Daniel Tourinho Peres
UFBA
19 Dez 2017

Eu havia jurado a mim mesmo não participar do debate, mas juras, pelo menos algumas delas, foram feitas para serem quebradas. E as vezes eu simplesmente me comporto como o escorpião que ferroa o sapo no meio da travessia do rio. Então passo logo a algumas questões que me deixam inquieto.

Em primeiro lugar, me preocupa a relação entre Anpof e Capes. A Capes é uma instituição do Estado Brasileiro, mas que implementa políticas em larga medida traçadas pelo Governo. A Anpof, por sua vez, é um órgão da sociedade civil. Cada uma dessas instâncias tem uma lógica, uma agenda e um projeto próprios. Para mim é necessário, é fundamental, que mantenhamos certa distância respeitosa, distância que é condição mesmo para possamos considerar a relação entre as instâncias como democrática. Não podemos imaginar que estamos na condição de, ou que é desejável, tomarmos de assalto o palácio de inverno da filosofia.

Por isso mesmo não vejo nenhum problema em que a Capes escolha a partir de um lista composta pelos Coordenadores de Curso, e que possa escolher qualquer dos nomes presentes na lista. Não me agrada, porém, que quadros passem de um órgão a outro. Não vejo como conveniente que um Coordenador da Área, terminado o seu mandato, se apresente como candidato à Presidência da ANPOF, assim como não julgo conveniente que um Presidente da Anpof, em situação equivalente, se apresente para a Coordenação de Área.

No mesmo sentido ainda, gostaria de compartilhar a preocupação de Lya: o simples apelo ao debate público e transparente não são suficientes.  E como ela vejo com preocupação a ideia de fechar uma chapa. Cabe a ANPOF criar os mecanismos para que ao menos parte dos debates se dê à vista de todos; mas não podemos criar a ilusão de que e-mails não serão trocados, telefonemas não serão dados, promessas serão feitas, e, depois de cumpridas, o apoio será cobrado. Apenas parte de nossas discussões se dá publicamente, mas há toda uma outra parte que se dá nas sombras., e não há nada de errado ou ilegítimo nisso. Agora, por isso mesmo a ANPOF  não pode ter protagonismo, ou mesmo participação na discussão. Não pode haver uma chapa da Anpof. Como não deve (ou não deveria) haver, de resto, um nome ou chapa indicada, ou apenas endossada, pela atual coordenação. E aqui não consigo tirar da cabeça aquela célebre passagem de Hobbes, que diz mais ou menos assim: Se gosto do soberano, ele é bom e justo ; se desgosto, é um tirano.

Gostaria, agora, de apontar para algumas questões relativas à avaliação, critérios, etc. Do ponto de vista estético, meu olhar tem uma predileção quase natural pelo impressionismo e pelo expressionismo abstrato. Assim, ainda que reconheça todos os méritos do realismo, minha relação com o hiper-realismo contemporâneo é quase de desdém, muito técnica e pouca arte. De todo modo, algo de realista uma avaliação tem de ter, e contribuo do seguinte modo:

1) Compartilho a preocupação de Érico com a questão das bolsas de produtividade como fator que tem impacto na nota do programa. Acho realmente que não deveria ter impacto algum. O número de bolsas é restrito, ainda que tenha sofrido aumento, não acompanhou o aumento da área. Hoje temos um número enorme de doutores com trabalhos de extrema qualidade e produtividade que, porém, não são bolsistas do CNPq. Acho, porém, que submissão de projetos de outra natureza a agência de fomentos sim, isso deve ser considerado.

2) No atual período de restrição orçamentária em que vivemos, a questão da disparidade regional tende a aumentar. Por exemplo, não é a mesma coisa montar um banca em São Paulo ou em Salvador, realizar encontros ou seminários, fazer funcionar grupos de pesquisa.  Que propostas serão apresentadas para enfrentar essa situação?

3) Uma questão que talvez esteja vinculada à anterior: como a área vê a possibilidade de participação docente em três programas, com a produção contando igualmente para os três? Essa possibilidade foi aberta por uma demanda de pesquisas realizadas em laboratórios, que agregam pesquisadores de mais de uma área. Não vejo qualquer problema no docente ser permanente em mais de um programa de áreas distintas. Mas da mesma área? Mais ainda; em uma mesma região, às vezes em um mesmo estado e talvez até em uma mesma cidade?  Que razão justifica essa participação?

4) Como são avaliados os programas de filosofia em outras praças? Temos clareza quando a isso? Por que não fazermos um seminário internacional sobre avaliação de programas de filosofia?

Fico por aqui. Se for o caso, volto ao debate. São não, fico com meus afazeres menores. Se não me falha a memória, como diz um filósofo que admiro muito, e de quem tive a honra de ser aluno, Rubens Rodrigues Torres Filho: Isso de ler e escrever, é por simples amor ao estudo. Marx e a vida são breves. Pode se querer tudo, desde que seja leve.

 
 
 
 
 

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