Porchat e a lógica e filosofia analítica em São Paulo - Homenagem ao professor Oswaldo Porchat

Prof. Dr. Pablo Rubén Mariconda

 

Após a divulgação dos resultados do vestibular de 1968, fui à Rua Maria Antônia, onde então ficava o Departamento de Filosofia, para saber se tinha chance de conseguir fazer minha matrícula no curso. Na época, o vestibular não estava unificado (não existia a Fuvest) e os cursos realizavam suas próprias provas de ingresso; costumavam liberar as listas de todos os aprovados, mesmo que seu número ultrapassasse as vagas disponíveis, e isso gerava o que se chamava então de “excedentes” e um movimento pelo aumento de vagas na universidade pública. Eu era um deles, um dos quatro excedentes da Filosofia nesse ano. Subi ao segundo andar e numa porta com um pequeno guichê, que ficava junto à escada, pedi para falar com algum professor do departamento. Pouco depois apareceu um homem de compleição grande, alto, forte, usando um par de óculos de lentes grossas e esverdeadas, com uma barba preta notável que contornava todo o rosto mas o deixava praticamente todo a mostra; o cabelo era preto, curto e penteado para a frente. Cumprimentamo-nos, deu me a mão de maneira franca e antes que eu pudesse dizer a que vinha, adivinhando minha agitação e temores juvenis (eram épocas difíceis), foi logo anunciando que o Departamento de Filosofia não tinha excedentes e que todos os aprovados anunciados podiam efetuar suas matrículas. Fiz a minha matrícula em algum momento de fevereiro de 1968 com a nítida impressão de que tinha conhecido um filósofo e de que ele naquele ato havia cumprido uma decisão filosófica de agir com justiça e acolher na filosofia todos os aprovados no concurso. Agir com justiça e autonomia não era uma prática muito comum em 1968, por isso, senti desde o primeiro contato com Porchat que o curso de filosofia era um lugar onde eu talvez pudesse fazer o que mais desejava que era estudar e aprender sobre os mais diversos assuntos, das ciências às artes.

Tive também o privilégio, um pouco depois, de assistir à aula inaugural de filosofia para o ano letivo de 1968, ministrada por Porchat com o título “O conflito das filosofias”. Logo que a aula começou, com Porchat lendo seu texto, senti que algo importante começava a ser apresentado. À medida que ele continuou a apresentar seus argumentos, com sua fala um pouco arrastada, mas facilmente audível, percebi que não se tratava de uma aula comum, daquelas que seguem um padrão, que cumprem uma etapa, como as que eu estava acostumado a receber no secundário ou mesmo a ministrar a partir dos quinze anos ensinando idosos a ler e escrever, ou “vendendo” aulas particulares a partir dos 16 anos. Percebi, no meio da aula, que era ouvinte de uma conferência na qual, paradoxalmente, apresentava-se a filosofia como um campo aberto ao conflito, marcada por diferenças intransponíveis. Os argumentos delineados já mostravam essa tendência – tão marcante em Porchat, como depois pude comprovar – de a filosofia deixar de tratar de si própria, de sua própria história, e voltar-se para o mundo de nossa realidade comum, abandonando a ideia dogmática de um sistema de filosofia para apresentar-se como uma prática de análise e crítica do que mais nos constrange na vida cotidiana.

Leia Mais

MEMÓRIA DO PORCHAT - Homenagem ao professor Oswaldo Porchat

Prof. Dr. José Raimundo Maia Neto

 

A primeira disciplina de filosofia que cursei, lecionada por Emílio Eigenheer, data do início dos anos 80, quando era aluno do curso de graduação em ciências sociais da UFF. O Emílio encontrava-se então bastante interessado no ceticismo, organizando a tradução de uma coletânea de artigos do Popkin em colaboração com os seus colegas de UFF Danilo Marcondes e Renato Lessa, os quais também tive a felicidade de ter tido como professores. Embora a disciplina fosse sobre filosofia moderna, o Emílio me recomendou a leitura do livro recém-publicado do Porchat e do Bento Prado Júnior, A Filosofia e a Visão Comum do Mundo. Lembro-me de ter ficado muito impressionado na ocasião pelo estilo em primeira pessoa, confessional, dos textos do Porchat, com sua formação religiosa e posterior descrença, com sua experiência do conflito das filosofias, com o relato do seu abandono da filosofia e retorno à vida comum. A passagem pelo ceticismo foi fundamental neste percurso do Porchat, embora neste momento ele ainda não considerasse o pensamento cético como a fonte principal para a solução de suas inquietações intelectuais. Nesta ocasião, encontrando-me bastante envolvido com o existencialismo (especialmente Kierkegaard), fui impressionado mais pelo aspecto vivido, existencial, do discurso do Porchat do que pelos argumentos céticos considerados nos seus textos.

A leitura dos textos do Porchat certamente contribuiu para a minha decisão de mudar de área, começando um mestrado em filosofia na PUC-Rio logo após minha graduação. Após conhecer a obra, vi e escutei pessoalmente seu autor em 1986 no primeiro colóquio realizado no Brasil inteiramente dedicado ao ceticismo, organizado pelo Porchat no Centro de Lógica e Epistemologia da Unicamp que ele havia fundado. Fui ouvinte deste evento inaugural dos estudos sistemáticos sobre o ceticismo no Brasil. Mais tarde, Plínio Smith me disse que ele também, então jovem estudante já sob a orientação do Porchat e terminando a graduação, encontrava-se nesta mesma audiência. Pouco depois do evento em Campinas, o Danilo convidou o Porchat para uma palestra na PUC e eu pude, após a palestra, timidamente falar-lhe do meu projeto de mestrado de estudar a ficção de Machado de Assis do ponto de vista do ceticismo. O Porchat não somente acolheu com entusiasmo o projeto como se dispôs a colaborar. Fiz então uma viagem de um dia a São Paulo onde passei uma memorável tarde na casa do Porchat, a quem expus minha interpretação do ceticismo na obra de Machado, recebendo sugestões e informações preciosas sobre o pirronismo antigo. Até então conhecia o ceticismo antigo de forma incipiente e sobretudo através de comentadores. Porchat ajudou-me a articular a minha leitura da sucessão cronológica dos romances de Machado, seguindo um determinado padrão evolutivo formal e de visão de mundo, ao caminho do filósofo rumo ao ceticismo, descrito por Sexto Empírico nos capítulos iniciais dos Esboços do Pirronismo.

Leia Mais

O FILÓSOFO NA VIDA COTIDIANA - Homenagem ao professor Oswaldo Porchat

Prof. Dr. Plínio Junqueira Smith

Conheci Porchat quando eu tinha 15 anos, muito antes de saber que eu estudaria filosofia. Eu estava indo a pé de São Sebastião para a praia de Guaecá, onde ele tinha uma casa, porque, naquele momento, eu estava namorando a Patrícia, sua filha. Eu tinha ido de ônibus até São Sebastião e o taxi para Guaecá era muito caro. Decidi, então, ir a pé; um trajeto de mais de 9 kilômetros carregando uma mala. Outra pessoa que também estava no ônibus e ia para Boraceia (a praia anterior) foi comigo. Após deixá-lo em Boraceia e começar o caminho para Guaecá, um carro para no acostamento e, de um lado, a Pati desce. Ela me diz que estavam indo buscar a Lúcia S., que também chegava para passar uns dias na praia conosco e com um monte de outros amigos. Eu poderia tê-los esperado na rodoviária... Logo em seguida, do outro lado, sai o motorista para me cumprimentar: uma pessoa alta e com óculos de fundo de garrafa me estendeu a mão. Foi assim que conheci Porchat. Ou, pelo menos, é assim que me lembro.

Na praia, quando estávamos na varanda da casa, lembro-me de que Porchat veio contar o paradoxo do barbeiro: um barbeiro – o único da cidade - que faz a barba de todos (na cidade) que não fazem a própria barba. Ora, perguntava-nos Porchat, ele faz ou não faz a própria barba? Se sim, segue-se uma dificuldade, porque, se ele faz a própria barba, ele não pode fazer a própria barba, já que ele só faz a barba de quem não faz a própria barba; se, de outro lado, ele não faz a própria barba, ele faz a própria barba, porque ele faz a barba de quem não faz a própria barba. Qual a solução? Não sei por que, mas respondi que ele ia até a cidade vizinha fazer a sua barba. Naquela época, se bem me lembro, eu ainda não fazia barba... Mas eu já ia ouvindo Porchat falar de filosofia e contar histórias da UNICAMP.

Assim era Porchat: sempre procurava os mais jovens, gostava de conversar com eles, não se inibia para falar de suas coisas, aliava filosofia e praia. Diversas vezes, ele organizou encontros em Guaecá com seus orientandos, convidando uns 5 ou 6 por vez. Lembro-me de ter ido uma vez. Acho que eu já morava em Curitiba nessa época. Não somente discutíamos bastante filosofia, mas também aproveitávamos o sol, a praia e a natureza. A filosofia estava imersa no dia-a- dia. Porchat dizia que se tivesse mergulhado numa água gostosa em dias quentes como aqueles, Descartes jamais teria inferido o cogito; a seu ver, Descartes precisava ter mergulhado o seu cogito num mar como o nosso. E, então, caminhava uns passos e ia nadar.

Uma noite, andando pela praia lá pelas 2 da madrugada, com a lua crescente (ou minguante) e, portanto, sob luz moderada, mas suficiente, Porchat nos avisa: “cuidado, um buraco!”. De fato, uma criança cavara um buraco na areia e não o tapara, e alguns de nós estávamos quase caindo nele. Porchat sempre se colocou ao lado da jovem Trácia, que riu de Tales, quando este caiu num buraco, pois, enquanto contemplava as estrelas, não via o chão à sua frente; Porchat usava essa história para nos advertir para não cairmos no mesmo erro dos filósofos especulativos. Foi então que, para evitar não cair no buraco, Porchat deu um ou dois passos para o lado e... caiu em outro buraco! Não consegui me impedir de comentar: “Porchat, de que adianta evitar um buraco, se você, para não cair em um, cai em outro?” Eu me referia à sua aceitação de uma filosofia da visão comum do mundo e à sua noção de um “homem comum”, impregnadas de dogmatismo. Embora ele já tivesse abandonado a filosofia da visão comum do mundo em favor do neopirronismo, ele ainda se atinha às ideias de uma visão comum do mundo e de homem comum, as quais jamais abandonaria.

Esse seu gosto por estar entre os jovens foi uma constante em sua vida. Fazia parte de sua postura como professor. Um professor é, antes de tudo, uma pessoa dedicada às pessoas mais jovens, para ensinar-lhes o que sabe, para corrigir-lhes onde for preciso, para orientar-lhes na direção certa. Porchat me disse diversas vezes: uma pessoa inteligente sem orientação produz resultados medianos, mas, se tivesse sido bem orientada, produziria resultados muito bons; uma pessoa mediana bem orientada é capaz de produzir bons resultados, mas, se mal orientada, produzirá coisas fracas. Para ele, essa dedicação constante era fundamental para perpetuar a filosofia, para melhorar o cenário filosófico. E, fiel às suas ideias, ele sempre foi esse orientador firme, que procura dar a formação mais sólida possível a seus orientandos, ajudando-os a dar o melhor de si mesmos.

Durante sete anos, eu e Roberto Bolzani íamos semanalmente à sua casa, para os seminários de orientação. De férias, só fevereiro (quando Porchat ia para Guaecá) e duas semanas em julho. Lembro-me de, em janeiro, voltar da praia toda quinta só para os seminários em sua casa (eu os preparava na praia); uma vez, deixei de viajar para Itacaré com meu primo porque eu tinha de apresentar os seminários em janeiro... Lemos juntos: o Tratado e a primeira Investigação de Hume; os Princípios e os Três Diálogos, de Berkeley; os Acadêmicos, de Cícero; as Hipotiposes pirrônicas de Sexto Empírico; inúmeros artigos sobre o ceticismo. Passados sete anos, defendi meu doutorado, fui um ano para a UFSCar, com Bento, e depois para a UFPR, e Roberto se tornou professor da USP. Era chegado o momento de ter outros orientandos: Felipe Chaimovich, Luiz Eva, Tuxo, Marquinhos, Vitor, entre outros. Dada sua orientação muito exigente (que exigia dele um tempo enorme para seus orientandos), Porchat nunca orientava mais do que duas ou três pessoas ao mesmo tempo. Mas até o final de sua vida, ele sempre estava orientando alguém.

Porchat também se dedicava a seus alunos de modo geral. Ele dizia que gastava cerca de 30 horas semanais para preparar uma aula. 30 horas! E sobre um assunto que ele já sabia de cor e salteado! Ele se explicava assim: é que eu quero estar preparado para toda e qualquer pergunta que os alunos possam fazer. Quando ele me disse isso, eu ainda não era professor, mas eu só ia observando o seu exemplo para imitá-lo depois na medida das minhas forças. Ter tido Porchat como modelo certamente aprofundou em mim o gosto pela docência.

Não espanta que, diante de tamanha dedicação à formação de jovens filósofos, Porchat tenha publicado relativamente pouco. Não sobrava tanto tempo assim para a pesquisa. Mas é que sua docência e sua orientação estavam, de fato, inextricavelmente ligadas. Porchat não orientava senão sobre autores e temas nos quais estava trabalhando. Quando fui estudar com ele, propus estudar Platão, Leibniz ou Husserl; ele me respondeu que eu podia escolher entre Sexto Empírico, Hume e os positivistas lógicos. Fui para casa, li Hume e, na semana seguinte, respondi: quero estudar Hume. Roberto Bolzani, que também queria estudar Platão, foi estudar Sexto. Deixamos de estudar o autor preferido para que pudéssemos receber a formação que Porchat dava. Depois, Porchat orientou sobre outros autores que queria estudar: Montaigne, Locke... Seus cursos também versavam sobre autores e temas que ocupavam a sua reflexão filosófica.

Ficou famoso seu primeiro curso na pós, em que os alunos deviam apresentar textos de 2 ou 3 páginas de reflexão pessoal sobre um assunto predeterminado para discussão. Essa era a matéria prima da aula; ele não dava uma aula expositiva, mas ouvia o que os alunos tinham a dizer (e, se não tinham o que dizer, tinham que pensar arduamente para ter o que dizer...). Depois, como deu certo, ele repetiu esse curso algumas vezes. Esses cursos refletiam a mudança de seu pensamento sobre o ensino da filosofia e sobre o papel do professor de filosofia em sala de aula. A seu ver, o professor deveria estimular os alunos a pensarem criticamente por conta própria, e não inibi-los; em vez de brilhar, exibindo sua erudição, o professor deveria ajudar os alunos a desenvolverem suas capacidades intelectuais, sem jamais perderem a motivação e o impulso que os levou à filosofia. Porque Porchat era assim: procurava aplicar seriamente ao que fazia aquilo que pensava.

Não tenho dúvidas de que ele se via muito mais como professor do que como filósofo. Lembro-me quando, no final de um colóquio no Centro Cultural São Paulo, fomos jantar fora, ele, eu, os participantes e alguns alunos. Eu dei-lhe carona. No caminho, ele me disse algo que me surpreendeu. Ele me disse que, pela primeira vez na vida, aos 80 anos, ele sentira que tinha feito algo importante na filosofia. E me agradecia por ter organizado o colóquio. Quem conhece Porchat, conhece sua sinceridade e sua honestidade. Foi um momento em que eu percebi claramente também a sua modéstia. Nunca me passara pela cabeça que Porchat poderia não ter muita consciência da enorme importância de sua obra para a filosofia brasileira. De fato, ele não sabia julgar adequadamente o que ele tinha feito. Não é preciso lembrar aqui da máxima socrática para dizer que é muito difícil para qualquer um saber avaliar a si mesmo. O professor se foi, deixará muitas saudades, mas os discípulos e sua filosofia ainda permanecem.

 

ANPOF 2017/2018

Preconceito e política

Prof. Dr. Eduardo Jardim de Moraes (PUC-RJ)

 

Li, com constrangimento, a matéria escrita por Vladimir Safatle, intitulada “O preconceito é um exercício da liberdade?”, de 13 de outubro de 2017, na Folha de São Paulo, que defende a intervenção “em todos os níveis, sobre práticas sociais que minam a adesão a princípios igualitários, sob pena” de ocorrer uma expansão incontrolável de todo tipo de preconceito. Em sua argumentação, o colunista faz uma crítica do artigo de Hannah Arendt, “Reflexões sobre Little Rock”, de 1959, com incorreções que dizem respeito ao seu conteúdo, as quais motivaram esses comentários de um velho leitor de A condição humana.

Inicialmente, o colunista retoma a caracterização errônea de Hannah Arendt como pensadora liberal, tendo por objetivo desqualifica-la. Ao longo detoda a sua obra, desde os anos cinquenta até a morte em 1975, Hannah Arendtcse propôs a definir o que é liberdade, tomando distância tanto do liberalismo quanto da tradição hegeliano-marxista. No primeiro caso, o liberalismo defendia uma concepção “negativa” da liberdade, isto é, afirmava que o homem é livre quando não sofre nenhum tipo de constrangimento, especialmente do Estado. No segundo caso, na tradição historicista, a que pertencem teóricos tanto de direita quanto de esquerda, a liberdade era vista como o resultado bem sucedido do desenvolvimento histórico. Em oposição às duas orientações, Hannah Arendt defendeu que a liberdade, em sentido próprio, tem um estatuto positivo, não depende do curso da história, mas se realiza no plano político da existência humana, isto é, em um contexto público e plural, e apenas nele.

Leia Mais

O Avesso do Direito: Do terror à banalidade do mal

Maria Borges - Professora de Filosofia da UFSC
 
A Universidade brasileira vive hoje sobre uma ferida aberta: a morte de um Reitor. Por quase dois anos, sob a liderança do Reitor Prof. Luiz Carlos Cancellier de Olivo, a Universidade Federal de Santa Catarina floresceu na arte, na ciência e na tecnologia, apesar das dificuldades econômicas. A convivência tornou-se mais pacífica, pois os adversários não eram considerados inimigos e todos eram convidados a sentar na mesa e na sala do Reitor. Essa harmonia desaparece numa operação denominada Ouvidos Moucos, que prende o Reitor, sob a alegação de obstrução de justiça relativa a uma suposta irregularidade de bolsas do programa de Ensino à Distância. Não havia julgamento, nem processo, apenas um inquérito inicial, onde só um lado fora ouvido. Uma operação de 100 homens é montada para invadir a universidade, apreender documentos e prender 5 professores e o Reitor. Sem julgamento prévio, nem direito a defesa. Na prisão, Cancellier é despido, sujeito à revista íntima, algemado e acorrentado. Depois de solto, é impedido de entrar na Universidade, da qual era um Reitor eleito e aclamado, elogiado até mesmo pelos seus adversários, por seu espírito conciliador. Devido ao terrível sofrimento acarretado pela injustiça e humilhação moral, suicida-se em 2 de outubro de 2017, trazendo consigo um bilhete: “minha morte foi decretada no momento em que fui banido da Universidade”.

Leia Mais

BRASIL 2018: verso a um novo acordo Katechontico

Evanildo Costeski/UFC

Como foi possível o golpe de 2016? São várias as explicações e os motivos. Não é minha intenção discorrer sobre todos os caminhos e as trilhas que levaram ao Impedimento parlamentar da Dilma. Todavia, em minha opinião, uma explicação sobrepõe-se: o golpe não foi exógeno, não veio de fora, mas foi gerado pelo próprio sistema político que governou o Brasil nos últimos anos. Foram os acordos políticos dos últimos catorze anos, comandados pela esquerda, que geraram o golpe, como uma célula cancerígena não tratada que, invariavelmente, leva a uma metástase. 

Isso significa que os acordos foram maus em si? Que deveriam ter sido evitados? De maneira nenhuma! Foram necessários e, em sua maioria, corretos do ponto de vista da governabilidade. No Brasil, o Presidente é eleito, mas não governa ou, pelo menos, não governa sozinho. Os acordos devem ser vistos como naturais, próprios do sistema político e da tradição cultural brasileira. O Presidencialismo de coalização não é ruim em si. A sua forma degradada, denominada recentemente de “presidencialismo de cooptação”, deve sim ser execrada, entretanto, deve-se cuidar para não jogar fora a água suja com o bebê.

Leia Mais

Filosofia no Brasil - Ensaios Metafilosóficos

Ivan Domingues (UFMG)


Notícia sobre o Lançamento e Comentários

Acabo de lançar pela Editora UNESP o livro de minha autoria Filosofia no Brasil: Legados e Perspectivas – Ensaios Metafilosóficos, culminando um momento importante em minha carreira, ao fazer um acerto de contas comigo mesmo, como filósofo, como intelectual e como brasileiro.

Não podendo sumariar-lhe o conjunto, com suas 560 páginas, organizado em seis passos argumentativos, recobrindo quinhentos anos de nossa história, e adiada a apresentação do seu making of para uma outra ocasião, vou na sequência apresentar brevemente aos leitores da Página da ANPOF o seu escopo, junto com o tema central ou seu hardcore e as hipóteses de trabalho.

Começo pelo escopo: como bem mostra o título completo, colocando em evidência em uma de suas metades legados e perspectivas, que o leitor interessado nestas matérias não espere que vai ter às mãos um livro de história da filosofia ou da história da filosofia brasileira, nem, menos ainda, de um livro de exegese de um autor ou de mais autores. Trata-se, antes, de um livro de ensaios, tendo por eixo o cruzamento entre a metafilosofia e a história intelectual. A consideração e aceitação desses pontos são fundamentais para a compreensão e a avaliação da proposta levada a cabo com intenções e metodologias diferentes, como veremos na sequência, entrando a história da filosofia e a exegese filosófica como fonte, meio e ferramenta, não como tema, problema ou objeto.

Leia Mais

UM DESAFIO PARA O PENSAMENTO: A CRISE BRASILEIRA E SUA SUPERAÇÃO

Carlos Sávio G. Teixeira
Professor Adjunto e Chefe do Departamento de Ciência Política da UFF. Doutor em Ciência Política
pela USP.

O Brasil experimenta atualmente uma crise cuja principal consequência é a desorientação do país. A tese que sustento é a de que o fundamento mais importante e menos reconhecido desta crise é moral: um antigo e persistente problema de desidentificação nacional, a ausência de um forte sentimento de pertencimento coletivo. A maior parte da elite brasileira - composta pelos ricaços, a classe dirigente e a classe média - sempre se perguntou por que o Brasil não conseguiu se tornar parecido com os EUA, a Grã Bretanha ou a França. Essa pergunta contém uma resposta implícita negativa, cuja influência no desenvolvimento do sentimento de falta de tarefa para com o Brasil é enorme. As classes populares, por sua vez, guardam uma relação de ambiguidade em termos de identificação com o país.

Leia Mais

O Brasil não pode renunciar a filosofar, mas precisa refundar seu discurso-práxis desde sua condição e a partir de seus sujeitos epistemológico-políticos

Leno F. Danner
Universidade Federal de Rondônia
G.P. Teoria Política Contemporânea

Vitor Cei
Universidade Federal de Rondônia
G.P. Ética, Estética e Filosofia da Literatura
 

Historicamente, a Filosofia no Brasil costuma seguir padrões e métodos ditados pelos centros intelectuais que possuem tradições filosóficas próprias, como Alemanha, França, Inglaterra e Estados Unidos. No entanto, há vários anos assistimos no país à discussão sobre a necessidade de uma língua filosófica própria, que permita um amplo e consistente debate de ideias. Apesar dos esforços contínuos para consolidar uma tradição de pensamento (e esta Coluna da ANPOF é apenas um dos exemplos), ainda falta à Filosofia Brasileira uma maior atenção aos grandes temas nacionais e regionais, assim como falta a essa mesma Filosofia Brasileira uma séria atenção e tematização relativamente à nossa condição –social, política, cultural e epistêmica – frente à própria noção de cultura, de sociedade e, nesse caso, de episteme desenvolvida desde a filosofia europeia e norte-americana.

Uma das autocríticas mais recorrentes na tradição do pensamento filosófico brasileiro é a da ausência de um debate público sobre as grandes questões que afetam o país e o mundo contemporâneo. Os nossos filósofos teriam se limitado a estudar a História da Filosofia, a fazer exegese dos textos da tradição ocidental. Autores como Machado de Assis, Roberto Schwarz e Sérgio Buarque de Holanda argumentam que, enquanto na Europa as diferentes correntes filosóficas apresentam conexões internas com as realidades histórico-sociais nas quais se inserem, no Brasil as condições materiais, históricas e políticas pouco influenciaram as ideias e raras vezes foram transformadas pelas mesmas. Reveladora é a machadiana Teoria do Medalhão, que alveja o vício das palavras grandiloquentes com riso zombeteiro, mostrando de que modo as ideias eram transformadas em signo material de distinção, anulando qualquer potencial reflexivo.

Leia Mais

Pode o Brasil Renunciar a Filosofar? (PARTE II)

Pode o Brasil Renunciar a Filosofar? (1) (PARTE I)
Renato Janine Ribeiro

Já apontei aqui três pontos a meu ver falhos no que se faz, no Brasil, de filosofia: primeiro, a redução sistemática do que não é teoria do conhecimento ou do ser a teoria do conhecimento ou do ser, isto é, a subordinação da ação a uma visão, por sinal superada, do que seriam conhecer ou ser, uma visão que entende o ser como res a conhecer e não como virtus a desenvolver, a criar, a inventar; segundo, a pressuposição de que haja coerência onde ela pode inexistir – ou melhor, onde pode residir o conflito, seja este interno à obra, seja entre dois autores; terceiro, a desconsideração do que o autor ou sua fortuna crítica elegeu como prioridade (estivessem, eles, certos ou errados – não é esse o problema).

As conseqüências desses procedimentos são várias. Não retomarei o primeiro ponto, do qual acabo de tratar, mas desenvolverei os dois outros.

Leia Mais

AS VIRTUDES DO CÉTICO - Homenagem ao professor Oswaldo Porchat

Pro. Dr. Waldomiro J. Silva Filho (UFBA, CNPq)

 

Foi em uma manhã qualquer de setembro de 2010. O telefone tocou sem insistência ou urgência. Era um dia agradável, luminoso, com a brisa peculiar aos setembros em Salvador. Do outro lado, aquela voz poderosa e cerimoniosa. Porchat soubera por alguém que eu tinha retornado de um longo período no exterior e queria notícias. Havia mais de um ano que não nos falávamos. Contei-lhe sobre minha viagem de modo direto, sem rodeios: passei um período em uma excelente universidade, um dos melhores departamentos de filosofia do mundo, mas eu me sentia destroçado por dentro, pois estava claro para mim que, ou eu realmente não tinha qualquer talento para a filosofia, ou a filosofia não poderia me oferecer o que eu estava procurando – o fato é que não alcancei e não tinha qualquer esperança em alcançar algum conhecimento ou sabedoria ou tranquilidade da alma. Não era um lamento, mas eu me sentia seguro para falar de modo sincero com ele.

Porchat me ouvia em silêncio. Talvez por educação, ele me falou que esse sentimento já lhe ocorrera. Logo depois, num tom surpreendentemente grave, Porchat antecipou que o que estava para me dizer, com certeza, iria me decepcionar. Ele se descobrira um cético rústico. A conversa seguiu num ritmo amistoso, bem-humorado, mas avançava por um terreno realmente profundo e áspero da filosofia, com seus aspectos exegéticos, técnicos. Para mim era surpreendente que alguém como Porchat pudesse dar ouvidos às minhas aflições intelectuais e, no mesmo passo, partilhar comigo suas ideias.

Leia Mais

Homenagem a Oswaldo Porchat - Prof. Dr. Roberto Bolzani

 

A primeira vez em que falei com Oswaldo Porchat foi ao telefone, de um orelhão. Eu estava terminando minha graduação de Filosofia na USP e pretendia fazer Mestrado sobre algum tema em Platão, meu filósofo favorito. Nesse momento, primeiro semestre de 1985, soube que Porchat voltaria ao Departamento, vindo da UNICAMP. Eu havia assistido a uma conferência feita por ele em meu ano de ingresso no curso, 1980, ou no ano seguinte. E, mais importante, adquirira um fino volume de artigos publicado pela Brasiliense, intitulado A filosofia e a visão comum do mundo, contendo artigos dele, de Bento Prado e Tércio Ferraz. Não me lembro exatamente em que momento de minha graduação li esses artigos, especialmente “O conflito das filosofias”, “Prefácio a uma filosofia” e o artigo que dá o título ao volume, de Porchat, e “Por que rir da filosofia”, de Bento, mas nunca me esqueci do notável efeito que produziram em mim. Hoje, passados mais de trinta anos, sinto-me mais capaz de expressar o que sentia então: estavam ali dois exemplos paradigmáticos de algo que, mais tarde também entendi, me fascinava em Platão, uma aliança bem-sucedida entre profundidade de reflexão e escrita primorosa. Aqueles textos, junto com alguns artigos de Gérard Lebrun, me convenciam de que a Filosofia estava viva, de que ainda era possível pensar com o vigor e a originalidade que eu podia observar nas várias filosofias que conheci nos bancos da escola, e isso, no caso dos dois, em Português. Graças a eles, minha trajetória de estudante, que julgo nunca ter terminado, percorreu-se com um prazer que provavelmente não existiria sem eles.

No texto de Bento eu encontrava um contraponto aos de Porchat. Com Bento, eu deparava com uma concepção de reflexão filosófica antes ensaística do que sistemática, que parecia recusar a ideia de que a filosofia se define exclusivamente pela racionalidade clássica e que, por isso, atenuava em mim os resultados da poderosa força argumentativa presente nos artigos de Porchat e a concepção de Verdade que os fundamentava. Impressionava-me, ao mesmo tempo, o modo como Porchat mobilizara o argumento do “conflito das filosofias”, conjugando-o com os pressupostos filosóficos do assim chamado método estrutural de análise. A escrita fluente – diferente da de Bento, mas não menos cativante – ia desenvolvendo com clareza impressionante uma argumentação impecável, que concluía, sem inibições, pelo abandono da filosofia – um abandono profundamente filosófico, ao mesmo tempo racional e dramático. Contudo, nos artigos seguintes, tal exercício argumentativo se veria acompanhado do tom confessional, da ideia de filosofia como discurso em primeira pessoa, consciente de seus limites humanos e precários, mas que proporcionava um retorno àquela filosofia antes abandonada e agora repensada. Esses artigos de Porchat, agora eu sei, me encantavam porque dialogavam com a tradição mais remota da filosofia, adotando suas exigências mais características de racionalidade, ao mesmo tempo em que incorporavam a elas o elogio das verdades da vida de todos os homens, a chamada vida comum. Reunidos ao ensaio de Bento, eles me causaram, com o tempo, a impressão de que a filosofia, afinal, se vê necessariamente diante do desafio metafilosófico de pensar sobre si mesma. Sem o pretenderem, esses dois pensadores brasileiros me conduziram por esse caminho que, desajeitadamente, continuo tentando trilhar.

Leia Mais

Agamben e “o que é a filosofia?” Ajuda italiana para o feminismo e toda a filosofia social

Prof. Dr. Paulo Ghiraldelli

Se Judith Butler ler o último livro de Agamben, O que é filosofia? (1) ela pode encontrar resposta para as questões que fez no início dos anos noventa, e que acreditou serem impossíveis de responder. 

Na época, levando em conta a literatura feminista já existente, e defendendo a ideia de que a nossa linguagem constrói o gênero, o sexo e, enfim, até mesmo o corpo, não sabia dizer se havia ou não alguma coisa prévia à linguagem, sobre a qual esta atuaria para fazer aquilo que nos aparece feito. Haveria ou não uma “materialidade”, uma espécie de pré-corpo, que iria se transformar, pelos “discursos” (Foucault) ou pela “ressignificação” (Derrida) ou pela “interpelação” (Althusser) no corpo? Apesar de não negar a “materialidade” prévia do corpo (algo que se espetado flui sangue, algo que é machucado etc), ela preferiu assumir que uma tal questão, no limite, não poderia ser de fato respondida.

Leia Mais

Para ler Butler como alvo e pensadora dos discursos de ódio

Carla Rodrigues (UFRJ), Susana de Castro (UFRJ), Marília Pisani (UFABC), Fabio
A. G. Oliveira (UFF), Príscila Teixeira (UFRJ), Valéria Wilke (UNIRIO), Izilda
Johanson (UNIFESP) integrantes do GT Filosofia e Gênero

 

Quando, em 1997, a filósofa Judith Butler publicou Excitable speach, ainda estava desdobrando algumas ideias centrais discutidas em Gender Trouble, livro de 1990, aqui traduzido por Problemas de gênero apenas em 2003. Nesse espaço temporal que separam a primeira edição norte-americana – há uma segunda edição de 1999 com nova introdução em que a autora revisita a própria obra –, a produção intelectual de Butler se deu em função de críticas e debates surgidos a partir de propostas apresentadas no seu primeiro livro. Foi assim com Bodies that’s matter (1993), com The Psychic Life of Power: Theories in Subjection (1997) – cuja tradução brasileira chega em breve às livrarias como A vida psíquica do poder: teorias da sujeição, mais um título da coleção filosófica da Autêntica –, e com Excitable Speech: A Politics of the Performative, infelizmente ainda sem edição brasileira. Suas ideias nesse livro são de grande ajuda, inclusive para a compreensão do que consiste os discursos de ódio usados contra ela neste momento no Brasil.

Desde Gender Trouble, a filósofa estava se valendo da noção de performatividade da linguagem, tal qual proposta pelo linguista John Austin, para pensar a subversão da identidade, aqui entendida como uma dada construção social fundada num substrato natural, o sexo anatômico. Em outras palavras, ela apontava a insuficiência de pensar a diferença sexual apenas na chave do par sexo/gênero. Além de manter uma dualidade entre masculino e feminino, havia uma limitação política em pensar a diferença sexual numa abordagem binária, que constrangia o debate numa chave teórica de reprodução da heteronormatividade. É nesse sentido que Butler propõe pluralizar as dimensões narrativas – conjunto de práticas e discursos – que se impõem sobre os corpos. Desta pluralização, a possibilidade de reinvenção contínua torna possível visualizar as dimensões em que a heterossexualidade compulsória atuam. Trata-se, então, de abrir a possibilidade de produzir novos corpos, não apenas novos discursos.

Leia Mais

A FILOSOFIA DE PORCHAT: TECHNÉ, NEO-PIRRONISMO, PRAGMATISMO

Prof. Dr. José Crisóstomo de Souza

Durante seu percurso intelectual, Oswaldo Porchat Pereira veio a desenvolver, aos poucos, uma concepção filosófica própria, que chamou de neo-pirronismo, de ceticismo e – para neutralizar preconceitos – de “empirismo cético”. Antes de chegar a ela, porém, teve de se livrar, segundo ele nos conta, da “ideologia” da receita goldschmidtiana de filosofia que tão fervorosamente abraçara e pregara ao lado dos colegas de departamento. Pois, junto com o método, e embutido nele, o estruturalismo de Victor Goldschmidt passaria “uma filosofia sobre a história da filosofia”, e mesmo “uma filosofia sobre a filosofia” (2) – que permanece até hoje pouco tematizada entre nós e que bloquearia toda possibilidade de efetivamente fazermos filosofia. Gradualmente, Porchat passou a desencantar-se das perspectivas abertas – ou melhor, fechadas - ao trabalho propriamente filosófico, pelo goldschmitismo exclusivo, enquanto entrava em contato com o ceticismo grego, desafiador das pretensões da grande filosofia, de sistema.

Foi naquela conjuntura que, um tanto desencantado da filosofia, Porchat resolveu dedicar-se ao estudo da lógica formal. Foi então que saiu novamente do país (depois de sua formação goldschmidtiana na França), dessa vez para fazer na área de lógica um pós-doutorado de dois anos, de 1969 a 1970, na Universidade da Califórnia, Berkeley, com o professor Benson Mates. Bem mais adiante, em 1983, faria um outro pós-doutorado, dessa vez em Oxford, na Inglaterra, onde teve a experiência, marcante, de um modo vivo e discutido de fazer filosofia, baseado na argumentação própria sobre temas e problemas, em vez de voltado para a história da filosofia, muito menos para a exegese e o comentário estruturalista da obra dos filósofos canônicos, históricos. Esse contato com o modo anglo-saxônico de fazer filosofia, em universidades da Inglaterra e dos Estados Unidos, certamente contribuiu para mudar sua forma de encarar o trabalho na área, tanto no que diz respeito à pesquisa como ao ensino. Isso ainda que a forma que Porchat desenvolveu para essas coisas seja sua, resultado de um desenvolvimento próprio, no qual mantém-se ainda fiel ao modelo de leitura goldschmidtiana da obra filosófica, embora agora apenas como um “momento” do trabalho em filosofia.

Leia Mais

OPÇÕES REJEITADAS*

Roberto Mangabeira Unger
(Universidade de Harvard)

 

Despertamos num mundo particular: não apenas o mundo natural que habitamos, mas o mundo das instituições e práticas, incluindo as práticas discursivas, que avultam ao redor de nós. Para bem ou mal, estas práticas se situam entre nós e o quadro absoluto de referência, a visão do alto, o ponto de vista das estrelas.

No entanto, sempre nos experimentamos, enquanto indivíduos e em contato com os outros, como fontes de iniciativas capazes de resistir às estruturas estabelecidas de organização e crença. Qual deveria ser nossa atitude em relação a tais estruturas de organização e crença comum? Deveríamos nos render a elas e tentar tirar o melhor partindo delas, explorando, por todos os modos possíveis e pela luz que elas projetam, suas possibilidades ocultas de transformação? Ou deveríamos procurar estabelecer uma posição a partir da qual submetê-las a julgamento?

Leia Mais

ABOLICIONISMO: ÉTICA E FUNDAMENTAÇÃO DOS DIREITOS ANIMAIS

Sônia T. Felipe - professora aposentada do Depto de Filosofia UFSC

 

Originado do latim abolere, abolição refere uma ação de largar ou deixar de usar, extinguir, eliminar, suprimir ou fazer desaparecer instituições, leis e tradições. A proposta abolicionista trata de pôr fim a alguma prática institucionalizada, incluindo as leis que asseguraram sua legitimidade e os costumes que a forjaram como tradição. 

Adotado pelos defensores dos animais, o termo refere o movimento filosófico iniciado por Tom Regan, com ações que visam pôr fim aos  usos, à exploração e à matança de animais para propósitos humanos. 

A abolição não negocia em parcelas a restituição do bem extorquido dos animais, nem adota a ideia de reduzir os maus-tratos ou diminuir o âmbito no qual eles são infligidos aos animais (bem-estarismo). Abolir é pôr fim à prática completa, desconstruir seus andaimes e retirar os sustentáculos morais que a amparam há milênios. Abolir é extinguir pela raiz a crença na legitimidade moral da exploração e matança de animais pelos humanos para comilança, tração, embelezamento, diversão, tratamento, higiene e atendimento a quaisquer outros propósitos. 

Leia Mais

(O ESTADO DA ARTE DA TEORIA CRÍTICA DA ESCOLA DE FRANKFURT) A CRÍTICA DAS FORMAS DE VIDA, DE RAHEL JAEGGI

Andreas Niederberger e Tobias Weihrauch
Universidade de Duisburg-Essen

 

Jürgen Habermas introduziu o conceito de ação comunicativa em sua teoria como uma tentativa de superar as aporias da primeira geração da Teoria Crítica. Os escritos de Adorno e Horkheimer mostram – segundo Habermas – que qualquer ponto de referência utilizado para criticar a situação atual da sociedade se torna parte do problema. O proletariado votou pelos nazistas, a cultura moderna, mesmo nas suas formas de vanguarda, serviu para reconciliar as pessoas com sua condição de vida no capitalismo, e se poderiam ler as teorias filosóficas, mesmo as aparentemente mais abstratas e menos práticas, como preparando e mantendo uma forma de subjetividade que domina a natureza, a si e aos outros. Assim, na visão de Habermas, a tarefa das próximas gerações da teoria crítica é detectar padrões que possibilitem identificar as contradições e crises das sociedades atuais, enquanto, ao mesmo tempo, ofereçam orientações para possíveis transformações.

Leia Mais

COMO FAZER TEORIA POLÍTICA COM FOUCAULT? – O debate sobre a liberdade nas obras de Foucault

Karsten Schubert
University of Duisburg-Essen

Um dos problemas mais duradouros na discussão sobre Foucault tem sido o problema da liberdade. Mais precisamente, a questão é a seguinte: como a liberdade e a resistência podem ser pensadas e explicadas em uma teoria do poder e da subjetivação?

Abordarei esse problema não falando sobre o próprio Foucault, oferecendo uma nova interpretação dos seus escritos, por exemplo. Em vez disso, sustento que o problema pode ser abordado apenas nos detendo sobre o debate sócio-filosófico desencadeado por suas obras. O problema da liberdade não tem origem em Foucault, mas foi antes articulado nas discussões de sua obra por teóricos da política. Essas interpretações, mediante a construção do problema, vão além da mera exegese. São obras filosóficas elas mesmas complexas e enquanto tais são o principal objeto da minha análise.

Leia Mais

Pode o Brasil Renunciar a Filosofar?

Pode o Brasil Renunciar a Filosofar? (1) (PARTE I)
Renato Janine Ribeiro

A filosofia, no Brasil, tem sido sobretudo história da filosofia. Por que isso? Há razões que remontam ao período em que eu mesmo estudei na graduação da Usp, isto é, na passagem dos anos 60 para os 70. Tais razões podem referir-se ao prestígio de que então desfrutava o estudo estruturalista do texto, que parecia oferecer a possibilidade de uma leitura definitiva e inconteste da obra. Curiosamente, uma leitura que negava o caráter histórico – precário, sempre passível de mudanças e alterações – de toda leitura terminava por propor o coroamento da história da filosofia, sua possibilidade de proporcionar um fim da história da filosofia ao mesmo tempo que uma história final, terminal, da filosofia. Parece ser esse prestígio do estruturalismo a razão aduzida por Oswaldo Porchat para nosso pouco debate filosófico; elegantemente, ele tem assumido a responsabilidade por haver defendido com tanto vigor, nos anos 60, uma leitura que assim punha fim à escrita – ou à fala, se quisermos ser mais socráticos – da filosofia.

Mas tal causa não me parece, de todo modo, suficiente – e isso por uma simples razão: a renúncia à filosofia era compartilhada, então, até mesmo por marxistas. Ora, eles não deveriam nem poderiam, logicamente, acreditar que uma leitura fosse definitiva ou escapasse às necessidades (não diria as contingências) da História. É provável, porém, que se somassem duas ordens de razões. Uma, instrumental, seria a valorização da leitura estruturalista, como capaz de efetuar uma interpretação rigorosa e segura dos textos clássicos. Outra, mais de conteúdo, seria a dos marxistas: provavelmente eles acreditavam que a filosofia seria superada por algo mais intenso no impacto social; ela teria passado, não mais futuro; estaria reduzida a um patrimônio importante, inspirador, da humanidade, mas cuja capacidade de mudar o mundo seria pequena. Pode ser que levassem tão a sério a XIª Tese sobre Feuerbach que esperassem o fim da filosofia, assim como Nietzsche esperava o fim do homem, Hegel o fim da arte e Heidegger o fim da metafísica.

Leia Mais

Mais artigos...

FaLang translation system by Faboba