8 de Março Convocatória para a Marcha Internacional das Mulheres

8 de Março
Convocatória para a Marcha Internacional das Mulheres
 
GT Filosofia e Gênero
 
Neste ano, no dia 8 de março, mulheres no Brasil e em outras partes do mundo preparam uma grande mobilização para protestar contra o avanço do conservadorismo. Será um dia de marcha contra a misoginia, o machismo e todas as formas de violência de gênero, como o estupro, a violência doméstica, o racismo, a transfobia e a lesbofobia. No Brasil, a marcha também será contra o golpe e as perdas de direitos constitucionais, contra a MP do ensino médio, as reformas da previdência e trabalhista, os congelamentos dos gastos públicos em saúde e educação.
 
O primeiro Dia Internacional da Mulher foi celebrado em 28 de fevereiro de 1909 nos Estados Unidos, por iniciativa do Partido Socialista da América, em memória do protesto das operárias da indústria do vestuário de Nova York contra as más condições de trabalho. Em 1910, durante a II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas na Dinamarca, uma resolução para a criação de uma data anual para a celebração dos direitos da mulher foi aprovada por mais de cem representantes de 17 países. Muita luta ocorreu desde então, até que em 1977 a ONU declarou a data de 8 de março como o dia internacional da mulher. Fica, portanto, patente aquilo que a propaganda e a mídia brasileiras teimam em ocultar, no dia 8 de março é celebrado o dia internacional da mulher, não por causa da beleza e graça femininas, mas sim como um dia de luta das mulheres trabalhadoras pelo reconhecimento dos seus direitos à igualdade de condições sociais, que incluem trabalho, remuneração, mas não apenas.
 
Como há mais de meio século denunciou Simone de Beauvoir, o imaginário masculino define a essência do feminino atribuindo às mulheres duas funções básicas, amante e mãe. As mulheres que não se enquadram em nenhuma dessas ‘essências’ são consideradas desajustadas, como as mulheres trabalhadoras, as transexuais, as lésbicas, as travestis e todas aquelas que não correspondem aos estereótipos de gênero. O imaginário patriarcal brasileiro fica evidenciado nos anúncios, em particular os que celebram datas como essas. As mulheres são retratadas quase exclusivamente como mães ou namoradas. Nos anúncios de TV, as marcas de produtos de beleza e higiene aproveitam o dia para exaltar a beleza e atratividade femininas. Ocorre, porém, que o dia 8 de março foi declarado o dia internacional da mulher em função de um histórico de luta das mulheres operárias desde meados do século XIX por melhores condições de trabalho e o fim do trabalho infantil, comum nas fábricas durante o período. Durante a Revolução Industrial na Europa e nos EUA, as jornadas de trabalho das mulheres eram de aproximadamente 15 horas diárias e as trabalhadoras eram pessimamente remuneradas. Neste período, as greves por melhoria salarial e de condições de trabalho eram a forma mais comum de protesto. Muita coisa ocorreu desde então. As mulheres ingressaram em massa no ensino universitário e passaram a disputar os melhores postos de emprego. Mas a situação não mudou estruturalmente.
 
O capitalismo depende de homens e mulheres explorados para manter seus lucros exorbitantes. Assim, precisa de uma ideologia que desqualifique a identidade e o valor de setores da sociedade. Marginalizando-os econômica e culturalmente, os fragilizam e os transformam, com mais facilidade, em exército de mão de obra excedente. De igual forma, o capitalismo precisa do bom funcionamento desta mão de obra excedente, que receba todos os cuidados necessários para seguir funcionando, sem se comprometer com a sua ‘manutenção’. Assim, é no âmbito mais privado da sociedade, a família, que esses cuidados de ‘manutenção’ precisam ser garantidos e a melhor maneira de fazê-lo é naturalizando a função cuidadora como "coisa de mulher" ou como atividades realizadas "em nome do amor". A exploração das mulheres torna-se, pois, dupla. Explora-se a mão-de-obra feminina nos espaços de trabalho assalariado (em funções subalternas ou em funções similares, mas com salários inferiores aos dos homens) e fora dele. Na maioria dos núcleos familiares, são as mulheres as responsáveis diretas pelo que há de mais básico na sustentação das vidas humanas (cuidados físicos; elaboração de refeições; higienização de objetos, vestimentas e espaços; manipulação de medicamentos…) e, apesar de nada disso ser nato ou valorizado, elas têm assumido tal responsabilidade e pago preços variados por ela.
 
A desvalorização das mulheres não se dá apenas no âmbito do trabalho subalterno, e mal remunerado, e do trabalho não-remunerado doméstico, é no mundo das relações afetivas e sexuais que sua fase mais dolorosa e violenta vem à tona. Meninos e homens são constantemente incentivados a ver suas irmãs, colegas e companheiras, senão como objetos de uso pessoal, como seres inferiores e passíveis de dominação e controle. Ainda que seja difícil coletar dados reais sobre o uso de força e coerção por parte de homens para a obtenção de prazer sexual (tipificando um estupro), uma vez que nem todas as pessoas que sofrem este tipo de violência chegam a procurar auxílio e a denunciar os abusos que sofrem, os dados disponíveis são alarmantes. O mesmo pode ser dito sobre os assassinatos de mulheres. O Brasil é detentor da vergonhosa quinta maior taxa de feminicídios do mundo, de 4,8 para 100 mil mulheres, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2015, o Mapa da Violência revelou que, de 2003 a 2013, o feminicídio de mulheres negras cresceu 54%, passando de 1.864 para 2.875.
 
Por questões como as apontadas acima, o Dia Internacional da Mulher foi criado como um dia de luta e segue mobilizando milhares de pessoas em todo mundo, interessadas em mudar as condições exploratórias espalhadas por todo o tecido social, e comprometidas com uma sociedade mais justa e igualitária para todxs.

#Marcha das Mulheres
ANPOF (biênio 2017-2018)
17 de Fevereiro de 2017

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