Diretrizes para a Coluna Anpof

A Coluna Anpof tem como objetivo a publicação de textos inéditos produzidos pela comunidade filosófica que, além de dar visibilidade às pesquisas realizadas nas mais diversas áreas, busquem dialogar com questões contemporâneas a fim de contribuir para o debate público.

Serão avaliados textos inéditos em língua portuguesa com extensão entre 500 e 1500 palavras. Ocasionalmente, os textos submetidos à Coluna Anpof podem ser divulgados, com a permissão dos autores, em veículos da imprensa nacional.

Os textos podem ser submetidos pelo email: comunicacao@anpof.org.br, indicando no campo “assunto”: Submissão para a coluna anpof.

COLUNA ANPOF HOMENAGEM - SOBRE O PROFESSOR CARLOS ROBERTO V. CIRNE LIMA

Alvaro L. M. Valls

 

“Buenas, me espalho!
Nos pequenos dou de plancha, nos grandes dou de talho!”
(Capitão Rodrigo Cambará, O Tempo e o Vento.)

 

No início dos anos 80, o Prof. Valério Rohden, então Chefe do Departamento de Filosofia da UFRGS, viabilizou o retorno ao corpo docente dos cassados da ditadura. Voltaram Ernani Fiori, Ernildo Stein, João Carlos Brum Torres e Carlos Cirne Lima. Na cerimônia de recepção aos anistiados políticos, Cirne Lima falou por eles, contando como os bons departamentos haviam sido dizimados. Fiori comentou depois que, como sempre, Cirne Lima fora generoso, pois “dizimar” era um verbo fraco para o expurgo de tantos excelentes professores de nossas universidades, cassados nos anos 60 e 70. O próprio Cirne Lima gostava de contar histórias daqueles tempos obscuros, e de como alguns que não haviam sido cassados na primeira leva redigiram uma carta denunciando o erro que era cassar professores sem nenhuma razão justa. Um enviado do governo federal, na Reitoria, foi entrevistar então os signatários, solicitando com maneiras corteses que se retratassem, retirando as assinaturas. Ele, Cirne Lima, se negou, recusando o argumento de que “Revoluções não cometem erros”, e preveniu o entrevistador do perigo que seria solicitar tal coisa dos professores Brito Velho, que viriam a seguir. Resultou que os que se negaram a se desdizer foram cassados.

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O Eichmann de Hannah Arendt

Prof. Dr. Adriano Correia (UFG)

Este texto foi publicado no dia 30 de junho na Revista Estado da Arte,
inaugurando a parceria com a Coluna Anpof

 

Em um ensaio em homenagem a Bertolt Brecht para a revista The New Yorker (1966), coligido posteriormente na obra Homens em Tempos sombrios (Companhia das Letras,), Hannah Arendt menciona um trecho das notas de Brecht à obra A Resistível ascensão de Arturo Ui (1941), uma sátira da ascensão de Hitler ao poder: “Os grandes criminosos políticos têm de ser expostos de todos os modos, e especialmente pelo ridículo. Porquanto eles são acima de tudo não grandes criminosos políticos, mas os perpetradores de grandes crimes políticos, o que de modo algum é a mesma coisa. O fracasso nos empreendimentos de Hitler não significa que ele era um idiota, e a abrangência dos seus empreendimentos não significa que ele era um grande homem”.

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O RACISMO, ESSA BESTA NUNCA DORMENTE Uma reflexão a partir de Hans Jonas

Jelson Oliveira 1

Há tanto racismo na filosofia quantos foram os seus autores, quase sempre homens, quase sempre brancos, quase sempre europeus ou norte-americanos. Compreendido como conjunto de teorias que tentam legitimar a superioridade de uma raça ou de uma etnia sobre a outra, nossa história coleciona horrores como aqueles que aparecem em afirmações de Hegel, para quem o negro era um homem selvagem, indomável e carente de valor e caráter 2 , de Kant, para quem os africanos não teriam nenhum talento ou sentimento que os elevasse acima do ridículo 3 , de Hume, que afirmou sem pestanejar que os negros eram inferiores aos brancos 4 ; de Voltaire, Tocqueville e tantos outros 5 . Falou-se o pior contra negros, indígenas e judeus, árabes e asiáticos. Com sua força cultural, a filosofia, assim, não saiu incólume da agrura dos tempos e, como tal, sujou-se bastante nas suas improbidades. E delas precisa se limpar, vez ou outra.

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CRIACIONISMO: CIÊNCIA, RELIGIÃO OU IDEOLOGIA?

Wendel de Holanda P. Campelo*

Muitos cientistas e filósofos tendem a tomar a oposição entre religião e ciência como sendo o ponto central da querela entre criacionismo e evolucionismo, no entanto, isso é somente uma maneira parcial de enxergar o problema. Os criacionistas hoje em dia não estão mais tão preocupados em rivalizar com a ciência; digamos que eles já tenham "evoluído" quanto a esse ponto. O que eles querem, na verdade, é que seu dogma religioso se torne também um dogma científico.

Um bom exemplo disso é a teoria do "Design Inteligente" criada como alternativa ao evolucionismo [1]. Antes de tudo, é importante notar que não existe propriamente um debate acadêmico real entre criacionistas e evolucionistas, mas somente uma tentativa, insuflada por esse ambiente de pós-verdade, de alguns seguimentos da sociedade em questionar a validade da teoria darwiniana. Neste contexto, a fé religiosa torna-se uma poderosa ferramenta de desinformação, cujo apelo às crenças e às emoções são sobrepostas à avaliação racional [2]. Em contrapartida, muitos desqualificam o criacionismo simplesmente como uma espécie de pseudociência ou charlatanismo. Porém, isso é somente um modo de atacar o problema por um viés assaz epistemológico-normativo (e talvez dogmático), sem considerar o importante papel da religião na sociedade.

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HOMENAGEM - Memória do professor José Cavalcante de Souza

Prof. Dr. Cassiano Terra Rodrigues

 

Há poucos dias, tive a notícia do falecimento de José Cavalcante de Souza, de quem fui aluno por uns poucos semestres no início da minha graduação. Em princípio, não planejei escrever nada, mesmo porque meu contato com ele foi reduzido. Mas nesses tempos de tantas perdas e poucos ganhos, achei que talvez meu relato pudesse trazer algum alento a qualquer pessoa e talvez ajudar a construir uma memória coletiva daqueles anos, não apenas distantes, mas tão diferentes do que vivemos hoje que a mim ao menos parecem ter acontecido numa outra galáxia.

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RAHEL JAEGGI E A RECONSTRUÇÃO PRÁTICO-MATERIALISTA DA TEORIA CRÍTICA

José Crisóstomo de Souza,
Professor do Departamento de Filosofia da UFBA e membro do GT Poética
Pragmática, de pesquisa, discussão e elaboração em filosofia.

 

Retomo o que comecei a dizer em coluna anterior 1 a propósito da Teoria Crítica, alemã e de Jaeggi em particular, agora assinalando o que considero interessante em sua proposta deweyano-hegeliano-marxiana para um desenvolvimento filosófico materialista e prático. Farei isso em confronto com posições marxianas, de quem acho dá para aproveitar para isso um lado inexplorado: seu materialismo prático-material, não dialético-negativo. Se se trata de tornar a TC não só mais pragmatista, mas também mais materialista, como Jaeggi nos diz que gostaria, não é sem cabimento envolver Marx na discussão; ele é a matriz originária da TC, matriz à qual essa permanece atrelada de várias maneiras.

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Enem 2020 e a pandemia do novo coronavírus ou breves considerações sobre meritocracia

Prof. Me. Rafael Costa (Escola de Aplicação – UFPA)

 

Desde o final de março de 2020, quando divulgou o cronograma original para a realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) desse ano, o Ministério da Educação (MEC) se viu em mais uma situação extremamente polêmica e de acirramento de tensões políticas. Em pleno crescimento da curva de contágio e mortes pela Covid-19, em meio ao início da adoção das medidas de distanciamento e isolamento social, da suspensão completa das atividades não essenciais e das aulas presenciais no território nacional, sem que houvesse ao menos o vislumbre de retomada dessas atividades, o exame deveria ser realizado em novembro de 2020.

As críticas por parte de diversos setores da sociedade, e sobretudo dos/as estudantes, foram abundantes e incisivas. Diante de uma sociedade aturdida pela pandemia do novo coronavírus, com sua vida normal suspensa e sem previsão de retorno, e com a interdição de muitas vidas, ceifadas pela doença causada pelo vírus, não parecia oportuno organizar a realização de um exame, ainda mais um exame a ser aplicado em novembro, período em que tradicionalmente ocorrem as provas; portanto, demonstrando claro descompasso entre o cronograma apresentado e a crise sanitária e social instalada no país.

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Vários mundos para uma só pandemia: contra a universalidade do discurso filosófico

Érico Andrade
Filósofo, psicanalista em formação e Professor UFPE

Introdução

Já é possível preencher prateleiras de estantes com os textos produzidos sobre a pandemia. Mais do que isso: sobre o mundo pós-pandemia. A latitude desses textos é imensa e ampla. No entanto, a tendência aos diagnósticos globais e às soluções universais parece coordenar essas produções, sobretudo filosóficas, para um eixo comum: a negligência em relação ao contexto cultural e ao impacto local da pandemia. Nesse sentido, o mundo pós-pandemia se apresenta muitas vezes como um espelho de certa discursividade filosófica muito mais apaixonada por si mesma do que disposta a perceber as diferenças sociais que o Coronavírus acentua muito mais do que elimina.

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Josef K. sendo Josef K., como um cão!

 
Daniel Arruda Nascimento
Professor da Universidade Federal Fluminense
e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo

 

Na biblioteca de Praga, encontrou-se na primavera uma folha solta que assim dizia: 

“Dirigiu-se imediatamente à casa do pintor, que morava num subúrbio situado em direção completamente oposta àquela em que se encontravam os cartórios do tribunal. Era uma região mais pobre ainda, as casas mais escuras, as ruas cheias de sujeira, flutuava lenta na neve derretida. No prédio em que morava o pintor, estava aberta apenas uma folha do grande portão de entrada: nos outros, porém, havia na parte inferior da parede uma abertura de onde, exatamente quando K. se aproximava, irrompeu um líquido repulsivo, amarelo, fumegante, diante do qual algumas ratazanas se refugiaram no canal mais próximo 1 . Para chegar à casa de Titorelli, Josef K. apressou o passo por inúmeras e pequenas vias, dobrou esquinas perturbadoras, atravessou a Ponte dei Pugni e entrou em uma viela sem nome estreita e comprida. No caminho, passou por algumas pessoas que carregavam máscaras nos rostos, abaixo de olhares amedrontados e acusatórios. Pensou ver conhecidos, um contínuo que trabalhava no banco, mas não havia como ter certeza. Estava sem a sua máscara, sentia-se nu ao confrontar-se com a situação que configurava a desconhecida cidade que a pandemia havia instalado. As autoridades sanitárias estabeleceram uma duradoura quarentena por causa da dispersão do coronavírus (em um conceito, a fim de agradar aos filósofos que porventura vierem a ler esta história de amor incompreendido e fracasso inevitável: ‘distanciamento social’). Sem encostar nas paredes, K. subiu a escada no endereço indicado pelo industrial que havia atendido no banco onde ganhava o seu sustento. Não podia deixar de considerar que ter recebido aquele respeitável cliente era uma dádiva, embora o desconforto de saber que o seu segredo era comentado entre poderosos não houvesse se dissipado nem sob o impacto do vento fresco da rua.

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Injustiça epistêmica e a questão racial

 
Manoel Pereira Lima Junior 1

 

Um pensador negro norte-americano, Luvell Anderson, escreveu um artigo intitulado Injustice Epistemic and Race of Philosophy (Injustiça Epistêmica e Filosofia da Raça). Luvell começa fazendo referência ao slogan “Black Lives Matter” e às maneiras de interpretá-lo. Segundo ele, há duas leituras: uma inclusiva, que para o movimento significa que “vidas negras importam” (também); e outra exclusiva, que os opositores interpretam como (apenas) “vidas negras importam”. De acordo com Luvell, a segunda interpretação provoca injustiça epistêmica.

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