Angela Davis, a filósofa na cidade

Yara Frateschi
(Professora Livre Docente do Departamento de Filosofia da Unicamp)
Laíssa Ferreira
(Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unicamp)

 

Sócrates estava correto quando “afirmou que a razão de ser da filosofia é nos ensinar a viver de maneira apropriada. No nosso tempo, viver de maneira apropriada significa a libertação dos problemas urgentes da pobreza, necessidade econômica, doutrinação e opressão mental” (Angela Daivs, Lectures on Liberation).

Vire e mexe pessoas da comunidade acadêmica nos repreendem: “vocês estudam Angela Davis, a ativista?”. “Sim”, respondemos, “nós estudamos a filósofa e ativista Angela Davis”.

Pensando melhor agora, depois da sua vinda a São Paulo neste outubro de 2019, estamos encorajadas a suprimir a conjunção e responder: “sim, colega, nós estudamos a filósofa ativista Angela Davis”. Ou seria a ativista filósofa? Não importa a ordem, pois, para ela, na esteira de Marx, a filosofia deve almejar a transformação do mundo.


De fato, Davis é uma filósofa bem particular. Quem teve a oportunidade de vê-la palestrando e dialogando com as pessoas na sua breve passagem pela cidade deparou-se com alguém que insiste em livrar-se do manto sagrado que envolve a figura clássica do filósofo. Resistindo gentilmente ao protagonismo que lhe queriam imputar, ela pedia às pessoas que se descolonizassem e lessem Lélia Gonzales, “que tem mais a ensinar a vocês do que eu”. 

Da sacralidade que muitos intelectuais adoram cultivar para si mesmos, ela se despia para participar da vida em comunidade, falar com as pessoas, ouvir as suas demandas e com elas aprender. Interessada nos movimentos sociais e nas lutas da nossa época, Davis foi visitar Preta Ferreira e preferiu ir à Escola Nacional Florestan Fernandes do que à Universidade de São Paulo. Parece que, para ela, a filósofa não deve ficar em seu gabinete elaborando diagnósticos, detectando patologias, decretando a morte disso, o colapso daquilo. O pensamento parte do mundo e para o mundo deve voltar. A filósofa ativista não olha apenas para as forças que correm pelas costas dos sujeitos, mas também para os sujeitos em ação e resistência. Ela está interessada em quem luta pela liberdade, porque a liberdade – conceito filosófico central – é uma luta constante.

Mais socrática do que platônica, Davis pratica a filosofia dialogicamente, com os outros e não apesar deles. Diferentemente de Kant, para ela os princípios com os quais o filósofo trabalha não são estabelecidos e fundamentados lá no domínio solitário da razão pura. Ele não precisa “descer” para o mundo para popularizar os conceitos filosóficos, se abdicar de “subir” monologicamente para o domínio protegido de uma racionalidade universal, que é um truque usado, via de regra, para excluir da razão teórica (e também da democracia) as mulheres, os não brancos, os pobres. A filósofa ativista opta, então, por ficar aqui embaixo na cidade, exercendo o pensamento com aqueles que foram impedidos de furar a barreira do “universal”.

Em 2014, provocada a sumarizar a sua visão de filosofia, ela diz: “Para mim a filosofia é uma atitude crítica em relação a todas as coisas, é o aprendizado de como levantar perguntas mesmo sobre aquilo que assumimos ser inquestionável. Foi isso o que eu aprendi estudando filosofia e teoria crítica: devemos estar dispostos a testar até mesmo aquelas categorias que usamos para tentar compreender o mundo” (Explorations in Black Leadership, 2014).

Diversos exemplos poderiam ser dados aqui para ilustrar o seu fazer filosófico. A título de ilustração escolhemos propor às leitoras e aos leitores que prestem atenção ao modo como Angela Davis, ao longo do tempo, elabora e reelabora a categoria “mulher”.

Lendo Mulheres, raça e classe (de 1981) nós aprendemos – e confirmamos na sua conversa com a plateia no Sesc Pinheiros (em 2019) – que Davis aborda o feminismo de maneira interseccional. Antes mesmo do termo ter sido cunhado por Kimberle Crenshaw em 1989, ela defendia que as opressões de gênero, raça e classe não podem ser separadas se não queremos nos contentar com a libertação das mulheres brancas de classe média. Assim, na obra de 1981 a categoria “mulher” é posta à prova das lutas por liberdade, experiências e perspectivas das mulheres negras e da classe trabalhadora, o que provoca a redefinição da categoria e, ao mesmo tempo, permite à Davis a elaboração de uma teoria complexa das relações de poder nas sociedades capitalistas, racistas e sexistas.

Mas a filósofa não para por aí, aliás, ela não para nunca se estiver conectada com as lutas por libertação e aos desejos da sua época, parafraseando Marx.  Em texto de 2013, tantos anos depois de ter desvelado que a “universalidade” da categoria mulher escondia e abafava as experiências de opressão e agência das mulheres negras e trabalhadoras, Davis nota que essa categoria, que já havia sido ampliada, não estaria expandida o suficiente se não abarcasse outras experiências: “a das mulheres latinas, indígenas, e assim por diante” (Feminismo e abolicionismo: teorias e práticas para o século XXI). “Assim por diante” explicita que a função da filosofia é colocar as definições e categorias sempre à prova da crítica: eis a condição da sua conexão com a realidade e o sinal do seu compromisso com a liberdade, que é uma luta constante.

Seguimos adiante deixando o pensamento aberto às demandas concretas por liberdade e logo a categoria “mulher” requer ser novamente ampliada para abarcar as mulheres lésbicas, as mulheres trans e todas aquelas que sofrem formas específicas de opressão e violência. A filosofia é crítica constante, a liberdade é luta constante. 

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Em 1969, Angela Davis foi afastada da função de professora assistente na Universidade da California depois que o Comitê dos Regentes decidiu que ela não teria isenção suficiente para lecionar por ser membro do Partido Comunista. O discurso que proferiu para a comunidade acadêmica nessa ocasião revela a concepção que a jovem Davis tinha – e ainda tem – de filosofia. Se é evidente que o pensamento tem que ser capaz de “transcender a necessidade meramente material, o presente político e a situação econômica”, isso não significa que deva ser desvinculado da realidade humana: “Minha posição é que o conhecimento tem que transcender a realidade política imediata com o propósito de transformá-la e com o propósito de preparar o caminho para a eliminação do sofrimento humano e da miséria, a abolição do racismo e a criação de uma sociedade que reflita os interesses das pessoas que a constituem”. 
Citando Marcuse, seu orientador, ela sublinha que a censura à liberdade de cátedra serve para perpetuar a separação entre a razão prática e a razão teórica, reduzindo a efetividade e o escopo do pensamento. Contra os censores – de ontem e de hoje – Davis defende que os professores devem explicitar as suas posições políticas em sala de aula, argumentar em seu favor e provocar os alunos para que façam o mesmo. Não reproduz ideologia quem justifica as suas posições, mas quem se esconde atrás do manto da “neutralidade” para manter-se no poder barrando transformações (geralmente os homens brancos representantes do capital, como eram os censores que a afastaram no cargo).

Assim, a sala de aula, como um microcosmo da cidade, deve ser um lugar para a filósofa testar argumentos políticos e a educação (sim, a filósofa é educadora se se aventura na docência) deve ter uma intenção precisa: fazer com que as pessoas tenham preocupação genuína umas com as outras e sejam capazes de “usar o conhecimento que adquirirem para libertar os seres humanos das necessidades que os escravizam”. 

Longe de apenas interpretar o mundo, a filosofia deve servir para transformar pessoas e realidades. Longe de ser uma instituição neutra e (supostamente) sem partido, a universidade “deve ser uma atmosfera livre onde tudo possa ser submetido à atitude crítica, que é marca de uma pessoa educada”. Falando em 1969 nos Estados Unidos, ela lembra que a censura serve para negar “um dos mais cruciais aspectos do conhecimento: a sua transformação em realidade”. Estamos testemunhando isso no Brasil, exatos 40 anos depois de Davis ter elaborado essas reflexões no contexto da sua cassação e poucos meses antes do seu encarceramento.

Como Sócrates, Davis também foi considerada extremamente perigosa para a manutenção das relações de poder vigentes. “Eles têm razão para temer”, disse ela para o pátio lotado da UCLA. “Eu sou mesmo comunista” e “sustento que apenas sob reorganização socialista da sociedade nós podemos começar a enfrentar os nossos problemas materiais e erradicar a mentalidade individualista, competitiva e racista das pessoas desse país”.

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A visão que Davis sustenta da filosofia é uma resposta àquelas visões que resistem a serem efetivamente relevantes para a prática e contaminadas pela realidade. No primeiro curso que ministrou na UCLA, ela destacava que “um dos mais agudos paradoxos da história da sociedade ocidental é que enquanto no plano filosófico a liberdade tem sido delineada do modo mais sublime e elevado, a realidade concreta tem sido sempre permeada pelas formas mais brutais de falta de liberdade e escravização” (“Lectures on Liberation”).

A teoria da liberdade não pode se manter isolada da prática da liberdade: este é o ponto de partida que encaminha Davis para uma profunda revisão não apenas da filosofia, mas também de um dos mais importantes e antigos conceitos filosóficos. Fio condutor de toda a sua trajetória filosófica, a necessidade de revisão do conceito de liberdade, encoraja a filósofa ativista a trazer para dentro da história da filosofia quem jamais se imaginou digno desse convite: Frederick Douglas, W.E.B Du Bois, entre outros escritores negros que, ao longo do percurso, Davis combina com  Marx, Engels e Marcuse, entre outros, para tornar a filosofia menos racista e esquecida da realidade concreta da sujeição econômica.

Excessivamente heterodoxa aos olhos de filósofos e filósofas mais convencionais, Davis é enquadrada (pejorativamente, claro) na categoria “ativista”. Mas ela mesma não parece se incomodar nem um pouco. Nós, que a estudamos como filósofa ativista, também não. Ao contrário, entendemos que todo enquadramento categorial rígido denota medo, neste caso medo da potência teórica e prática de uma mulher negra, feminista e socialista, que bagunça a história da filosofia e faz tremer o chão estável da nossa instituição acadêmica, ainda (ainda!) masculina, branca e elitizada. Angela Davis é a filósofa que nós queremos ser. 
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