12/08/2026
I Colóquio Internacional Medo e Política
USP e UFPR
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O medo, já apresentado por Espinosa como uma tristeza instável, ligada à incerteza sobre o futuro, é um dos afetos fundamentais humanos que, junto com a esperança, se articula na geração da superstição e da servidão, levando as pessoas a buscar salvação em poderes externos, em vez de na razão e no poder da Natureza. Porém, pouco se avança na definição conceitual deste afeto além de caracterizá-lo de forma depreciativa ou brandi-lo como atributo negativo associado a outras filosofias.
Ao mesmo tempo que é caracterizado por muitos autores e autoras como sinal de fraqueza, causa do caos ou como algo a ser banido em prol da afirmação das potências da vida (como por exemplo na visão nietzschiana, que associa medo e covardia à razão socrática) ou da maioridade da razão (para Kant), o medo é visto por outros como elemento motivador de escolhas seguras e saída organizada deste mesmo caos, como nas teorias políticas hobbesianas e maquiavelianas, entre outras.
Desta maneira, é possível pensar que, movidos pelo medo, os seres humanos tomariam tanto decisões impensadas ou prejudiciais a si mesmas e mesmos como poderiam escolher ações prudentes - que se apresentam aos olhos gerais como usos conscientes e equilibrados da razão. Esta dualidade constitutiva deste sentimento atávico à humanidade é, por si só, digna de estudo. Até que ponto a Razão é filha do medo? Ou será que até mesmo o chamado pela coragem e afirmação irrestritas não seriam, no fundo, uma manifestação de medo perante o mundo e temor da não-existência de um sentido intrínseco às relações sociais? De que forma o medo do desconhecido opera como motor tanto de posturas isolacionistas e excludentes como de ações e pensamentos que projetam e propõem formas de alteridade?
Em um tempo como o atual, onde a manipulação emocional ocupa papel primordial na regulação política de estados, comunidades e grupos, as causas e consequências envolvidas na produção e expressão deste poderoso afeto reverberam, literalmente, em nossas peles, mentes e ações. Não à toa, um dos mais importantes documentos políticos da humanidade, o Manifesto Comunista, se inicia com uma metáfora fantasmagórica que invoca o medo de poucos em relação às reivindicações de muitas e muitos.
Este evento traz pesquisadoras e pesquisadores para apresentarem suas considerações sobre a relação entre o medo e a vida em comum, tendo como ponto basilar as análises sobre este afeto desenvolvidas no século XVII, mas também propondo articulações conceituais com pensadoras e pensadores de diversos períodos que abordem tal temática, notadamente na filosofia política. Do Leviatã hobbesiano ao retorno sem pejo do autoritarismo atual, filosofia, medo e política parecem ter uma longa história conjunta a ser contada.
Inscrições abertas no link abaixo. O evento será híbrido. A programação está abaixo:
