30/10/2025
I Encontro de Teoria Crítica e Psicanálise: disputas contemporâneas
Departamento de Filosofia - FFLCH - USP
Chamada de trabalhos
A relação entre Teoria Crítica e Psicanálise caracteriza-se por uma história de conflitos. Entre aqueles que se dedicaram à Psicanálise como objeto da Teoria Crítica, é possível destacar autores como Theodor Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse e Erich Fromm –, cujas bases se formaram a partir dos desdobramentos da teoria freudiana. Isso, no entanto, não foi seguido à risca pelas gerações seguintes do que se convencionou chamar de Teoria Crítica da Escola de Frankfurt.
Em torno da relação entre Teoria Crítica e Psicanálise, produziu-se uma espécie de fratura interna na Teoria Crítica. Nos trabalhos mais recentes dessa tradição, a Psicanálise aparece, por um lado, de forma secundarizada ou destituída de conceitos como o de pulsão (principalmente o de morte), atrelada a um horizonte político de conciliação (como é o caso de Habermas e Honneth). Por outro, há o resgate de contribuições dos autores da primeira geração (principalmente Adorno), em interlocuções que privilegiam a negatividade como um operador central para refletir sobre transformações políticas possíveis e/ou bloqueadas.
Ainda que a primeira geração não tivesse concordância total na relação com a Psicanálise, constata-se o potencial crítico presente em suas propostas, num intenso movimento simultaneamente a favor e contra o pensamento freudiano. O cenário contemporâneo parece, então, configurar-se a partir de formas de leitura que mantêm alguma relação com a Psicanálise – seja ela freudiana ou não – e de outras que buscam afastar-se do campo psicanalítico, apoiando-se em novos aportes para compreender e criticar problemas de dimensões psicossociais.
Com isso em vista, este Encontro busca fomentar as discussões sobre as disputas postas. A proposta não é simplesmente de reconstituir a história desse tema, mas, principalmente, de discutir a relevância da Psicanálise para uma teoria que se proponha crítica e que não renuncie ao objetivo de uma transformação radical da sociedade. Como Teoria Crítica e Psicanálise se relacionam e engendram contribuições mútuas? Quais limites e problemas marcam essa importante relação? Como, a partir dessa relação, podemos pensar nos problemas político-econômicos e psicossociais que têm sido engendrados e/ou mantidos na contemporaneidade?
São muitas as questões sobre a relação entre Teoria Crítica e Psicanálise que motivam a proposta deste evento. Ao se colocar como um encontro, visa abrir espaço para diálogo e debates entre pessoas pesquisadoras e público interessado. O evento está voltado para pesquisas que se debruçam sobre problemas sociais e psíquicos vistos pelo prisma das contribuições da Teoria Crítica da Sociedade ou que, de forma mais direta, analisam a própria relação entre Teoria Crítica e Psicanálise. De modo geral, convida as pessoas que, dentro do escopo acima apresentado, têm trabalhado e pensado a crítica social hoje.
Convidamos ao envio de propostas seguindo os eixos abaixo:
1. Políticas do fascismo
Este eixo tem por objetivo reunir contribuições fundamentadas ou que debatam temas e conceitos apresentados pelos teóricos críticos da Escola de Frankfurt acerca do fascismo. Sem restringir o fascismo à sua forma histórica, visa também refletir sobre suas continuidades nas manifestações contemporâneas de violência e ideologia próprias da realidade tardo-capitalista, inclusive em sua reapresentação sob a forma das novas extremas-direitas contemporâneas. Como questão transversal ao pensamento dos autores da primeira geração, a análise crítica do fascismo também se fez a partir das contribuições da Psicanálise. Esses autores desenvolveram pesquisas conceituais e empíricas sobre ideologia, propaganda, movimentos de massa, autoritarismo e a formação de tipos psíquicos favoráveis ou aderentes à violência fascista, entre outros temas. Devido à persistência das condições econômicas, políticas e psicossociais fascistizantes, tais contribuições mantêm sua atualidade. Contudo, como não se trata de mera reprodução inalterada, impõe-se a necessidade de repensar diagnósticos, tensionar conceitos e enfrentar problemáticas renovadas - ou mesmo inéditas - relativas às manifestações do fascismo.
2. Os destinos da pulsão na teoria crítica
Este eixo propõe uma investigação sistemática sobre as diferentes interpretações do conceito de pulsão (Trieb) no interior da Teoria Crítica da primeira geração, com especial atenção para seus principais expoentes. Considera-se que a forma específica como cada autor compreende e reelabora o conceito freudiano de pulsão opera como um elemento teórico decisivo na articulação entre crítica social e teoria psicanalítica. Com ponto de partida, busca-se examinar como essas diferentes apropriações da pulsão – não apenas em Freud, mas também em seus desdobramentos nas obras de autores como Marcuse, Adorno e Habermas etc. – fundamentam diagnósticos distintos do capitalismo tardio, da indústria cultural e das patologias ligadas à razão instrumental. Isso pressupõe uma tensão constitutiva entre os registros biológico e social na própria noção de pulsão, tensão que ressurgirá nas reflexões sobre repressão, sublimação e emancipação. Interessa compreender como essas elaborações sustentam modos específicos de interpretar o mal-estar na civilização e, mais ainda, como abrem – ou interditam – possibilidades de transformação social. O eixo acolhe contribuições que explorem tanto as dimensões epistemológicas desse entrelaçamento entre psicanálise e teoria crítica quanto suas implicações para uma crítica da modernidade. Serão valorizadas abordagens que investiguem as ressonâncias contemporâneas desses debates, com ênfase nas mediações entre economia libidinal e economia política, a fim de problematizar os limites e as potencialidades do conceito de pulsão para o pensamento crítico atual.
3. Estética e lógica do inconsciente
Este eixo propõe reunir investigações que explorem os vínculos entre estética e inconsciente, a partir do encontro entre Teoria Crítica e Psicanálise. Em autores como Theodor Adorno e Walter Benjamin, a arte figura como campo onde se expressam as tensões entre subjetividade e sociedade, revelando a dimensão inconsciente da experiência. Adorno pensa a arte como forma historicamente determinada que, ao preservar sua autonomia, resiste à racionalização do vivido. Sua concepção de estética está intrinsecamente ligada à lógica do inconsciente, visível em categorias como o não-idêntico, a negatividade e o fragmento. Suas análises de Kafka, Beckett ou Proust evidenciam como a arte pode expressar aquilo que escapa à socialização do desejo. Benjamin, por sua vez, ao tratar do choque, da rememoração involuntária e da imagem dialética, indica modos de temporalidade onde o inconsciente emerge como força crítica. Sua atenção aos sonhos e à linguagem onírica da modernidade sugere a arte como condensação de afetos e memórias coletivas. O eixo acolhe contribuições que abordem a estética como modo de inscrição do inconsciente e sua historicidade, refletindo sobre noções como “atos falhos sociais” e formações do desejo mediadas pela arte. Serão bem-vindos trabalhos sobre obras artísticas ou sobre os próprios textos da tradição teórica visada neste encontro.
4. Sofrimento: trauma e violência
Este eixo abre espaço para propostas que abordem o tema do sofrimento (Leiden) na Teoria Crítica partindo de Adorno, Honneth e etc., em quem esse termo aparece nomeadamente. Temos como ponto de partida o processo de formação do indivíduo na sociedade capitalista, processo esse que Adorno denominou de “vida danificada”. A violência, enquanto fenômeno estruturante do capitalismo, deixa marcas indeléveis tanto na subjetividade quanto na organização social, o que Adorno investigou pelo conceito de sofrimento. Nesse sentido, a interlocução entre Theodor W. Adorno e Sigmund Freud oferece ferramentas fundamentais para decifrar as relações entre trauma e violência em suas dimensões individuais e coletivas. Partindo da noção adorniana de “vida danificada”, propomos um debate sobre como o trauma, longe de ser apenas uma experiência subjetiva isolada, se inscreve em estruturas sociais violentas que perpetuam sofrimento e repetição histórica. Freud, por sua vez, ao discutir o potencial patológico da moral repressiva burguesa já falava em uma “sexualidade danificada”. Posteriormente, ao analisar o “mal-estar na cultura” e os mecanismos de recalque e compulsão à repetição, fornece chaves para entender porque subjetividades traumatizadas reproduzem padrões de dominação, mesmo quando estes as conduzem à autodestruição.
Normas para submissão:
Um trabalho por autor ou até dois coautores.
Indicar o eixo no qual o trabalho está sendo submetido. A adequação ao eixo será critério para aceite do trabalho.
Título da comunicação; autoria e vinculação institucional.
Mínimo 300 e máximo de 500 palavras.
5 palavras-chave
Prazos:
Envio das propostas: 01/07/2025 até 10/08/2025
Divulg
ação dos aprovados: 25/08/2025