GT Filosofia e Gênero
ANPOF
19 Dez 2017

Esta carta-manifesto é endereçada aos diretores da Capes que em breve farão a escolha do novo representante de área da Filosofia; aos coordenadores/as de programas, cujas indicações serão enviadas ainda essa semana; e a todos que se apresentaram como candidatos e candidatas para o mandato do próximo quadriênio. Foi escrita pelas mãos de muitas mulheres, pesquisadoras e professoras da área, com o objetivo de abrir espaço para debater profundamente os critérios de avaliação constituídos historicamente na área de Filosofia pela CAPES. O documento está aberto a receber novos apoios pelo email euapoiocartamanifestocapes@gmail.com

As mulheres filósofas vêm a público para dizer que não aceitarão apenas ser incluídas em chapas para garantir uma representação simulada e que não querem que o debate de gênero se torne um conteúdo curricular especializado. Com esta carta queremos indicar que tipo de mudanças profundas as mulheres filósofas esperariam a longo prazo para a área. Não queremos apoiar um nome ou uma chapa, queremos modificar os processos de avaliação, queremos a mudança qualitativa e abertura radical para novas formas de se fazer pesquisa em Filosofia no Brasil.

As mulheres são maioria no ingresso e na conclusão de cursos nas universidades brasileiras desde o início dos anos 2000. Pesquisadoras têm se debruçado sobre o fenômeno para entender por que à melhor formação profissional não equivalem melhores salários, bem como ocupação de postos de chefia no mercado de trabalho. Essas distorções identificadas no macroambiente político e econômico se reproduzem no microambiente dos cursos de Filosofia. A recente criação do GT Filosofia e Gênero, lançado na ANPOF de 2016 – em que pese iniciativas pioneiras realizadas no final dos anos 1990 –, indica como a área de Filosofia ainda é fechada ao que podemos chamar de “problemas de gênero”. Da baixa presença das mulheres nos programas de pós-graduação – apenas 21%, conforme último relatório Quadrienal, no qual pela primeira vez foram contabilizados quantos homens e mulheres estão atuando em pesquisa atualmente – ao imenso número de alunas que, tendo ingressado na Graduação, não conseguem chegar ao Doutorado nem à carreira docente, pode-se dizer que a Filosofia tem sido uma área resistente a mudanças estruturais necessárias, que deveriam permear políticas específicas, mas também uma mudança de postura na academia patriarcal brasileira. A simples descoberta desse baixo percentual já foi em si uma vitória, já que, até o lançamento de uma campanha no encontro da Anpof de 2016, não havia sequer a informação de como somos poucas (ARAÚJO, 2016).

Se as grandes distorções podem ser contabilizadas em estatísticas, estas não contemplam, no entanto, as hierarquias existentes no campo filosófico brasileiro, por um lado reflexo das grandes desigualdades existentes na sociedade brasileira, mas, por outro lado, também reflexo de marcadores políticos que definem quem faz e o que é fazer filosofia.

Coordenações de programas, representações de áreas nas agências estatais e direção de associações de pesquisa são espaços nos quais acreditamos ser necessário fazer uma política afirmativa em relação à redução das desigualdades, não apenas de gênero, mas de um conjunto de diferenças que nos afetam - entre regiões do país, entre universidades federais e estaduais, entre universidades públicas e privadas, entre oferta de bolsas e recursos, entre o acesso à universidade para pessoas brancas e pessoas negras.

Entendemos a criação do GT Filosofia e Gênero na ANPOF (2016) como um marco do reconhecimento de que estas questões podem ser discutidas no campo filosófico. São temas que estão se tornando visíveis a partir da troca de experiências acadêmicas nos debates internos do GT, que dizem respeito não apenas às experiências individuais mas, sobretudo, a processos mais amplos sobre a constituição da área de Filosofia no Brasil. O GT Filosofia e Gênero pretende publicizar algumas dessas questões:

  1. Discutir critérios para a redistribuição de verbas de pesquisa visando a diminuição das assimetrias de gênero;
  2. Incentivo a novos grupos de pesquisa nos programas de pós-graduação da área, para além daqueles grupos historicamente constituídos que centralizam tanto as definições dos critérios de Filosofia quanto o financiamento mesmo das pesquisas - abrir espaço para além dos latifúndios patriarcais;
  3. Mapear a necessidade de novas linhas de pesquisa em Filosofia, que permitam problematizar certas distinções tradicionais reforçadas na área como, por exemplo, entre entre natureza e cultura, ciência e ética, epistemologia e política;
  4. Incentivo a jovens pesquisadoras e professoras;
  5. Inserir indicadores que possam balizar a licença-maternidade com os    critérios de produtividade na Avaliação dos Programas;
  6. Mapear as estatísticas sobre desigualdade racial e expandir os critérios sobre desigualdade de gênero ;
  7. Fomentar pesquisas sobre a reconstrução da História da Filosofia a partir de outros referenciais, abrindo espaço para pesquisas sobre as mulheres, outros sujeitos subalternizados e as epistemologias esquecidas por certo modo de contar essa história;
  8. Fomentar o debate sobre as escolhas curriculares de ensino da área de Filosofia na Graduação, buscando uma interface maior entre graduação e pós-graduação, ensino (em todos os níveis) e pesquisa;
  9. Colocar em questão a preponderância de critérios de “produtividade” e de “desempenho” para julgar nossas atividades universitárias, em detrimento da importância do ensino e da invenção (que tomam tempo e são menos visíveis);
  10. Mapear as pesquisas interdisciplinares em Filosofia e discutir formas de incentivo: pesquisas interdisciplinares estão na base dos estudos de sexualidade e gênero e levam ao coração do debate epistemológico e político;
  11. Incentivar as pesquisas em Filosofia que levem a sério as questões raciais, indígenas, uma vez que a Filosofia, como um conhecimento que tem uma história e uma trajetória eurocêntrica, está de mãos dadas com o processo de colonização - nessa medida, sem a devida crítica, ela pode sustentar discursivamente a manutenção de processos de exclusão de saberes e conhecimentos locais, permanecendo cúmplice de certas formas de violência.
  12. Valorização da “regionalização” do conhecimento, que não se apresenta como oposição à internacionalização, mas como um marco crítico que nos permita pôr em pauta a pesquisa a partir da ideia dos saberes localizados

Com tudo isso, consideramos que o campo acadêmico filosófico é fórum privilegiado para a defesa incondicional da função da universidade pública brasileira, cada vez mais ameaçada por ações que visam o desmantelamento de um campo de resistência aos retrocessos políticos cotidianos.

Estas questões levantadas merecem amplo debate público com a comunidade. Todas (os) reconhecem as dificuldades maiores para as mulheres na vida acadêmica. Porém, a pergunta que queremos colocar é: o que podemos fazer a partir disto? Não se trata, para nós, apenas de ampliar a participação das mulheres nos espaços institucionais - este é apenas um primeiro passo; trata-se de entender como os critérios atuais foram forjados e problematizar o modo pelo qual a Filosofia constituiu suas práticas e valores institucionais.

Por tudo isso, esta manifestação tem por objetivo abrir o debate em todos os Programas de Pós-Graduação em Filosofia do país acerca dos critérios desenvolvidos pela área de Filosofia na Capes. Queremos ouvir das candidaturas suas propostas efetivas, abrindo o espaço do GT Filosofia e Gênero para solidariedade política e parceria na defesa por mudanças mais amplas. Esta carta-manifesto tem, sobretudo, o propósito de expor nossas reivindicações, não apenas pela inclusão de conteúdos feministas e de gênero no debate filosófico, como mais um campo especializado, mas por uma problematização epistemológica e política mais ampla em relação às formas e práticas institucionais.  A política brasileira tem experimentado, na sua forma mais amarga, a crise da representação que assola a democracia em diferentes partes do mundo. Que esse debate chegue também à Capes é só mais um sintoma da necessidade de transformação dessas práticas.

 

Signatárias (professoras-pesquisadoras em Filosofia):

  1. Adriana Delbó Lopes (UFG)
  2. Adriany Medonça (UFRJ)
  3. Aléxia Bretas (UFABC)
  4. Ana Aguiar Cotrim (UnB)
  5. Ana Miriam Wuensch (UnB)
  6. Anastasia Guidi Itokazu (UFABC)
  7. Arlenice Almeida da Silva (UNIFESP)
  8. Bárbara Lucchesi Ramacciotti (UMC)
  9. Bruna Martins Coelho (Univ. de Paris 8)
  10. Camila Jordan (UERJ)
  11. Camila do Espírito Santo Prado de Oliveira (UFCA)
  12. Carla Milani Damião (UFG)
  13. Carla Rodrigues (UFRJ)
  14. Carmelita Brito de Freitas Felício (UFG)
  15. Carolina Araújo (UFRJ)
  16. Celi Hirata (UFSCar)
  17. Cristiane Maria Marinho (UECE)
  18. Débora Danowski (PUC-Rio/CNPq
  19. Debora Pazetto Ferreira (CEFET-MG)
  20. Dilneia Rochana Tavares do Couto (Ueap)
  21. Edna Alves de Souza (UNESP)
  22. Edna Maria Magalhães do Nascimento (UFPI)
  23. Elisete M.Tomazetti (UFSM)
  24. Ester Maria Dreher Heuser (UNIOESTE)
  25. Fabíola M. Araújo (Seeduc-RJ)
  26. Flora de Carvalho Mangini (PUC-Rio)
  27. Georgia Amitrano (UFU)
  28. Gisele Secco (UFRGS)
  29. Gislene Vale dos Santos (UFBA)
  30. Helena Esser dos Reis (UFG)
  31. Iarle Sousa Ferreira (IFG/Unisinos)
  32. Imaculada Guimarães Kangussu (UFOP)
  33. Isabel Loureiro (UNESP)
  34. Izilda Johanson (UNIFESP)
  35. Jacira de Freitas UNIFESP)
  36. Janyne Sattler (UFSC)
  37. Jeanne Marie Gagnebin (PUC-SP/Unicamp)
  38. Joana Tolentino (Colégio Dom Pedro II)
  39. Jovelina Ramos (UFPA)
  40. Juliana Lira Sampaio (Colégio Pedro II)
  41. Juliana Missagia (UFSM)
  42. Juliana Ortegosa Aggio (UFBA)
  43. Léa Tosold (USP)
  44. Lívia Serretti Azzi Fuccio (IFMG)
  45. Luciana Dadico (USP)
  46. Marcela Botelho Tavares (IFRJ)
  47. Márcia Tiburi (UNIRIO
  48. Maria Cecília Pedreira de Almeida (UnB)
  49. Maria Cecília de Miranda Nogueira Coelho (UFMG)
  50. Maria Clara Dias (UFRJ)
  51. Maria Cristina Longo Cardoso Dias (UFRN)
  52. Maria Cristina Müller (UEL)
  53. Maria das Graças de Moraes Augusto (UFRJ)
  54. Maria das Graças de Souza (USP)
  55. Maria de Lourdes Borges (UFSC)
  56. Marilena Chaui (USP)
  57. Marilia Mello Pisani (UFABC)
  58. Marine Pereira (UFABC)
  59. Marta Rios Alves Nunes da Costa (UFMS)
  60. Marta Vitória de Alencar (EAFEUSP)
  61. Michele Janaína dos Santos Cardoso Tabosa (CESMAC)
  62. Monique Hulshof (UNICAMP)
  63. Natacha Muriel Lopez Gallucci (UFCA)
  64. Nathalie Bressiani (UFABC)
  65. Olgária Mattos (USP)
  66. Ondina Pena (UCB)
  67. Paloma Volski Mariano (UNICENTRO)
  68. Paula Priscila Braga (UFABC)
  69. Raquel Imanishi Rodrigues (UNB)
  70. Rebeca Furtado (Colégio Pedro II)
  71. Renata Lima Zucheli (UNICENTRO)
  72. Renata Maria Santos Arruda (UFG)
  73. Renata Schlumberger Schevisbiski (UEL)
  74. Rita Leal Paixão (UFF)
  75. Roberta Ribeiro Cassiano (IFRJ/Campus Nilópolis)
  76. Rosa Dias ( UERJ)
  77. Sílvia Faustino de Assis Saes (UFBA)
  78. Simone F.S. Gallina (UFSM)
  79. Susana de Castro (UFRJ)
  80. Suze Piza (UFABC)
  81. Sônia Campaner Miguel Ferrari (PUC-SP)
  82. Taisa Palhares (UNICAMP)
  83. Tânia Kuhnen (UFOB)
  84. Tessa Lacerda (USP
  85. Tereza Calomeni (UFF)
  86. Valéria Cristina Lopes Wilke (UNIRIO)
  87. Vera Cotrim (USP)
  88. Virgínia Figueiredo (UFMG)
  89. Virginia Helena Ferreira da Costa (USP)
  90. Yara Frateschi (Unicamp)

 

 

Apoiadores das propostas aqui apresentadas:

  1. Alex Calheiros (UnB)
  2. Ana Carolina da Costa e Fonseca (UFCSPA)
  3. Arthur Dias Bernardo (UnB)
  4. Bernardete Marantes (USP)
  5. Claudinei Aparecido de Freitas da Silva (UNIOESTE)
  6. Celso Martins Azar Filho (UFF)
  7. Daniela Rosendo (UFSC)
  8. Edson Teles (Unifesp)
  9. Eduardo Rocha (USP)
  10. Ernani Chaves (UFPA)
  11. Fábio A G Oliveira (UFF)
  12. Fábio Ferreira de Almeida (UFG)
  13. Fernando Santoro (UFRJ)
  14. Filipe Ceppas (UFRJ)
  15. Francisco Pinheiro Machado (UNIFESP)
  16. Gabriele Cornelli (UnB)
  17. Giovânia Costa (IFRJ)
  18. Gonzalo Armijos Palacios (UFG)
  19. Hélio Salles Gentil (USJT)
  20. Hilan Bensusan (UnB)
  21. Henrique Piccinato Xavier (USP)
  22. Josué Cândido da Silva (UESC)
  23. Júlio Diniz e Carvalho (UFMG)
  24. Leonardo Canuto de Barros (USP)
  25. Luciana Eleonora de Freitas Calado Deplagne (UFPB)
  26. Luza Coppieteres (CMLBGT/SP)
  27. Marcelo Carvalho (UNIFESP)
  28. Marco Antonio Valentim (UFPR)
  29. Marcos Carvalho Lopes (UNILAB)
  30. Maria Carreiro Chaves Pereira (UnB)
  31. Megue Magalhães de Andrade (UnB/SE-DF)
  32. Nythamar de Oliveira (PUC-RS)
  33. Pedro Hussak van Velthen Ramos (UFRRJ)
  34. Príscila Carvalho (UFRJ)
  35. Rafael Haddock-Lobo (UFRJ)
  36. Renato Moscateli (UFG)
  37. Sandro Feliciano (UFABC)
  38. Silvana Ramos (USP)
  39. Silvio Carneiro (UFABC)
  40. Sílvio Gallo (Unicamp)
  41. Tiago de Oliveira Senne (USP) 
  42. Yasmin Nobre da Silva (UFMT)
  43. Walter Omar Kohan (UERJ)
  44. Wanderson Flor do Nascimento (UnB)

 

Os novos apoios que ainda esperamos receber serão publicados aqui: https://medium.com/@euapoiocartamanifestocapes/apoiadores-ce9dd0dc15e

 


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