Coluna ANPOF

Por um Ponto de Vista Prático-Poiético, Produtivo, Nosso, em Filosofia (aqui em diálogo crítico-reconstrutivo com Marx)

José Crisóstomo de Souza

 

Apresentação

Na Coluna Anpof, em dezembro de 2016, nos começos da gestão da atual diretoria, encabeçada por Adriano Correia, iniciou-se uma rodada de discussões sobre o reconhecimento e a formulação do desafio de fazer filosofia no Brasil, desafio que talvez para alguns nem se ponha, instada por uma provocadora declaração da diretoria anterior, encabeçada por Marcelo Carvalho, sobre uma nova fase para a comunidade filosófica brasileira, de amadurecimento e autonomia. (1) Foram vários os colegas que se agregaram à discussão proposta, como Julio Cabrera e Vladimir Safatle, Carla Rodrigues e Renato Noguera, Hadock-Lobo e Renato Janine, Ivan Domingues e Paulo Margutti (em entrevista), à qual somou-se – ora, viva! - a apresentação de algumas expressões realizadas de “filosofia autoral” brasileira, como em particular Giannotti (entrevista), Oswaldo Porchat e Mangabeira Unger. O que se segue é uma formulação minha, nessa última linha, tendo em vista que o que seria mesmo isso, fazer filosofia no Brasil, nas variadas feições que pode assumir, permanece tanto mais nebuloso e inatingível quanto menos for tentativamente levado à prática. Trata-se, portanto, de um ensaio e um convite aos colegas, para que sobre esse tipo de contribuição também se desenvolva uma discussão – agora de filosofia mesmo, não apenas sobre ela. Hic Rhodus, hic salta!


O que se segue, na forma de um recorte e de uma condensação muito abreviada, tem como base uma elaboração bem mais extensa e prolongada, em parte já publicada, que começa com o que escrevi sobre hegelianismo “de esquerda” (Nietzsche aí incluído) e sobre Marx, como filosofias da prática, que basicamente expõe o que seriam seus (de Marx) vícios essencialistas e substancialistas (por uma leitura minuciosa, mas a contrapelo, e por uma ampla discussão com comentadores.). Que passa em seguida pela exploração de uma ideia minha de “filosofia como coisa civil”, e prossegue por um exame dos pontos de vista dos pragmatismos clássicos, mas também de Rorty e Habermas, e da discussão contemporânea, próxima - como definição de um “terreno” de interlocução para uma elaboração filosófica para os nosso dias e nosso contexto. Para chegar por fim ao esboço de uma formulação alternativa, própria, em diálogo com tais referências, ainda que embrionária, e chegar também à sua discussão, como work in progress, como já se tem dado, em papos em La Plata (Arg.), na New School NY), nos encontros Internacionais de Pragmatismo da PUC-SP. Com alguns colegas generosos o suficiente para se ocuparem de apreciá-la, como Rorty e Richard Bernstein, Cristina di Gregori e André Berten e, mais estreitamente, Waldomiro José da Silva Filho e Paulo Margutti. (2)

 

Introdução

O que exponho aqui resumidamente são alguns delineamentos para um “paradigma da produção” renovado, em filosofia, para o que chamo de um ponto de vista poiético- pragmático, ou ainda de um materialismo prático-poiético (de poiesis, produção, criação), que pode ser entendido como situando-se entre pragmatismo, neopragmatismo, hegelianismo e Marx (enquanto filósofo). Os delineamentos são aqui apresentados junto com mais elementos apenas insinuados, pois os aspectos em que se pode desdobrar aquela posição revelam-se muito amplos e variados. Trata-se de um ponto de vista prático marcado por uma nova ênfase na dimensão material sensível, produtiva, criadora, da ação humana, e de nosso decorrente envolvimento prático sensível com o mundo. Articulado por recurso a noções tais como poiesis, como intencionalidade sensível significadora, conhecimento como know how, noções de nós e do real como atividade sensível, do mundo como artefato, da sociedade como uma trama de práticas, relações e objetos, etc. O que envolve como consequência a revisão e rearticulação de outras tantas noções filosóficas tradicionais como representação, correspondência, fundamentação normativa, experiência, conhecimento, etc. Por fim resultando em uma moldura geral que pode ser chamada de holismo objetual materialista e histórico.

Trata-se de um ponto de vista prático-poiético, sensível, que, depois de tudo, entre outras coisas permanece próximo de certos elementos básicos do pragmatismo, tirando deles novas consequências, mais espessas. Refiro-me a elementos tais como a sentença de Alexander Bain (uma crença é um hábito ou disposição de ação), como a máxima peirceiana do pragmatismo (a noção de um objeto como sendo a de seus efeitos de alcance prático), como o protagorismo de Ferdinand Schiller e William James (o rastro da serpente humana está em toda parte), como o ponto de vista do agente, de John Dewey, e também sua noção alargada de experiência e do real como prática. Fora do campo pragmatista em sentido estrito, pode-se ainda incluir nessa lista outras convergências, como com elemento pragmatista de Heidegger - sua tematização, nada linguocêntrica, da Zuhandenheit, manualidade, para mim usualidade, como nosso modo de relação mais originária e básica, usuária, com as coisas, com os artefatos e com o mundo. Além de sugestões práticas e materialistas (!) do Hegel da Fenomenologia do Espírito, do jovem hegelianismo, e também darwinianas do Nietzsche de “Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral”. Por último, vale reconhecer aproximações do referido ponto de vista com o voluntarismo e modernismo filosóficos franceses da ação, também com o espírito do modernismo em geral, do português, de Quental, do modernismo (e anti-ascetismo) brasileiro em particular, Oswald de Andrade e Gilberto Freyre, do hegelianismo desenvolvimentista do ISEB e de Mangabeira Unger. Esse, pois, é o campo. Vamos então ao referido ponto de vista materialista prático-poiético a partir do diálogo crítico – reconstrutor - com Marx.

Os Elementos Prático-Poiéticos de Marx

O ponto de vista materialista de Marx pode ser entendido como apresentando os seguintes elementos prático-crítico-poiéticos (ver, p. ex., as Teses ad Feuerbach):
-1) Uma recusa do empirismo dogmático, intuicionista-passivo, mentalista-cartesiano (a uma variante do qual entretanto Marx sucumbe alhures), bem como uma rejeição do idealismo subjetivo;
- 2) Uma superação da concepção do mundo e do sujeito como estáticos, exteriores um ao outro, e, logo, tomara, o abandono do ponto-de-vista do espectador e da fixação objetivista-representacionista do real;
- 3) Uma noção – ainda que ambígua - de verdade e objetividade como poder e efetividade de um pensamento verificados na prática (mas não “provenientes” dela);
- 4) Uma desqualificação do indivíduo abstrato da percepção empirista, a ficção do indivíduo dissociado do conjunto das suas relações sociais e de uma forma de vida determinada, embora, entretanto, uma desqualificação envolvida em uma essencialização e mesmo substancialização, necessitaristas / deterministas, dessas relações.
- 5) Uma concepção da realidade como atividade sensível (logo, como subjetiva), e de nós próprios também como ativos-sensíveis (Teses e Ideologia Alemã) - bichos que põem objetos e são postos por objetos (Manuscritos de 44, Crítica da Dialética e da Filosofia Hegelianas em Geral).
- 6) Tudo isso atravessado por uma sugestão de “epistemologia política”, i.e. de congruência de pontos de vista filosóficos e políticos com posições / pontos-de-vista (Standpunkten) sociais materiais, um contextualismo e um perspectivismo a que Marx talvez não seja fiel ele próprio (Teses, Ideologia Alemã, O Capital)
- 7) Junto com esses elementos pragmático-ativistas, uma crítica do real social como ao mesmo tempo essencialmente cindido e atomizado pelas “más” (conflitivas, assimétricas) relações e práticas sociais imperantes, que acarretariam, no plano do espírito, uma cisão / duplicação/ inversão do mundo também na religião, na filosofia, na ideologia.
- 8) Uma dedução/ tradução, especulativa, a partir do cristianismo, do fundamento de sua Crítica: um fundamento alegadamente mundano, mas essencializado: “o homem” como essencialmente genérico e ser supremo para os homens. O qual, introduzido na economia política pela noção do trabalho / produção como essencialmente (sic) social (dos Manuscritos a O Capital), determinaria - por necessidade - o rumo da supressão prática da Contradição (cindidora/ atomizadora/ inversora) e a restauração da plena unidade-solidariedade social, com o fim da auto-alienação do “homem”, no Comunismo.

Nosso Emaranhamento Prático, Sensível, Criativo, como o Mundo

O que se pode derivar daí para uma reconstrução crítica de Marx é um ponto de vista que parta mais consistentemente de nosso originário emaranhamento sensível, prático, produtivo, estético, imaginoso, usuário (Heidegger), com o mundo. Emaranhamento a partir do qual realidade, conhecimento, ação, consciência e normatividade devem ser reconcebidos. E isso de uma maneira que de um lado se distinga 1) de um realismo empirista representacionista-mentalista (para Marx, o “materialismo anterior” ao seu), entendido por mim como pouco interessante para a realização das disposições livres, prático-criadoras, (auto-)transformadoras, dos seres humanos. Mas que, de outro lado, distinga-se também de 2) um anti-representacionismo linguocêntrico, pós-metafísico, v.g. Rorty, que, embora disposto ao reconhecimento, ao seu modo, de uma dimensão social, não-fundacionsta, da nossa relação com o mundo, revelando assim preocupações antidogmáticas, democráticas, semelhantes às nossas, é insuficientemente aberto à dimensão material-sensível, produtiva, de nossas práticas, o que o envolve em anti- realismos, relativismos, ceticismos, agnoticismos e ascetismos – “de filósofo”. Trato de avançar na articulação desse ponto de vista, que chamo de poético-pragmático, pela via de uma combinação de não-representacionismo prático e materialismo poiético - aqui sugerida como possivelmente mais apropriada às nossas circunstâncias enecessidades - com base na utilização de quatro noções principais:

-  a) Uma noção de intencionalidade prático-sensível, significadora, como nosso modo prático intencional – ativo, deliberado - de dirigirmo-nos às coisas (tomá-las ou produzi-las) e de assim lhes darmos significados e assim delas formarmos noções,
- b) A noção da atividade pôr objetos, nesse caso, como uma em que, magrado Marx, o ato de pôr é que se afirma (cf. Manuscritos de 44).)-
c) A noção de ação humana como pervasivamente poiésis (fazer criador que introduz “coisas” – no sentido mais geral - no mundo), e da realidade e de nós próprios como atividade sensível e artefato,
- d) A noção de objetivação de conhecimento e imaginação, na ação, pelo homem, no mundo e nas coisas,
- e) Donde, por fim, noções de significação e normatividade como constituídas, não em primeiro lugar apenas pela linguagem e seus usos, mas pela nossa prática usuária, social, de lidar com o mundo e as coisas, orientada por propósitos, apoiada em e permanentemente modificada/ modificadora por/de objetos.
- f) Isso em oposição à ideia de significação como em primeiro lugar linguística, e de uma normatividade 1) deduzida, de modo fundacionista, da religião “traduzida”, ou 2) lida para dentro da realidade por uma filosofia dogmática da história e da economia, ou ainda 3) postulada por um universalismo abstrato, transcendental, a-histórico – ou mesmo alguma combinação disso tudo.

Um Holismo Dialético, Prático-Material, Cultural. Lebensweise / Produktionsweise

Assim chegamos a uma concepção prática, holista-materialista, objetual e objetivacional, do mundo, da cultura e de nós mesmos, segundo a qual os seres humanos, para seus propósitos, permanente põem/criam artefatos e práticas, e são por sua vez postos/ constituídos /criados por eles, e pelas práticas, competências e relações que permanentemente cobram, engendram e subvertem, tanto quanto sustentam. (Homens e coisas aqui como produktive Kräfte, forças produtivas, mais ou menos como em Guyau, Nietzsche ou Marx)). Chegamos a uma concepção da sociedade como um agregado de práticas, envolvidas com o uso ou a criação de objetos e objetualidades, sendo elas próprias (práticas) também objetivações nossas, que encontram em objetos seu suporte e que envolvem relações nas quais esses têm papel constitutivo.

No começo, então, está o ato (Goethe) - e, logo, o artefato. Parafraseando Marx, a dialética desse novo materialismo prático-poiético fica assim: Na criação e no uso de objetos, os seres humanos desenvolvem entre si relações múltiplas e cambiantes, enquanto desenvolvem novas práticas e produzem novos objetos, artefatos, coisas e práticas. A criação de novas práticas, objetos e usos enseja novas relações e novas formas de subjetividade entre os seres humanos, constituindo / apropriando um mundo nosso, constituindo-nos a nós próprios, e constituindo assim o que chamamos de mundo e de história. Tal dialética enseja relações boas ou más, restritivas ou propiciadoras (desse labor criativo), que passam de uma coisa à outra pelo desenvolvimento de humanos, artefatos e competências produtivas.

Não há por que supor que semelhante dialética se dê apenas na produção de bens ditos materiais, na base da sociedade (como em Marx), pelo uso predominante de grandes e pesados meios de produção, por grandes coletivos humanos por essas condições arregimentados e homogeneizados. Nem porque supor que ela (dialética) não se dê também na prática geral dos seres humanos de criar, usar e reproduzir, como inevitavelmente entrelaçados, objetos, ideias, práticas, vocabulários, instituições (todos, enfim, artefatos e objetivações nossas), e de nos produzir assim a nós próprios e ao mundo - como artefatos. Nesse caso, deve cair o rígido dualismo infraestrutura- superestrutura, material-espiritual, não havendo por que entender que há pensamento, mas não materialidade e produção, no nível da atividade dita supraestrutural, e que não há pensamento, mas apenas materialidade, no nível da chamada infraestrutura, em práticas consideradas como as únicas produtivas em sentido estrito. Et voilá um materialismo prático-transformativo, “espiritualizado”, histórico, desessencializado e des-substancializado, não-determinista, democrático, pluralista, uma melhor conversão “materialista” de Hegel - como ponto de vista destranscendentalizado, contextualizado e civil, em filosofia. Que põe no mesmo barco todo tipo de atividade humana (econômica, política, científica, artística, moral, filosófica) e seus respectivos produtos, enquanto sempre, inevitavelmente, tanto materiais quanto espirituais.

*

Conclusão: Democracia Material. Algumas Consequências Políticas, Sociais e Econômicas

Bem entendido, tanto em Marx, contraditoriamente, como no pragmatismo, tacitamente, pode haver uma alegada congruência entre ponto de vista filosófico geral (como o pragmatismo e o materialismo histórico), seu contexto e suas consequências políticas e sociais. No primeiro caso, o comunismo como sociedade humana e desenvolvimento de um novo homem nunca visto, plenamente social. No segundo, a democracia como forma de vida e de florescimento humano. No nosso caso, o ponto de vista poético- pragmático dá suporte a uma noção materialista prática de cidadania como empoderamento criativo por capacidades e meios, sem que isso implique necessariamente em consequências coletivistas ou liberais-individualistas. Trata-se no nosso caso de um ponto de vista eminentemente civil.

A sociedade como um modo de vida (Lebensweise), que para Marx é o que um modo de produção (Produktionsweise) é, uma forma de vida (Lebensformen), como vimos, pode ser entendida como um agregado de práticas reprodutoras e produtoras (também Rahel Jaeggi), mas suportadas por objetos. E constituindo objetivações instituições, etc., nas quais as relações entre pessoas e com o mundo decorrem de sua (dos objetos) introdução por nós mesmos, por nossa imaginação, propósitos e cálculos, e “nos fazem” quem somos – em permanente mudança. Numa sociedade assim compreendida, podemos entender de um modo novo a relevância e o papel de recursos objetuais, de assim chamadas forças produtivas, das relações que essas propiciam, cobram, condicionam ou rompem, na medida em que as possam favorecer ou limitar, e neste caso entrar em conflito com elas em benefício de relações novas. Forças produtivas que compreendem em primeiro lugar os indivíduos humanos como criadores, objetivados de/com suas potências, competências e recursos.

Por essa via pode-se constituir uma noção de cidadania material, produtiva, econômica, não passiva, protagonista, realizadora, criadora de valores, ficando então a democracia como uma forma de vida também material e produtiva, que envolve um empoderamento de todos por suas competências e meios. Aí onde estão as práticas de reposição da sociedade, numa forma de vida como conjunto de práticas de sua reprodução, podem-se também desenvolver e efetivamente se desenvolvem práticas de sua transformação mediada por objetos. Estamos assim de volta à associação de progresso e democracia ao avanço, difusão e democratização de competências, recursos e capacidades (ou forças) produtivas, também objetivadas em práticas, artefatos e instituições – meios materiais.

Pelo que eu chamaria de uma proposta de democratização econômica, material, produtiva, das sociedade. Um ponto de vista menos inclinada a admitir determinadas práticas ou pontos de vista como “transcendentais”, como de uma natureza totalmente outra, em detrimento das comuns, do comum dos homens, concebidas como de natureza degrada (em Marx, “judaica”, “suja”, alienada). É isso que chamo de filosofia como coisa civil.

 

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(1) Cf. Souza, José Crisóstomo de. “De como ainda não fazemos filosofia mas bem podemos começar a fazer”, Coluna da Anpof, 1º de dezembro de 2016. Este outro texto, de agora, reflete a plataforma do nosso grupo de pesquisa e elaboração, o Poética Pragmática, e o espírito de boa parte das sua dissertações e teses.
(2) Desse percurso de produção destaco 1) o “Marx and Feuerbachian Essence”, em The Left Hegelians, Cambridge U. Press, 2) A Filosofia entre Nós, com Janine, Porchat e Tugendhat, ed. Unijuí, que inclui o “Filosofia como Coisa Civil”, 3) o Filosofia, Racionalidade, Democracia: O Debate Rorty-Habermas, Ed. Unesp, e 4) meus materiais mais recentes em Cognitio (PUC-SP), ns. 13, 16, 18 (este com W. da S. Filho). Para um panorama mais completo desse percurso de produção e diálogo, ver ainda www.jcrisostomodesouza.ufba.br/.

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