Nota de repúdio Departamento de Filosofia – UnB

O Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UnB dirige-se à comunidade acadêmica e ao público em geral para repudiar, de forma veemente, tal como já o fizeram inúmeras sociedades científicas e departamentos, incluindo aqui a ANPOF (Associação Nacional de Pós- Graduação em Filosofia) e a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), as recentes declarações do Sr. Presidente da República e do Sr. Ministro da Educação sobre a “descentralização de investimentos em faculdades de Filosofia e Sociologia (humanas)” com o pretexto de “focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia, enfermagem e medicina”. Também queremos repudiar aqui, de igual forma, o corte de recursos do MEC para as universidades públicas em 30% e a falácia de que o ensino básico será privilegiado em detrimento das verbas destinadas às universidades.

Nosso Programa é formado por um corpo docente de professores doutores e doutoras, altamente produtivos e respeitados ativos na comunidade filosófica brasileira e internacional. Oferecemos, em nosso Departamento de Filosofia, dois cursos de graduação em caráter presencial (diurno e noturno), um curso de mestrado e um curso de doutorado, todos muito bem avaliados em rankings nacionais e internacionais.

Avaliamos que as declarações das autoridades citadas ignoram – por desinformação ou má fé- todas as contribuições, diretas e indiretas, da Filosofia em geral e de nosso Departamento em particular, para a sociedade brasileira como um todo. Naquilo que tange à desinformação, esclarecemos que:

1) As discussões filosóficas possuem estreita relação com várias outras áreas do conhecimento e suas inúmeras interfaces. Mencionamos aqui, a título de exemplo, uma contribuição da área de Filosofia da Ciência: do circuito integrado aos telescópios espaciais, da engenharia genética à engenharia nuclear, temos hoje exemplos claros da aplicação de teorias científicas, herdeiras, em grande parte, da Revolução Científica do século XVII. Esta revolução, como é bem documentada por Pierre Duhem, A. C. Crombie e Marshall Clagett, entre outros, é tributária, sobretudo, da crítica e dos estudos da Física de Aristóteles, realizados durante vários séculos. Não se pode conceber os trabalhos de Galileu Galilei, René Descartes, Isaac Newton, e mesmo Nicolau Copérnico, sem essas importantes contribuições filosóficas que os antecederam. Mas, ainda hoje, o lugar e a importância da ciência em geral e das teorias científicas, em particular, fazem parte das análises filosóficas feitas nos mais importantes Departamentos e Faculdades de Filosofia de todo o mundo.  Além disso, a última revolução tecnológica que mudou a economia do planeta não teria sido possível sem algumas contribuições de filósofos e lógicos, como a definição da verdade de Alfred Tarski, que foi usada no desenvolvimento da informática, ou a teoria das funções recursivas de Alonzo Church. A Filosofia da linguagem, em particular a teoria dos atos de fala, está contribuindo imensamente para o desenvolvimento da interatividade homem-máquina. Filósofos cooperam com físicos, matemáticos, biólogos, psicólogos, o tempo todo. Empobrecer a filosofia é empobrecer todas as ciências.

2) A Filosofia trabalha com definições de conceitos, avalia argumentos. Portanto, está inserida no cerne das melhores práticas científicas e, para quem tenha interesse investigativo, pode-se perceber que, em toda a história da ciência e do pensamento, a Filosofia é considerada o princípio do conhecimento e, portanto, como a árvore principal de onde partem todos os demais ramos. Desse modo, não se pode conceber a ideia de universidade sem a Filosofia e Ciências Humanas em geral.

3) Os aspectos éticos, morais e religiosos de todas as sociedades sempre estiveram presentes na reflexão filosófica que, de forma bastante diversificada e plural, contemplou todas essas facetas. Desde os dias de Platão e Aristóteles, estimulam-se não apenas os estudos da ética e das virtudes, mas a sua efetiva prática, bem com a participação efetiva na vida e nos destinos políticos da sociedade em que estamos inseridos. Assim, a Filosofia apresenta notória contribuição no campo dos valores éticos e morais. Sua contribuição é essencial numa educação que visa o pleno desenvolvimento humano, o “human flourishing” para usar a linda expressão inglesa. A contemplação de objetos como a natureza, a história, o tempo, a linguagem, a sociedade, etc., obriga a sair do círculo estreito dos afazeres cotidianos de uma vida marcada pelo preconceito. Em comparação, a vida de quem foi tocado pela filosofia e as humanidades é calma e livre. O questionamento filosófico amplia nossa visão do que é possível, enriquece nossa imaginação intelectual, e nos afasta de qualquer forma de segurança dogmática.

4) A Filosofia sempre lutou, desde os seus primórdios, contra meras opiniões e tentou alicerçar suas posições em análises acuradas, em investigações aprofundadas e buscou, desafiando conceitos aparentemente claros e evidentes, problemas e respostas mais efetivas do que aquelas que se pode costumeiramente aceitar. Por isso, a Filosofia se desenvolve como crítica e como esclarecimento. Julgamos que, em tempos de notícias falsas - e replicadas aos milhares, tal atividade é fundamental para a construção da cidadania brasileira e de uma educação digna de tal nome.

Queremos esclarecer ainda que a maior parte de nossos alunos é egressa de escolas públicas e vários deles são moradores de zonas periféricas tanto do Distrito Federal como do Entorno de Brasília. Assim repudiamos com energia a afirmativa de que o curso de Filosofia seria destinado a pessoas privilegiadas e que essas deveriam arcar com as despesas do seu próprio curso como se esse fosse uma espécie de luxo ou privilégio. Asseveramos também que muitos dos nossos egressos desenvolvem atividades no Ensino médio e fundamental ou são quadros destacados do funcionalismo público, desse modo, dando retorno ao poder público por todo o apoio neles depositado com o gasto integral de sua formação, incluindo aqui as bolsas de apoio e de pesquisa fornecida por órgãos como CNPq, Capes e FAP-DF, além da própria UnB.

Nosso Programa sempre se mostrou disponível e aberto para todos aqueles que desejam conhecer nossas atividades e delas tomar parte. Em nossos diversos grupos de pesquisa, a participação é aberta à comunidade em geral, inclusive a alunos do Ensino Médio da rede pública e privada do Distrito Federal. O site do Departamento de Filosofia ( http://www.fil.unb.br/ ) e a página do Programa de Pós-Graduação em Filosofia ( http://www.posfil.unb.br/ ) são frequentemente atualizadas e ali se encontram todas as informações para quem as desejar.

Nesse espírito, convidamos - todos os interessados na Filosofia, ou todos os que valorizem o conhecimento – para que afirmem a importância do conhecimento filosófico e científico produzido na universidade pública.

Nesse contexto, parece-nos falacioso e com total ausência de dados factuais, a justificativa do corte de recursos do MEC para as universidades públicas em 30%. Inicialmente tal corte estava previsto para atingir a UnB, a UFF e UFBA. Tais universidades foram tomadas –de forma discriminatória- como “opositoras do atual governo” e contra elas o Sr. Ministro da Educação afirmou- sem base alguma- que não possuíam pesquisa de qualidade, o que é desmentido inclusive por índices oficiais. Consideramos deplorável que um ministro de Estado tenha atitudes de um semeador de notícias falsas da Internet e tenha tão pouco respeito por reitores e pela comunidade científica ao se dirigir a eles, no dia seguinte a tais declarações infelizes, em tom depreciativo e policialesco. A justificativa para cortes substanciais nas universidades, que poderão inviabilizar as suas atividades em pouco tempo, não passa de uma falsa dicotomia entre ensino superior e básico e nada explica claramente à sociedade brasileira. Aparenta ter por objetivo apenas colocar, de forma populista e grosseira, o público em geral contra a atividade acadêmica, como se essa lhe fosse totalmente alheia, o que não é verdade. No nosso entender, tais afirmativas estão absolutamente equivocadas e devem ser repudiadas por todos nós da comunidade acadêmica, mas também por todos os cidadãos brasileiros.

Brasília, 08 de maio de 2019

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