponta para as alternativas)

3º) 5 alternativas (de “a” a “e”)

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A moralidade, Bentham exortava, não é uma questão de agradar a Deus, muito menos de fidelidade a regras abstratas. A moralidade é a tentativa de criar a maior quantidade de felicidade possível neste mundo. Ao decidir o que fazer, deveríamos, portanto, perguntar qual curso de conduta promoveria a maior quantidade de felicidade para todos aqueles que serão afetados.

RACHELS, J. Os elementos da filosofia moral, Barueri-SP, Manole, 2006.

Os parâmetros da ação indicados no texto estão em conformidade com uma:

a)  fundamentação científica de viés positivista

b) convenção social de orientação normativa

c)  transgressão comportamental religiosa

d) racionalidade de caráter pragmático

e)  inclinação de natureza passional

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Como no exemplo abaixo:

A partir dos estudos de Ester de Macedo (Filosofia no ENEM: um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia ao longo das edições do ENEM entre 1998 e 2011, publicado aqui) (3), notamos que este formato – repetido nas demais questões de Filosofia – oferece alguns elementos que reforçam o caráter “conteudista”.

Em primeiro lugar, as próprias alternativas são enunciadas de maneira descontextualizada. O anúncio das alternativas é mera passagem entre o texto do autor e as respostas. Isso retira um pouco do tratamento que possibilita ao candidato e à candidata remeter ao seu repertório de saberes, reforçando o mero treino instrumental que apenas torna o texto uma plataforma funcional para o encontro da resposta correta.  Retira, pois, o caráter reflexivo das questões, tornando mero encontro das chaves para identificar escolas de pensamento. Trata-se de um reforço enciclopédico, avesso aos bons exercícios de leitura, arguição e escrita praticados nas salas de aula de Filosofia, conforme encontramos em inúmeros relatos de experiência.

Em segundo lugar, o que reforça o caráter funcional anteriormente explicitado está na própria formulação das alternativas, com muitos “distratores implausíveis”. No exemplo, bastava o aluno ler com atenção o enunciado para descartar algumas alternativas. Na leitura da primeira frase, já estavam de fora as alternativas “a”, “b” e “c”. Segundo Macedo, esta forma de enunciados e alternativas enfraquece a questão e, complemento, retira a experiência filosófica possível – ainda que nos restritos limites do formato objetivo das questões.

Ora, existem diversos modelos de questões alternativas que esta última edição do ENEM deixou de lado, reproduzindo um único padrão de pensamento, marcado em geral pela identificação no enunciado dos termos aproximados das alternativas. Seria essa a experiência filosófica que deveríamos privilegiar em exames como o ENEM? Em que medida este tipo de teste reflete a experiência da sala de aula e a própria vivência da Filosofia no Ensino Médio? Não podemos ir além?


Uma última questão

Resta ainda um esforço para pensarmos a experiência filosófica em exames dessa proporção. Haveria que se questionar se esta política de avaliação seria a melhor maneira de avaliarmos o desempenho dos três anos correntes de estudantes do ensino médio. Mas, deixemos esta especulação para contextos históricos mais abertos para o diálogo. Dado o que nos é oferecido como possibilidade avaliativa é o modelo proposto pelo ENEM, podemos restringir a experiência filosófica dos alunos e das alunas de nosso ensino médio às questões objetivas? Certamente, não.

O lugar das questões objetivas da Filosofia apenas sugere a “ponta do iceberg” em comparação com as experiências relatadas das aulas de Filosofia em nossas escolas. O exercício argumentativo, as interpretações filosóficas de textos não filosóficos ou mesmo a atividade da escrita são pressupostos básicos para o ensino da disciplina no ensino médio. Há, pois, um fundo que precisamos avaliar e que não está apenas na identificação das questões filosóficas; um fundo difícil que, em grande medida, se reflete nas redações apresentadas – momento privilegiado que envolve a amplitude do repertório alcançado em nosso ensino médio, e por isso seu peso para avaliar o desempenho das candidatas e dos candidatos. É um momento em que a ordem do pensamento é ativada e, nisso, a Filosofia certamente exerce influência.

Ainda não avançamos para uma pesquisa a respeito de tal articulação da Filosofia em momentos dissertativos. Talvez, inclusive, aqui estaria o momento mais próximo das atividades filosóficas que encontramos em sala de aula. Há diversas formas para se pensar isso. A FUVEST este ano privilegiou a Filosofia (em tempos conturbados de Reforma do Ensino Médio) desafiando seus candidatos e candidatas a pensarem sobre a “maioridade” kantiana. O ENEM segue seu padrão de suas edições com questões de cidadania, propondo o tema da educação para deficientes auditivos – tema importante para pensarmos o significado de um ensino inclusivo, ainda tão precário em nossas escolas.

A questão que fica, no entanto, vai um pouco além: a interferência judiciária nos processos avaliativos do exame, contrariando uma regra de outras edições que anula o ponto da redação aos alunos que desrespeitem os direitos humanos em suas redações. Tudo isso a pedido de uma parcela da sociedade que nada compreende sobre direitos e, atrevo-me, humanidade. Quando o judiciário abre mão desse critério em nossos exames, no fundo está permitindo a abertura de nossas universidades para uma aparente “liberdade de expressão”. Aparente, porque é a liberdade da força que silencia o que lhe é diferente e impede aquilo que Hannah Arendt define dos direitos humanos, que é o “direito a ter direitos”. É infeliz a decisão do judiciário em privilegiar a força ao invés da lei. Falta, ao menos, uma reflexão filosófica a respeito disso.

Todo esse barulho apenas serve para vermos o quanto nossa sociedade ainda está em déficit com a experiência filosófica. De nada adianta, portanto, o excelente desempenho em português e matemática, quando o cálculo e a linguagem prevalecentes pertencem à gramática da barbárie. Falta humanidade na experiência social; humanidade que é o conteúdo privilegiado da experiência filosófica.


[1] https://educacao.uol.com.br/noticias/2017/11/05/mais-conteudista-prova-de-filosofia-foi-a-maior-dificuldade-do-1-dia-de-enem-dizem-professores.htm

2 http://revistas.ufpr.br/nesef/article/view/54802

3 http://www.publicacoes.inep.gov.br/portal/download/1321

 

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