Qual o sentido de ensinar em tempos de coronavírus?

Felipe Pinto (PPFEN-CEFET/RJ) e Marcelo Guimarães (Unirio, PPFEN-CEFET/RJ)

 

Nas comunidades de professores avoluma-se o debate sobre as medidas adotadas por instituições de ensino com a finalidade de salvaguardar a continuidade de seus cursos. Há escolas e redes de ensino privadas que, já no início da primeira semana de quarentena, iniciaram o uso de estratégias de ensino a distância (EaD), convocando professores para reuniões presenciais e mobilizando processos de capacitação, produção de material, compartilhamento desse material com turmas virtuais e aulas on-line. Há demandas de produção de videoaulas às pressas e sem condições técnicas, expondo a imagem e o discurso do professor, que pode circular na rede para além do ambiente didático para o qual foi destinado. O docente é coagido a assumir figuras como a de youtuber ou podcaster.

A respeito da crise, o Ministério da Educação se limitou a duas ações. A primeira, convocando alunos de cursos de graduação da área da saúde a voltarem às aulas e a atuarem como voluntários junto ao SUS. No dia 17 de março, publicou portaria que “dispõe sobre a substituição das aulas presenciais por aulas em meios digitais enquanto durar a situação de pandemia” (Portaria MEC n° 343/20). O documento, no entanto, apenas autoriza a tal substituição, delegando a responsabilidade às instituições interessadas em lançar mão desse dispositivo e autorizando também às instituições não interessadas que não o façam. Ademais, ao se dirigir às “instituições de educação superior da rede federal”, o documento só aumenta as incertezas para as instituições da rede federal que envolvem significativamente os dois níveis, educação básica e ensino superior, e que são uma grande da rede, considerando os IFs, CEFETs e o Colégio Pedro II.

A rede municipal de ensino do Rio de Janeiro informou aos responsáveis que viria a encaminhar atividades escolares por meio do aplicativo Whatsapp para que os estudantes mantivessem uma rotina de estudos. No dia 19 de março, o Governo do Estado do Rio de Janeiro decretou novas medidas de enfrentamento ao coronavírus/covid- 19 entre as quais figura novamente a suspensão de aulas, agora explicitando que tal suspensão ocorrerá

“sem prejuízo da manutenção do calendário recomendado pelo Ministério da Educação, nas unidades da rede pública e privada de ensino, inclusive nas unidades de ensino superior, sendo certo, que o Secretário de Estado de Educação e o Secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação deverão expedir em 48 (quarenta e oito horas) ato infralegal para regulamentar as medidas de que tratam o presente Decreto, bem como, adotarmedidas para possibilitar o ensino a distância”.

O Colégio Pedro II manifestou-se publicamente por meio de nota rejeitando que as “ações de ensino a distância” sejam consideradas “aulas ou conteúdos ministrados”, tampouco sejam “contabilizadas como carga horária e dias letivos efetivados”. Em tom semelhante se posicionou a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, destacando a falta de acesso a conteúdos ministrados na modalidade a distância e o necessário, porém impossível de ser realizado em meio à pandemia, planejamento para operacionalização dos meios digitais.

A questão é complexa e envolve fatores de naturezas muito distintas de acordo com cada região, instituição e sua comunidade, além de situar-se em um mar de incertezas a respeito de como a crise se desenvolverá e por quais transformações passaremos por conta dela. O desarranjo instaurado não parece compatível com tentativas simplistas de dar continuidade aos cursos, como se fosse possível apenas substituir as aulas presenciais pelo ensino à distância, como se o isolamento domiciliar, o convívio em clausura, a preocupação com a saúde dos amigos e familiares, bem como se os atrativos insistentes da indústria cultural não fizessem emergir outras formas de atenção e relação consigo mesmo e com o mundo, em suma, novas formas de subjetividade. Afinal, que corpos serão esses que sairão da quarentena? Quem seremos nós?

Questões relativas a calendário escolar e de exames terão que ser enfrentadas considerando a complexidade da situação (que nem mesmo sabemos qual será) que engloba o financiamento público, os trabalhadores, os calendários de cursos de diferentes níveis e diferentes redes, múltiplos processos de ensino e aprendizagem, características curriculares e disciplinares, mas, sobretudo, a preservação e reconstituição da saúde dos estudantes e trabalhadores da educação.

Iniciamos a quarentena em um contexto que já era marcado, no Ministério da Educação, pela falta de planejamento, pelos bate-bocas em redes sociais, pelas ameaças a professores e pela precarização da educação pública. Agora, na primeira semana da quarentena, surgem a cada dia novos decretos e portarias das diferentes esferas de governo e de gestão institucional, reiniciando em novas bases legais, quase que diariamente, a discussão sobre oferecer ou não uma forma substitutiva para a chamada continuidade pedagógica, bem como as questões daí se seguem. Que forma substitutiva é essa em cada caso? Quais meios ou plataformas digitais? Quais os regimes de estudo e trabalho? Quais os impactos sobre os calendários?

Enquanto se avoluma esse debate turbulento e nebuloso, corre-se o risco de perder de vista o sentido que pode ter o ensino em tempos de crise e quarentena. Em consonância com essa preocupação, junto àquelas não podem deixar de ser postas questões como: Quais os impactos em termos de desigualdades sociais e regionais? Como fazer para que essa “substituição” não implique em um empobrecimento da formação quando, talvez mais do que nunca será necessário recuperá-la e aprimorá-la diante de novos tempos que se descortinam? E, antes, o que exatamente essa forma é capaz de substituir? Pois parece claro que planejar uma forma de manter a atenção e a prática de estudos em uma situação excepcional de quarentena que se abate sobre todos os setores e grupos sociais definitivamente não é planejar uma mera substituição de uma forma por outra como se fossem equivalentes. É para resistir a uma confusa, porém explicitamente documentada, tentativa de equivalência entre ensino presencial e ensino a distância, que sindicatos, seções sindicais e instituições de ensino vêm lançando notas contrárias ao uso dessas ferramentas. Entretanto, parece ser fundamental que se abra a possibilidade de um debate responsável sobre um regime pedagógico excepcional comprometido com a vida de estudantes e de suas famílias em quarentena (sobretudo daquelas que não podem realizar efetivamente a quarentena por suas condições de vida e trabalho). Ao publicar a portaria n° 343/20, o MEC insiste na sua incompetência em qualificar a educação no país, mostrando-se muito mais capaz de gerar medo e acirramento de tensões do que a mobilização e organização necessárias para que os profissionais da Educação contribuam neste período de inseguranças e fragilidades.

O desgoverno em que nos encontramos pode ser oportunidade para que, em certa medida, nos governemos a nós mesmos enquanto comunidades escolares com a finalidade de contribuir junto à população na medida do possível e considerando, como destacam as notas sindicais, as precárias condições em que se encontra a maior parte da população. Nesse sentido, podemos avançar nessas contribuições em boa parte das instituições de ensino, na educação básica em especial, se conseguirmos substituir o afã pelos conteúdos e cargas horárias pelo planejamento, organização, orientação e encaminhamento aos estudantes de propostas atividades e práticas de estudo que se destinem a um melhor convívio, ao reconhecimento e compreensão de conhecimentos científicos, à identificação de fake news, à leitura de dados estatísticos, às práticas de cuidado físico e mental consigo e com os outros, à promoção de valores como responsabilidade, comunidade e solidariedade. Não precisamos, para isso, de uma estrutura tecnológica mais complexa do que uma conta de e-mail, organização, cuidado e paciência para lidar e buscar acompanhar estudantes que não tenham condições de realizar as atividades ou de realizá-las como gostariam ou esperariam os professores. Uma vez mobilizados, como educadores, em contribuir para o bem-estar da população, teremos melhores horizontes para discutir carga horária e calendários, temas que, no momento presente, são secundários. É necessário que haja grupos prevendo e discutindo cenários que dizem respeito ao cumprimento ou reconfiguração dos requisitos legais, mas isso não pode se tornar a finalidade da atuação dos educadores hoje.

O fato é que, depois de alguns dias de quarentena, já não somos mais os mesmos. A questão é: quem nos tornamos, quem nos tornaremos?

 

Filosofia, substantivo feminino

Nastassja Pugliese  - UFRJ

Outro dia me peguei pensando como é curioso o fato da filosofia não apresentar praticamente nenhuma obra escrita por uma mulher como parte de sua tradição e ao mesmo tempo ser “filo + sofia”, ou seja, ser a expressão de um tipo de amor pela sabedoria, virtude comumente personificada em forma de deusas e musas durante a antiguidade clássica. Quer dizer, é no mínimo uma infeliz coincidência entre gramática e história o fato da filosofia, que em Língua Portuguesa é um substantivo ironicamente feminino, dificilmente reconhecer mulheres como filósofas.

Esse pensamento me surgiu porque, preparando aula e pesquisando para um artigo, me debrucei sobre duas ocorrências de “sofia” na literatura filosófica que não podiam ser mais diferentes uma da outra. A primeira aparece em Emílio ou Da Educação de Rousseau. Sofia é o nome da companheira de Emílio, o personagem principal desse tratado iluminista sobre educação, escrito como um romance de formação. Na quinta parte do livro, Rousseau anuncia o que acredita serem os princípios que devem guiar a educação das mulheres. Dentre eles estão a fineza, a diversão, mas também a submissão à autoridade e ao senso comum. Isto porque, segundo Rousseau, como as meninas nunca alcançariam a maturidade do juízo e da razão, seu talento mais característico e que deveria ser aprimorado seria a capacidade de agradar aos outros.

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Políticas identitárias

Érico Andrade
ericoandrade@gmail.com
Filósofo, psicanalista em formação, professor da Universidade Federal de Pernambuco

“o fascismo que está em todos nós,
que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas,
o fascismo que nos faz gostar do poder,
desejar essa coisa mesma que nos domina e nos explora”.
Foucault

 

Tentar inferir da condição de vítima a condição de um agente revolucionário parece-me ter sido um dos principais equívocos de Marx quando atribuiu ao proletariado (a classe explorada) uma vocação revolucionária e que parte da esquerda mimetiza agora sobre o formato das lutas identitárias. Essa passagem longe de estar dada tem que ser ainda construída. E não se trata, é o que gostaria de mostrar, de um exercício simplesmente de desalienação nos mesmo moldes de Marx; como se bastasse apenas descortinar o véu da alienação para que a classe trabalhadora tomasse consciência de classe e imprimisse a tão esperada revolução ou que as minorias tomassem consciência da opressão que sofrem e compusessem as condições sociais para a mudança. O destino que se dá à opressão não está definido.

Meu ponto é que o destino que se dá a processos de sujeição, como costuma dizer Butler, é motivo de disputa política. Isto é, está sob condições opressivas não orienta a ação política necessariamente para um viés emancipatório. Pelo contrário: a política é convocada para que possamos conferir um viés emancipatório a processos de opressão ou sujeição. É preciso disputar, insisto, o legado político dos processos de sujeição.

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O ECOCÍDIO É UM PROBLEMA FILOSÓFICO - Uma resposta a Giorgio Agamben

Jelson Oliveira
Thiago Vasconcelos
PUCPR

É famosa (e polêmica) a pergunta irônica de Nietzsche no prefácio de Para além de bem e mal a respeito da dificuldade dos filósofos em lidar com a verdade: “supondo que a verdade seja uma mulher, não seria bem fundada a suspeita de que todos os filósofos, na medida em que foram dogmáticos, entenderam pouco de mulheres?” Os exemplos desse problema sobram ao longo da história, comprovando a hipótese de que a filosofia, embora seja reconhecida como uma busca incessante e amorosa pela sabedoria, não raro passa ao longo dela. E isso ocorre ainda mais quando o pensamento se enche de argumentos abstratos, abstraídos do mundo, fragmentados e alheios aos demais saberes. Ao que parece, quanto mais a filosofia se encerra em suas muralhas, mais riscos ela corre de se tornar dogmática e, com isso, recusar a verdade que germina dos fatos e das evidências mais habituais.

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CATHARINE MACAULAY, PRECURSORA DE MARY WOLLSTONECRAFT

Camila Kulkamp
(Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFSC)

Catharine Macaulay (1731-1791) nasceu em dois de abril de 1731. Seu pai se chamava John Sawbrigde e sua mãe era Dorothy Wanley. A segunda filha a nascer de dois irmãos e mais uma irmã teve berço junto à beleza exuberante de um condado nsudeste da Inglaterra chamado Kent. Sua família possuía bens e propriedades, o que fez com que ela tivesse acesso à educação, com distinção especial em história Greco-romana. 1

Macaulay foi famosa no tempo em que viveu. Considerada a primeira “mulher historiadora inglesa”, escreveu não apenas livros de história, mas também um tratado filosófico, além de uma extensa obra sobre educação, poemas, panfletos e cartas. Foi reconhecida na cena intelectual por criticar o pensamento monarquista de Thomas Hobbes, o conservadorismo de Edmund Burke, o sexismo de Jean-Jacques Rousseau, por defender o republicanismo e a educação das mulheres.

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Coronavírus e o retorno à ontologia

Laurenio Leite Sombra (1)

O avanço de um vírus que nos ameaça a todos – embora não a todos igualmente – lembra-nos de uma fragilidade que obviamente já estava presente na nossa patente mortalidade, na nossa condição de seres corporais que adoecem e padecem, e no esgotamento crescente do nosso planeta-habitat. Apesar disso, esta fragilidade frequentemente parecia distante num mundo de produção incessante de riqueza, de um lado, e de informação cada vez mais prolífica e virtual, do outro. Qualquer ideia de natureza fica subsumida no imenso arsenal construído para forjar o “homo Deus”, expressão do historiador israelense Yuval Harari.

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Paradoxos do cancelamento

Filipe Campello

[resumo] Boicotes nas redes sociais contra pessoas com comportamentos ou ideias tidos como inadequados assemelham-se às punições com base em preceitos morais nos tempos de barbárie, retrocesso que reveste as pautas identitárias, apoiadas pela esquerda, com uma lógica policialesca.

*

O novo sentido dado do verbo “cancelar” parece ter sido incorporado definitivamente ao nosso vocabulário. O crescimento do que passou a ser chamado de cultura do cancelamento — termo para designar os boicotes promovidos por usuários das redes sociais contra pessoas, famosas ou não, por conta de comportamentos tidos como inadequados —  assemelha-se às catarses coletivas de tempos antigos , quando um vilarejo se reunia para assistir a um herege queimado na fogueira em praça pública.

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Mérito

Érico Andrade
ericoandrade@gmail.com
Filósofo, psicanalista em formação, professor da Universidade Federal de Pernambuco

É evidente que há certa arbitrariedade em nascer numa família com fartos recursos (com capital financeiro e cultural), em nascer com algumas capacidades cognitivas ou talento acima da média, em nascer sem uma deficiência física crônica e em nascer num ambiente favorável ao sucesso que estimule o empreendedorismo e a inovação. As pessoas que nascem nessas condições são sem dúvida privilegiadas e no capitalismo elas certamente irão concentrar bens e riquezas.

No entanto, será que as pessoas que não estão sob essas condições não poderiam ter acesso aos bens produzidos socialmente? A questão que gostaria brevemente de abordar aqui consiste em entender o que leva as pessoas a defenderem a todo custo o mérito, sabendo que há uma desigualdade explícita no ponto a partir do qual as pessoas competem pelos bens.

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Espaços da liberdade republicana: homenagem a Sérgio Cardoso

Antônio Carlos dos Santos (UFS)

Veio a lume no final do ano passado o livro “Espaços da liberdade: homenagem a Sergio Cardoso”, organizado por Telma de Souza Birchal e Maria Cristina Theobaldo, publicado pela Editora da Universidade Federal de Mato Grosso, 432 páginas, 2018. 

O livro, na esteira do que vem sendo feito nos últimos anos no Brasil, é uma Festschrift em reconhecimento a Sérgio Cardoso, Professor da USP. O termo pode ser traduzido como "livro de homenagem" ou, mais apropriadamente, "livro de celebração" em tributo a um(a) pesquisador(a) de destaque. Este gênero, surgido na Alemanha, de onde vem o termo, espalhou-se rapidamente pela Europa e Estados Unidos e chegou ao Brasil no final dos anos 90, no Rio Grande do Sul, em honra a Ernildo Stein. Depois, passou pelo Rio de Janeiro com obras dedicadas a Guido de Almeida e Raul Landim. Logo depois chegou ao Ceará, em preito a Manfredo Araújo de Oliveira; na sequência, em Minas Gerais, em deferência a José Henrique Santos; em São Paulo, em louvor a Scalett Marton e Maria das Graças de Souza, dentre outros. O fato é que o crescimento do tipo de obra denota certa maturidade intelectual e adensamento das atividades filosóficas no Brasil a tal ponto de não mais referenciarmos os pais fundadores de nossos departamentos, mas os mestres, ainda em vida (1).

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BRASIL COMO EFEITO DESCIVILIZADOR: EDUCAÇÃO, CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA SOB ATAQUE

Anderson Alves Esteves 1
Antonio José Romera Valverde 2

“nuvem de mosquitos
o ar se move
vento nenhum”
(Alice Ruiz S.
Desorientais)

“A gente está sendo atacado”, diz a personagem Lunga, do filme Bacurau; a sentença distópica, vinda de algum momento do futuro, pode ser proferida, no presente, por profissionais da educação e por estudantes no Brasil, aviltados pelo desmonte do Estado de bem-estar social que jamais ultrapassou o estágio de incipiência. Neutralizadas para deixarem de contribuir com a aceleração do “processo civilizador” 3 e não auxiliarem a estatuir a majoração progressiva do acesso, formal e substancial,àquilo que a humanidade edifica e edificou, as instituições de ensino, sob estrangulamento financeiro e perseguições doutrinárias, foram atacadas para se metamorfosearem em agências da mesma barbárie que ocorrem em outros âmbitos, tais como o ambiental, o ético, étnico, o de gênero, o econômico... O país literalmente queima, está manchado de óleo, soterra-se em barragens rompidas, afronta populações autóctones e os povos da floresta, eleva níveis de várias formas de desigualdade – e resta à educação, de acordo com entendimento do governo Jair Bolsonaro, somar esforços na força-tarefa descivilizadora. Antes de tudo, deve se calar.

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