Marcos César Seneda e Sertório de Amorim e Silva Neto
Universidade Federal de Uberlândia
24 Out 2017

O Qualis-Filosofia

Como avaliamos os nossos Periódicos?

 

Marcos César Seneda

Sertório de Amorim e Silva Neto

Universidade Federal de Uberlândia

 

Gostaríamos de participar desse fórum de debates e de nos posicionar, pois entendemos que os critérios de avaliação da área são políticos e pouco objetivos. A Revista Educação e Filosofia ocupava o estrato A2 e foi rebaixada para o estrato B1. No entanto, após minuciosa e demorada análise, não só dos critérios, mas principalmente das revistas que ocupam o estrato A2, entendeu o Conselho Editorial que a Revista Educação e Filosofia preenche todos os quesitos exigidos para os estratos A1 e A2. Muito nos causa espécie o fato de isso ter ocorrido com uma Revista que excede em larga medida aos critérios objetivos listados no Documento de Área da Filosofia, sem ainda deixar de contemplar importantes aspectos qualitativos. Também lamentamos o fato de que uma revista com trinta ininterruptos anos de existência e com tão bons índices de excelência poder vir a ser seriamente prejudicada na obtenção de recursos das agências de fomento por ter sido injustamente avaliado o seu grau de organização e sua contribuição para a divulgação de conhecimento em sua área do saber.

Em relação aos periódicos que no momento ocupam o estrato A2 do Qualis-Periódicos, ou seja, que ocupam um estrato superior ao da Revista Educação e Filosofia, fizemos uma comparação com os que podem ter um perfil mais próximo ao da nossa revista. A partir dessa comparação, argumentamos o seguinte:

1. Entendemos que para os periódicos que são avaliados pelo Qualis-CAPES na área de Filosofia existem três grandes dificuldades para tornar esse instrumento indutor e producente nas atividades cotidianas dos respectivos periódicos, a saber: (a) a predominância de avaliação qualitativa e não objetiva no extrato A2; (b) a pouca diferenciação interna no interior de cada substrato; (c) a diferenciação sutil entre substratos importantíssimos, como B1 e A2, e A2 e A1.

Todos esses problemas, como o da indução de melhorias no cotidiano dos periódicos, ou o da explicitação de quesitos objetivos para avaliação, poderiam ser resolvidos por uma maior diferenciação interna dos substratos. Principalmente, deveriam ser indicadas as penalidades para quem não cumprisse rigorosamente os critérios do estrato no qual está alocado, ou do estrato anterior, que está subentendido na classificação superior. Não se trata de mera defesa da penalidade como indutora de qualidade. Mas a má avaliação já é uma penalização ingrata para quem trabalha no dia a dia da produção científica, e se torna acidamente injusta quando os critérios são aplicados de uma maneira para uns e de outra maneira para outros.

2. Estranha o fato de que o estrato A2 possa conter periódicos que ainda não implementaram o DOI. Isso tem sido uma exigência na avaliação de todas as áreas do conhecimento e indica claramente o esforço para que a revista possa obedecer a critérios de publicação internacionais e receber principalmente visibilidade internacional.

3. Periodicidade é um fator decisivo para a avaliação de todas as áreas. A exigência de publicação de ahead of print de algumas áreas revela isso, que o periódico tem de indicar claramente para os avaliadores o estágio editorial em que se encontra em trâmite cada número a ser publicado. Diversos indexadores exigem que o periódico seja publicado, atualizado, dentro do ano corrente de referência. Por isso, é espantoso que a área não estabeleça nenhuma penalidade para os periódicos que não estão publicando regularmente.

4. Grande parte dos periódicos que ocupam o estrato A2 também não publicam a nominata dos pareceristas no número que encerra o volume, exigência também básica para que um periódico possa ser bem avaliado em outras áreas. Essa é uma informação importantíssima sobre a qualidade e o matiz institucional e geográfico da avaliação, pois dá bastante transparência aos métodos de avaliação do periódico.

5. O documento de área exige que o periódico esteja presente em pelo menos quatro bases de dados ou indexadores. Diversos periódicos bem avaliados não cumprem essa regra. Posto que esse é um critério exigido para o estrato B1, causa espanto que ele possa não ser obedecido por periódicos que ocupam o estrato A2.

6. O Documento da Área de Filosofia nomeia como critério a presença de publicação no periódico avaliado de pesquisadores que têm bolsa produtividade do CNPq. Primeiramente, entendemos que esse critério é inadequado, pois em nada mensura a qualidade do periódico. Por outro lado, assegura uma tautologia que não deveria ser incentivada pela área. Ou seja, se um pesquisador do CNPq publica em uma revista, ele imediatamente torna essa revista apta para receber o conceito A2 e sub-repticiamente já qualifica o seu próprio artigo com uma possível presença em um estrato mais alto da avaliação. Uma revista poderia, segundo esse critério, ser A2 em um ano e no outro ser B1, simplesmente por uma métrica contingencial, pois pode publicar em um número artigos de grande impacto ou muito significativos para a área, sem que entre os autores se encontrem pesquisadores do CNPq. Nem o fator H (citado nas considerações da área, mas que foi criado por um físico e se aplica melhormente às áreas de física, química e biologia), nem as melhores (ou se pode dizer também piores) métricas internacionais utilizam esse tipo de critério.

7. Também deveriam ser explicitados os critérios pelos quais um periódico que não é da área pode vir a ser muito bem avaliado no interior da área. É inexplicável–embora tenha surpreendentemente ocorrido – que um periódico que raramente publica textos de filosofia possa receber a menção A2 da área ao publicar algum texto de filosofia.

8. A consulta aos programas também é um critério que introduz distorção na avaliação. Não tem nenhum critério técnico, nem exerce papel algum de indução. Serve apenas para “salvar os fenômenos” e manter o status quo da área.

9. Entendemos que todos os recursos encaminhados por escrito devam ser respondidos por escrito. O recurso deveria ser entendido como um diálogo no interior da área, e sua resposta criteriosa como uma prática que legitima a avaliação e prospecta os avanços desejados para a área. É uma prática turva abrir possibilidade de recurso, se não há a intenção de se explicitar a aplicação dos critérios de avaliação. De fato, um recurso enviado pela revista Educação e Filosofia no dia 3 fevereiro de 2017, em ofício à Coordenação de área, permanece até o presente sem resposta.

Por todos esses motivos, fazemos aqui a defesa de que o documento de área seja técnico, que a comissão de avaliação seja democraticamente diversificada, que os bônus sejam distribuídos pelo desempenho institucional, que as penalidades sejam aplicadas cegamente como fator de indução de qualidade, e que a avaliação tenha um caráter republicano.

 


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