8º Encontro de Estudos das Origens da Filosofia Contemporânea
PUC/ SP

A filosofia contemporânea tem-se caracterizada pelo cisma entre “analíticos” e “continentais”. As últimas décadas mostraram, contudo, sinais de uma aproximação entre estas tradições. Tal situação tem motivado um crescente interesse pelo estudo do pensamento da segunda metade do século XIX e início do XX. O resultado de tais esforços tem sido a delimitação de uma esfera de pesquisa que, sob o título “Origens da filosofia contemporânea”, começa a reescrever um importante capítulo da história da filosofia recente, caído no esquecimento em consequência do cisma mencionado.

Identificar o nascimento da filosofia contemporânea implica rever criticamente ideias largamente difundidas com respeito aos inícios da filosofia analítica e da fenomenologia. Em ambos os casos, a historiografia rigorosa tem sido substituída por verdadeiros “mitos de criação” que, embora relevantes para determinar a auto-identidade que cada uma das correntes se atribui, ignoram uma teia de complexas inter-relações sistemáticas e históricas. A filosofia analítica teria surgido na Inglaterra, como uma reação ao idealismo hegeliano em sua versão britânica pelas mãos de Russell e Moore, ao incorporarem à sua reflexão os avanços lógicos realizados por Frege. Analogamente, a fenomenologia seria uma criação extemporânea de Husserl, motivada pelas reflexões brentanianas sobre intencionalidade e pela crítica de Frege ao psicologismo de sua primeira obra sobre os fundamentos da aritmética.

Ambos os mitos escamoteiam os verdadeiros motivos e autores envolvidos em um processo que não foi obra de indivíduos isolados, mas o trabalho de inúmeros pensadores desde o começo do século XIX. Hoje já não se pode mais ignorar a variedade de temáticas e problemas implicados na gestação das duas correntes e apresentar numa narrativa linear uma história complexa, pluridimensional e ainda não suficientemente conhecida. Embora desde os anos 50 do século XX vários autores tenham buscado resgatar as afinidades existentes entre as motivações de Frege e as de Husserl, o trabalho de compreender como tais motivações levaram à construção daquilo que é a filosofia contemporânea, ainda está na ordem do dia. 

A revisão das versões simplificadoras aludidas exige uma releitura da filosofia do século XIX como um todo, ao propor, contra uma visão romântica ainda imperante, uma história da filosofia que seja, ao mesmo tempo, propriamente historiográfica e propriamente filosófica. A visão romântica interpreta a filosofia do século XIX como uma superação heróica dos impasses do Iluminismo depois de Kant, feita a través de alguns nomes isolados como Nietzsche, Marx ou Kierkegaard. Porém, ela é equivocada como história e como filosofia, ou, simplesmente, como história da filosofia, pois ignora a produção filosófica acadêmica do período. Os problemas fundamentais permanecem nesse modelo em última instância não respondidos: quando surge e o que caracteriza a filosofia contemporânea? Ou, ainda, quando e por que “terminam” as filosofias propriamente modernas?

O trabalho do grupo procura contribuir para reescrever corretamente a história do período. Tal reescrita acarreta, primeiramente, uma mudança do cânone filosófico, com a incorporação de inúmeros autores que ainda não receberam a devida atenção, seja como pensadores originais, seja como elos essenciais em uma transição que se faz, como toda mudança filosófica, em uma dialética sutil entre tradição e ruptura. Autores como Stuart Mill, Bolzano, Herbart, Trendelenburg, Lotze, Brentano, Marty, Stumpf, Fischer, Dilthey, Schleiermacher, Cohen, Natorp, Windelband e Rickert, entre vários outros, ainda devem ser incorporados corretamente na evolução do pensamento e inter-relacionados entre si. Fomenta, ainda, uma mudança na periodização e classificação dos vários autores e correntes filosóficas. Por último, mas em absoluto menos importante, implica em uma mudança de ênfase e de problemas na compreensão deste período da filosofia, que passa pela identificação e reinterpretação de temas de epistemologia, lógica, filosofia da linguagem e metafísica, que permitem compreender a pluralidade inerente ao nascimento da filosofia contemporânea. O eixo eminentemente temático de pesquisa explica a sua aparente dispersão através de numerosos autores. As questões levantadas nos mesmos, não obstante, são recorrentes (reino de objetividade não real, anti-psicologismo, representações sem objeto – termos sem referencia, etc.). Ponto de partida e, portanto, pressuposto, o constitui a filosofia transcendental. Em suma, filosofia analítica e fenomenologia hermenêutica surgem de um movimento unitário de ideais que tem suas raízes na filosofia de língua alemã pós Hegel e que deve ser delineado em seu perfil próprio além das já estabelecidas e bem estudadas reações anti-racionalistas, positivistas e hegeliana de esquerda e direita.

O objetivo do grupo é, portanto, o de estabelecer as inter-relações entre filosofia analítica e fenomenológico-hermenêutica no processo de sua formação sobre a perspectiva do estabelecimento das suas raízes comuns, assim como do momento de seu isolamento recíproco. A hipótese de trabalho é que filosofia analítica e fenomenológico-hermenêutica representam, do ponto de vista da historia da filosofia, e não obstante todas as suas inegáveis diferenças, um comum “turn” que pode ser caraterizado como o deslocamento do conceito de validade (Geltung) para o conceito de sentido ou significação (Sinn, Bedeutung). A tese da existência de uma virada sistemática da mesma natureza implica e se funda na tese, puramente histórico-filosófica, de uma origem comum cujo processo remete à quarta linha de desenvolvimento pós-Hegel já mencionada. É a partir da dupla constatação efetuada que se deve compreender o processo de isolamento das tradições no século XX, assim como o eventual destino da mesma, do qual, em definitivo, depende o destino da própria filosofia como um todo. 


06 Nov 2017 > Ocorrido há 399 dias
06 Nov 2017 - 10 Nov 2017
15 Jul 2017

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