Psicanálise e as formas do político
Universidade de São Paulo - Universidade Federal de Minas Gerais - Centro de Arte Contemporânea Inhotim
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A política não precisa ser pensada apenas como reflexão estruturada sobre as formas das identidades coletivas em sua pretensa autonomia. Se a psicanálise tem consequência para o pensamento político é por ela trazer uma concepção nova de conflito, de diferença e de singularidade com implicações sobre a economia de relações entre sujeito e sociedade. Pois desde seu início, a psicanálise nunca se contentou em ser apenas uma clínica do sofrimento psíquico. Já a teoria social freudiana trazia elementos ainda não inteiramente explicitados quanto á economia libidinal da experiência política das sociedades modernas. Seja através da procura em revelar a dinâmica pulsional do poder, a natureza das identificações que nos vinculam à autoridade, a fonte política do vínculo transferencial, as fantasias que garantem a coesão social e o mal-estar que nasce como saldo do processo civilizatório, a psicanálise freudiana deixava claro como só seria possível pensar o sujeito lançando luzes na dimensão social de seu sofrimento e de suas expectativas de criação social.

Este caminho aberto por Freud será uma constante na experiência filosófica a partir de então. As reflexões da Escola de Frankfurt a respeito da estrutura pulsional da regressão política, as discussões de Deleuze e Guattari sobre as relações entre desejo e capitalismo, de Lyotard sobre a economia libidinal e mesmo a sensibilidade de Michel Foucault aos dispositivos disciplinares de nossa época e à consolidação da biopolítica neoliberal são incompreensíveis sem recuperarmos o campo aberto pela reflexão freudiana, por mais que vários de tais autores tenham uma relação tensa, porém decisiva, com a psicanálise.

 

1. Políticas da psicanálise

Neste sentido, um colóquio que se propõe a discutir “A psicanálise e as formas do político” nos leva, ao menos tempo, a uma tematização do caráter interno das políticas da psicanálise, a uma recuperação da atualidade de questões relativa às dinâmicas do poder abordadas pela produção psicanalítica e a uma reflexão aberta por setores da filosofia política contemporânea a partir do impacto de problemáticas psicanalíticas ( presente nos trabalhos de: Laclau, Judith Butler, Zizek, Badiou, Lefort, Deleuze, Foucault, Lyotard, Derrida, Adorno, Marcuse, Honneth, entre tantos outros).

Tal amplitude nos obriga, inicialmente, a integrar à "psicanalítica do poder" estudos arqueológicos e críticos sobre suas instituições, discursos e ideologias. Suas interfaces e incidências sobre a diversidade dos campos, experiências e dispositivos da cultura e sociais ainda estão por se delinear à luz da crítica filosófica. Pois aos efeitos e desafios do discurso analítico no âmbito de diferentes modalidades de expressão do político na contemporaneidade não foram conjugados, até o momento, as exigências teóricas, a experiência clínica e a história institucional da psicanálise.

Por outro lado, ela nos faz retomarmos o sentido de vários momentos nos quais a produção psicanalítica se deparou com a política. Especial importância deve ser dada à construção freudiana da categoria de mal-estar e suas incidências na reflexão sobre a crítica social, assim como sua relevância para a construção de sensibilidades para a especificidade das formas de sofrimento no século XX. Vale ainda lembrar como a perspectiva aberta pela psicanálise nunca foi apenas crítica e profilática. Em vários momentos, ela deu ensejo a uma reflexão sobre as potencialidades de pensarmos formas renovadas do político e de seus vínculos. As reflexões sobre grupos em Lacan e Bion, o problema de uma identidade coletiva sem estado em Freud, a política sexual de Reich são apenas alguns momentos desta capacidade da psicanálise em demorar-se diante do problema da forma das relações que compõem o político.

Por fim, talvez estejamos atualmente em um momento no qual dimensões da crítica social filosoficamente orientada podem ser abordadas em seu diálogo tenso com a psicanálise. Desde os anos cinquenta, a filosofia social se depara com a reflexão sobre a natureza do capitalismo e de seus regimes de racionalidades. Em vários destes momentos nos quais crítica da razão e crítica social se articularam, a psicanálise fora convocada, seja para impulsionar a crítica, seja para ser vista como mais uma forma disciplinar de perpetuação das formas de vida hegemônicas no capitalismo. Isto sempre produziu um diálogo difícil entre psicanálise e filosofia social que, agora, pode ser retomado em outro patamar. 

 

Política e estética

Gostaríamos ainda de explorar uma outra dimensão das elaborações psicanalíticas. Pois a reflexão sobre a forma é, muitas vezes, um ponto no qual política e arte se associam. A invenção estética, como ideia e como experiência, conecta-se vivamente com o âmbito do político, seja para celebrar-lhe as conquistas, seja para criticar suas tendências, efeitos e configurações. A forma estética e a forma política não são indiferentes uma a outra mas tem uma peculiar capacidade indutora, da mesma maneira que desejo e linguagem, transformações do desejo e transformações da linguagem nunca foram nem poderão ser indiferentes. Assim, uma reflexão sobre a psicanálise e as formas do político não pode deixar de se debruçar sobre a força política dos textos psicanalíticos sobre a produção estética.

 

Singularidade e diferença

Sendo assim, o objetivo deste encontro é discutir a atualidade da psicanálise para uma discussão sobre as formas do político, atentando para o que ela pode inserir de singular do seio das organizações coletivas. A consideração da invenção estética será o meio através do qual tentaremos mostrar como a psicanálise inclui, de maneira eficaz, a singularidade no centro do pensamento político.

 

Tópicos a serem abordados em comunicações:

-       Os textos sociológicos de Freud e sua atualidade

-       Os mitos psicanalíticos sobre a antropogênese

-       Modernidade e poder teológico-político

-   Identidades coletivas como problema. Os processos histórico, jurídico e social de reconhecimento e emancipação de novas configurações identitárias: sexualidades, transnacionalidades, multi-parentalidades

-       A psicologia das massas e a hipótese populista

-       Normatividade social e mal-estar

-       O recrudescimento das práticas biopolíticas e o imperialismo da avaliação protocolar no âmbito das políticas de saúde mental;

-    O capitalismo e seus descontentes. Os efeitos normativos do discurso da ciência e o segregacionismo decorrente de sua aliança com o discurso do capitalismo;

-       Neoliberalismo e suas estruturas disciplinares e de controle. A invenção do sujeito neoliberal e sua economia psíquica. A nova economia neoliberal do sofrimento.

-       Psicanálise e a natureza fantasmática da autoridade

-       O corpo político e seus fantasmas

-       O real e a revolução

-       Crítica do capitalismo e libido

-       Dinâmicas pulsionais da sujeição

-       Sujeitos políticos e acontecimento

              -       Linguagem e política

              -       O lugar e os efeitos do discurso analítico nas políticas públicas


23 Nov 2015 > Ocorrido há 1795 dias
27 Nov 2015
15 Set 2015
Universidade de São Paulo - Universidade Federal de Minas Gerais - Centro de Arte Contemporânea Inhotim
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