Levantamento feito pela Anpof indica baixa presença de ensino de Marx nas pós-graduações em Filosofia no Brasil

A Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia no Brasil reúne 47 programas em todas as regiões do país. Estes programas oferecem mestrado e/ou doutorado. De acordo com levantamento feito pela instituição, neste semestre apenas 2,3% das disciplinas oferecidas pelos programas são sobre Marx. Expandindo a pesquisa para as referências bibliográficas esse número sobe para 3,5%. De 46 programas de pós-graduação em Filosofia no país consultados pela Anpof, 34, neste semestre, sequer tem Marx nas referências bibliográficas.

De acordo com o levantamento da instituição, há uma pluralidade de temas e filósofos diluída nas disciplinas sendo oferecidas neste semestre, o que acontece há muitos anos. As disciplinas nas quais o pensador alemão aparece compõem as áreas de Filosofia Política e Ética. Esta área, contudo, não é a única nos programas de pós-graduação. Dividem espaço nas grades e linhas de pesquisa Lógica, Metafísica, Filosofia da Ciência e Estética, por exemplo. Mesmo na área de Filosofia Política e Ética, Marx aparece muito menos, que Kant, Hegel, Platão, Aristóteles, Heidegger, Nietzsche ou Foucault.

Os números deste levantamento já estavam refletidos nas produções apresentadas durante o último encontro da Associação, em outubro do ano passado, em Vitória (ES). Foram apresentados mais de 2,2 mil pesquisas em 69 distintos grupos de trabalho e 27 sessões temáticas. Entre estes, apenas dois são sobre Marx.
 
Este levantamento, para o presidente da Anpof, Adriano Correia, revela que o combate ao chamado “marxismo cultural” não passa de uma caça a fantasmas. Segundo o presidente, a universidade pública está sob ataque e a Filosofia, em especial, por pessoas que desconhecem completamente a realidade do ensino superior. “Na base deste ataque há uma hipótese de que a universidade é orientada por posições “esquerdistas”. Isso revela um patente absurdo porque isso tudo não é verdadeiro, nem se considerarmos o campo das humanidades, quanto menos se considerarmos todos as outras áreas. O que verificamos é que não há qualquer conexão entre o que se produz nessas áreas e doutrinação ideológica”, comenta o presidente.

Para Correia, os atuais mandatários não têm projeto para os centros de produção de ciência do país e o único projeto é colocar as universidades públicas sob ataque. “Como podemos observar, até com certo constrangimento, autores como Marx são estudados em proporção muito menor do que a relevância que têm na história do pensamento, independentemente do posicionamento de quem o estude. Essas pessoas que se autodenominam filósofos ignoram que muitas pessoas podem estudar Marx sem ser marxistas, Adam Smith, sem ser liberais. O estudo universitário não pressupõe que seu objeto seja algo a que você está aderido ideologicamente”, argumenta.
 
O presidente da Anpof, que é professor da Universidade Federal de Goiás, compartilha uma experiência vivida ano passado. Após quase 20 anos de docência universitária, jamais havia ministrado uma disciplina sobre Marx. Pela primeira vez, ofereceu essa disciplina, em parceria com uma orientanda de pós-doutorado. “A disciplina, que foi uma das primeiras sobre Marx em nossa faculdade, tinha um tom marcadamente crítico, respeitoso e plural. Ela considerava as críticas contemporâneas a Marx”, comenta. “Ainda que possa haver localmente preferências de estudos, nós testemunhamos uma pluralidade extraordinária em nossa área. Autores apropriados por discursos extremistas e dogmáticos são estudados com profundidade em nossa área. Alguns deles, muito mais do que autores como Marx”, testemunha Correia.

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