O ECOCÍDIO É UM PROBLEMA FILOSÓFICO - Uma resposta a Giorgio Agamben

Jelson Oliveira
Thiago Vasconcelos
PUCPR

É famosa (e polêmica) a pergunta irônica de Nietzsche no prefácio de Para além de bem e mal a respeito da dificuldade dos filósofos em lidar com a verdade: “supondo que a verdade seja uma mulher, não seria bem fundada a suspeita de que todos os filósofos, na medida em que foram dogmáticos, entenderam pouco de mulheres?” Os exemplos desse problema sobram ao longo da história, comprovando a hipótese de que a filosofia, embora seja reconhecida como uma busca incessante e amorosa pela sabedoria, não raro passa ao longo dela. E isso ocorre ainda mais quando o pensamento se enche de argumentos abstratos, abstraídos do mundo, fragmentados e alheios aos demais saberes. Ao que parece, quanto mais a filosofia se encerra em suas muralhas, mais riscos ela corre de se tornar dogmática e, com isso, recusar a verdade que germina dos fatos e das evidências mais habituais.

Hans Jonas, por exemplo, viu isso no seu mestre Martin Heidegger. Aquele desvio da verdade que levou o maior filósofo do século XX a flertar com o nazismo, apesar de todas as previsões e indícios, teria colocado em xeque não apenas a história de um pensador, mas a ineficácia da própria filosofia: “que o pensador mais importante e original de meu tempo participasse [do nazismo] foi um golpe tremendo para mim, não só́ pessoalmente, mas também no sentido de um acontecimento da história da filosofia que deve ser levado a sério”. E acrescenta: “durante muito tempo acalentei a ideia de que a filosofia deveria nos proteger diante de algo assim, deveria fazer invulnerável o espírito contra isso”, de salvaguardar o “espírito do extravio”. Heidegger, ao acoplar “seu passo à estrondosa marcha dos batalhões pardos” provou que Jonas estava errado; uma situação que é descrita como “o ocaso do pensar filosófico” 1 .

Uma tendência a não ver aquilo que se manifesta claramente é parte mesmo da vida que, como também insistiu Nietzsche, é feita de erro e de ilusão. O caso se agrava em nossos dias, quando pensamos na “emergência climática” (a palavra do ano 2019, segundo o dicionário Oxford). Isso porque tendemos a vivenciar de forma ainda mais forte a tendência histórica de que a verdade é sempre uma oferta de conforto. Diante das predições sobre o futuro e dos números que estão sendo disponibilizados pelas ciências da vida e do clima, prefere-se qualquer argumento que traga consolo emocional e que não perturbe o bem-estar de quem não se sente responsável pela crise, ou que não acredita nela, ou que acredita que ela vá passar por si mesma, ou que a humanidade do futuro haverá de encontrar saída por si mesma, ou, ou, ou...

Uma tal atitude, aliás, tem levado à onda de revisionismo e negacionismo que se propaga desde a boca dos políticos empenhados em confundir para governar, até o cidadão comum, rigorosamente atrelado à busca de sua paz interior. Governa-se pela mentira dos dados, negando a sua evidência com má-fé e irresponsabilidade nunca antes vistas. A ciência, nessas mentes, passa a ser vista como uma conspiração contra o progresso, tal como sugeriu Matthew D’Ancona, no seu livro Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news. Em tal cenário, os especialistas são difamados como membros de um cartel mal intencionado que pretende gerar informações cujo objetivo é atrapalhar o status quo e gerar instabilidade, pela promoção do medo, da ansiedade e do pânico. Diante dessas “emoções fortes”, prefere-se a abulia. Serve o que é divertido e agradável, não o que é verdadeiro. O emocionalmente magniloquente dos dados da emergência climática é reconhecido como exagerado e deve ser evitado a todo custo em nome do desenvolvimento. No caso do clima, “a torrente de dados indigeríveis” 2 acaba por gerar desconfiança. A verdadeira indústria multimilionária da desinformação e da propaganda enganosa tem levado à imensa onda de confusão que abastece as redes sociais e as bolhas de informação do WhatsApp com a força do inquestionável.

Um exemplo: segundo o Datafolha (14/07/2019 3 ), 11 milhões de brasileiros, ou seja, 7% da população, acreditam que a Terra é plana e 1 em cada 4 brasileiros (26%) não acredita que o homem foi à lua, enquanto 11% diz nunca ter ouvido falar em aquecimento global e 15% não acreditam nele (5% a mais do que pesquisa de 2010) e 28% acham que ele não é causado por fatores antropogênicos. Os índices desta pesquisa são bastante parecidos com os dados internacionais: nos Estados Unidos, o apoio público à climatologia caiu de 71% para 57% entre 2008 e 2010; enquanto no Reino Unido 46% da população diz não acreditar que o clima está mudando por causa da ação humana. Some-se a isso as mentiras diárias em todos os campos, que vai das “mamadeiras de piroca”, passam pelo “kit gay”, pela homenagem a ditadores, pela culpabilização das ONG’s pelas queimadas na Amazônia e chegam aos ataques sofridos recentemente pela jovem lutadora do clima Greta Thunberg, falsamente acusada de ser financiada não sei por qual ricaço do mundo, interessado em causar pânico com algum objetivo escuso. Estamos na era dos haters.

Não vamos e nem podemos defender que tudo o que se diz sobre a emergência climática seja verdadeiro. Mas as evidências não podem mais ser negadas. A antiga ideia de fim de mundo passou a ser recuperada como foco de resistência. Há mundos por vir? Cada vez mais isso depende de nossa responsabilidade, do que vamos fazer agora. A morte da geleira Okjökull, em 2014, está entre essas evidências. O aquecimento dos oceanos, os furacões, as queimadas, as secas, a mudança nos regimes de chuva, o avanço do mar sobre os continentes, uma Veneza inteira inundada, uma Amazônia queimada, a morte por intoxicação do ar, a poluição dos rios, a fome e os conflitos que afetam as populações de vários países, a entrada das girafas na lista dos animais em risco de extinção, os milhares de seres vivos extintos (segundo a WWF, nos últimos 40 anos a humanidade exterminou 60% dos animais da terra – mamíferos, aves, peixes e répteis – sendo que na América do Sul esses dados chegam a 89% - 89% de todos os animais já foram extintos em 40 anos! 4 ).

É essa a realidade. São essas as evidências. É essa a emergência. O avanço da atividade técnica humana colocou a verdade a serviço da mera exploração do mundo, destituída de qualquer preocupação ética e incentivada pela força da economia que tudo mercantiliza. No cenário contemporâneo, segundo o professor Carlos Walter Porto-Gonçalves, no seu O desafio ambiental, “a ciência deixa de ser patrimônio comum da humanidade e tende a perder seu caráter potencialmente livre e democrático” 5 para render-se unicamente aos interesses do capital exploratório. Assim, sequestrada pelos interesses mercantilistas, pelas mãos da ciência, a verdade se torna instrumento de alguns contra os interesses da maioria.

Tudo isso é lamentável. Mas ainda mais reprovável é quando o filósofo, aquele que lida mal com mulheres, junta-se às mesmas fileiras. Foi o que fez Giorgio Agamben no último dia 18/11/19 6 , ao escrever contra o que ele chama de “religião da ciência”, que teria transformado a ideia de fim de mundo em mais um mote religioso de escatologia do medo, próprio dos milenaristas medievais. A ciência seria, com os seus diagnósticos, segundo Aganben, não mais do que a reedição dessas crenças cujo único objetivo é celebrar a ignorância e reforçar o poder dos novos sacerdotes. O filósofo de Veneza parece evocar a antiga (e equivocada) oposição entre as trevas e a luz, para celebrar um meta-iluminismo anticristão e antiprofético que se vê, ele mesmo, como supra-lúcido. Em nome disso, não poupa esforços em acusar o “inventor de Gaia” (ele refere-se a James Lovelock, mas faz questão de ocultar o nome) e Greta Thunberg, a quem trata como uma “aparição”, uma crente cega, uma milenarista anacrônica à espera de seu messias.

Aganben, assim, entra na mesma fileira de Bolsonaros e Trumps. Com sua versão da verdade, alia-se ao ecocídio e ao verdadeiro holocausto que está em andamento no mundo atual, fechando os olhos para a obrigação ética de nossos tempos, cujo apelo à responsabilidade é urgente e necessáiro. A gravidade desse fato tem as mesmas dimensões (ou até maiores) do que aquela que envolve o apoio de Heidegger ao nazismo. Mais uma vez, Aganben dá provas de que os filósofos não se dão bem com as verdades, pelo machismo que serpenteia entre nós para impedir que as predições de Cassandra sejam de novo ouvidas. Troia, como se sabe, foi destruída pelos gregos, enquanto a profetiza era tida como louca.

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1 JONAS, Hans. Memorias. Trad. Illana Gines Comín. Madrid: Losada, 2005, p. 324.
2 D’ANCONA, Matthew. Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de Fake News. Tradução de Carlos Szlak. Barueri: Faro Editorial, 2018, p. 27.
3 Disponível em:https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2019/07/7-dos-brasileiros-afirmam-que-terra-e-plana-mostra-pesquisa.shtmlAcesso em: 20 nov. 2019.
4 Disponível em: www.forbes.com.mx Acesso em: 20 nov. 2019.
5 PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. O desafio ambiental. Rio de Janeiro; São Paulo: Editora Record, 2004. Coleção Os porquês da desordem mundial; mestres explicam a desordem mundial; Org. Emir Sader; p. 48.
6 Disponível em: https://www.quodlibet.it/giorgio-agamben-sulla-fine-del-mondo Acesso em: 21 nov. 2019.
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