HEIDEGGER PROFESSOR DE HANS JONAS: NO DIA DOS PROFESSORES/AS, UMA LIÇÃO DE FILOSOFIA

JELSON OLIVEIRA
Professor do Programa de Pos-Graduação em Filosofia da PUCPR

Entre as páginas das Memórias de Hans Jonas, estão linhas de profundo e emocionado reconhecimento a respeito da importância de seus mestres na sua formação intelectual, em especial de Martin Heidegger.

Jonas, então com 18 anos, tinha decidido estudar filosofia e, para isso, fora atrás dos grandes nomes de sua época, entre os quais estava Edmund Husserl, professor em Friburgo. Mas foi aí também que ele se encontraria com aquele que marcaria de forma tão fecunda e tão dramática o seu pensamento: um jovem e ainda desconhecido professor, que logo lhe cativaria por completo - como a tantos outros jovens que lhe cercavam: Martin Heidegger, desde então, era considerado “muito mais difícil que Husserl mas também um brilhante pedadogo”. A partir de um encontro fortuito no primeiro semestre de 1921, Jonas passa a frequentar as aulas do futuro autor de Ser e Tempo, sobre Augostinho e o neoplatonismo.

As aulas, nessa época, eram de dois tipos: as chamadas “aulas magistrais” eram aulas expositivas, nas quais o professor falava e os alunos anotavam, quase sem nenhum debate; e os seminários, nos quais se requeria participação ativa dos estudantes. Jonas descreve essa experiência com palavras emocionadas: “Heidegger, cujas aulas magistrais eu não compreendia praticamente nada, era muito claro nos seminários e conseguia fazer com que os alunos se envolvessem. Fazia com que os estudantes lessem uma frase do texto e então perguntava: ‘Como você entende isso?’, ‘O que diz aqui Aristóteles?’, ‘O que significa esta palavra que utiliza’. Ele era magnífico e inclusive eu o compreendia.”

Jonas descreve uma metodologia cativante e complementar, para reconhecer em Heidegger um verdadeiro mestre, um professor entusiasmado e preocupado com os seus estudantes. Não se tratava apenas alguém que transmitia informações, mas que completava a sua tarefa com aulas mais interrogantes e dialogais. Jonas relata a capacidade de encantamento provocada por Heidegger nas chamadas “aulas magistrais”: ele lia os textos no original em latim e falava de forma tão excitante, que seus estudantes sabiam que estavam diante de um acontecimento especial. Jonas confessa: “eu me lembro que não entendi nada de sua exposição, mas eu tinha a estimulante sensação de que ali se falava sobre o Todo e que a questão era enfrentada de maneira substancial”. E o mais firme e emocionante - algo que eu mesmo tive o privilégio de sentir em muitos momentos de minha vida como estudante de filosofia e que desejaria que todo estudante ainda tivesse o prazer de experimentar: “Tudo aquilo superava a minha capacidade de compreensão, mas alguma coisa atravessava a minha alma, isto é, o convencimento de que eu estava diante de uma filosofia em devir: meu ouvido era fiador daquelas preocupações filosóficas, enquanto minha consciência testemunhava os resultados daquela filosofia”.

Com essas palavras Jonas atesta aquilo que viria a explicar porque Heidegger reuniu mentes tão brilhantes ao seu redor: sua filosofia e seu modo de comunicá-la estavam cercadas do mistério próprio das grandes filosofias. Nisso, diz ele, “a profundidade do pensamento de Heidegger era extremamente fecunda, não era possível guardar nenhum só instante a suspeita de que aquilo era mero teatro”. E o aluno acrescenta: “no geral, eu me sentia como diante de um grande mistério, mas com o convencimento de que valia a pena converter-se em um iniciado”. Todos os estudantes sentiam-se fascinados por isso porque todos sabiam o que estava em jogo e que isso era “algo muito importante”, embora não compreendessem bem ainda o que significava.

Jonas lembra que, mesmo antes da publicação de Ser e Tempo, Heidegger já tinha conseguido bastante fama entre os estudantes iniciantes, que saiam de suas aulas comentando: “Aqui se aprende filosofia”. A frase resume a grandiosidade da experiência que pode acontecer todos os dias, entre professores e estudantes de filosofia que se deixam atravessar pelo mistério que percorre e a força que vigora nos textos filosóficos. Mas a constatação também celebra a grandiosidade do ato de ensinar filosofia nesses dois modos: com a retórica que emociona, cativa e arrebata; e com a provocação e o diálogo que elucida, ensina e envolve.

Assim, o que Heidegger ensinava não era apenas uma ideia ou um conceito. A principal lição de sua filosofia parece ter sido mesmo a única que caberia a um filósofo do seu porte: instigar os seus estudantes a tal ponto que eles se voltassem contra ele mesmo. Talvez isso explique porque, entre esses alunos, quase todos quiseram superar o mestre. Estavam todos aprendendo a mesma lição. Talvez por isso, mais tarde, o próprio Jonas criticará a atitude de bajulação adotada por muitos estudantes, que ao invés de discípulos tornavam-se devotos.

Quando a filosofia está tão atacada e desvalorizada e quando muitos de nós detectamos desânimo e descrença em relação ao futuro por parte de nossos estudantes, que possamos celebrar sempre de novo esse encontro com o fascínio que desperta em nós o ser adormecido, ao tempo em que nos abre para a experiência da docência como atividade de provocação, como chamado e convocação em relação ao que é o mais importante e o mais fundamental de tudo. Heidegger, foi filósofo em sentido pleno porque foi, sobretudo, um professor completo. O que Jonas testemunha seja luz para nossa atividade docente também hoje, também aqui.

FaLang translation system by Faboba

Todos os Posts