03/11/2025

XVII Semana de Filosofia UFPR - Feminismos: teorias e ativismos

Universidade Federal do Paraná, Campus Reitoria, Centro, Curitiba-PR

Uma construção se ergue sobre suas bases e seus fundamentos, tijolo por tijolo, nota por nota, paulatinamente. Quanto mais alta a pretensão de encostar nos céus, mais alto o risco das asas do pensamento serem derretidas pelo calor do sol e seu corpo descer ao fundo do mar (evoé, Ícaro!). Dos desejos de pretensão divina aos anseios de eternidade, os pensamentos obelísticos se ergueram aos montes sem qualquer aparência de serem acocorados em um corpo vivo, sem qualquer sinal de uma língua (ou uma pena) que caminhe com os pés no chão. Hoje, o mundo moldado e controlado como cera está derretendo. Por uma conjunção de fenômenos intensificados em prática e pensamento, no desenrolar da história, mundos de números quase infinitos foram e ainda são extinguidos com a velocidade de um apagar de vela. Os tecidos da História são granulosos, costurados por estórias e histórias e, por trás de seus palcos principais, engrenam-se os acontecimentos que compõem seus grandes momentos. Como se a nevasca, afinal, entrasse naquele quarto inóspito, e o frio fosse mais forte que o próprio poder raciocinante. Assim, na escuridão gelada e na solidão de um mundo não-abstrato, a não ser por si enquanto cogito pensante, ou corpo pulsante, uma só coisa que os dedos gelados e a tez pesada torna difícil problematizar, o estômago ronrona, o vento serpenteia gélido pelas frestas das tábuas: meditar fica difícil, e o crepitar do fogo é a melodia nupcial de um princípio de sono…

Um grande obelisco é erguido como templo de consumo às fantasmagorias enrijecidas, como se fosse trabalho individual, como se possuísse visão panóptica e divina. Uma monocultura, pretensa essência absoluta e mumificada, é também a tentativa de uma mononatureza, coisificada carne moldável. É a incessante supressão das multiplicidades e dos cultivos outros, a destruição das diferentes modalidades de existência, a seca de tudo o que você podia ser e não encontra respaldo. Como longo acontecimento na história recente, pelo menos enquanto denominado desta maneira, os feminismos são amplos e múltiplos, com muitos momentos, delimitados e esparsos, diversos e divergentes. Talvez a pluralidade tome forma no próprio campo de estudo, hoje consolidado como “estudos feministas”. De modo que, nos debates hodiernos, muitas vezes torna-se preciso referenciar ao “feminismo de …”, bem antes de “O Feminismo”, enquanto movimento unívoco. É assim que, na névoa que desvela a intrincada realidade a quem força os olhos, nas profundezas da terra-mãe trabalhadora de novas criações e nos veios ctônicos que existem na contrariedade direta do céu, no chão deste mesmo monumento idílico, movem-se fluxos de abalos sísmicos, ecos físicos que ressoam nas pedras e nas árvores, ondas, aclimatações, tremores que têm como única característica a “mu-dança” enquanto inerente, para emprestar a terminologia de Fernanda Dechatnek. Sendo movimentos, não cessam de entrar em fluxos contínuos e descontínuos, criadores de outros movimentos, de modo que, bailando, são si e são outros trocando de pele e de conteúdo, em uma longa música sem pausa, num processo que só percebemos ao adentrarmos ao próprio “acontecer”.

Postura e/ou orientação metodológica, mas não só, a própria palavra “feminismo” parece então tomar forma de um espectro múltiplo, com cores, vibrações e marcações bastante distintas, caso fôssemos mapeá-lo a partir de olhares geográficos, históricos, filosóficos, científicos, literários, mundanos ou metafísicos. Muitas vezes, teoria e ativismo, o pensamento feminista se fez inseparável da busca por mudanças práticas na vida cotidiana. Mudanças econômicas, políticas e sociais: mudanças de vidas. De tal maneira, o uso efetivo dos plurais se faz necessário. A mudança necessária, como diz Paul Beatriz Preciado, é tão profunda que pode parecer impossível e inimaginável: “Mas o impossível está por vir. E o inimaginável nos é devido”. Não se trata de simplificar ou mesmo ‘produtificar’ em fórmulas ultraprocessadas, embaladas à vácuo e prontas ao consumo imediato as questões dos tempos futuros, presentes ou passados. O trabalho de produção de conhecimento é um processo interminável e coletivo em que se indistinguem, ou se confundem, prática e pensamento, pesquisa e ensino. No lugar de supressões ou hierarquizações entre ambas as partes das dicotomias, diálogos criativos e inacabados entre ambas, de modo que os lugares tornam-se tanto desenvolvimentos quanto participações, num processo em que o “todo” nunca está pronto. Problematizar é pôr uma comunidade de pensamento em movimentos traduzidos, mobilizadores de sérias coimplicações. “Problema” é ação que tumultua e desorganiza padrões e práticas-pensamentos, demandando das conexões e termos presentes reorganizações responsivas, as quais podem problematizar outras questões e questões outras, em equações complexas de multiplicação, divisão, ligação e/ou distensão.

Seria da natureza das palavras serem polêmicas? Se um som pode ser entendido como o movimento repetitivo de múltiplas vibrações de ondas sonoras, recebidas por uma concha e uma membrana timpânica, depois por um martelo e uma bigorna, peças forjadoras de sentidos, poderíamos assim perguntar: quais matérias são formadas neste processo e qual proceder é dado a elas? Talvez, quando falamos de movimentos, estamos dando conta de uma gama de fenômenos em contato micro e macroscópico, coletivo e particular, compartilhando tempos e espaços. Destarte: qual a medida precisa entre o singular e o plural? Ou mesmo, entre o vazio e o espaço que este permite ao movimento do preenchimento? Entre a voz silenciada e apagada na História, daquela proferida que pretende falar para e por todos? Entre quem queima como combustível e quem se acomoda, aquecendo-se com o fogo? Mesmo nos tempos em que a fumaça das queimadas apartou-nos do céu e o concreto-cimento apartou-nos do chão, renascem as relvas com seus tropismos resistentes. Tempos que muitas vezes aparentam possuir temporalidades distintas: uma que se insiste imutável e normatizada, onde as mudanças parecem levar eras geológicas sob os solos das instituições; e outra profunda, mundana e múltipla, das ctônicas serpentes que rebentam das conchas do corpo, em direção ao contato e ao contágio respons-habilidoso. Complementando a citação supracitada: “Este é o nosso tempo: o único que resta”.

É em tom de questionamento e provocação que anunciamos a décima sétima Semana de Filosofia da UFPR. Com o tema, “Feminismos: teorias e ativismos”, convidamos estudantes, discentes e docentes, de todos os níveis de formação a participarem desta sinfonia contingente e específica, a ser composta na primeira semana de novembro deste ano, de 2025. Desde o ensino médio à pós-graduação convidamos você a participar, submeter um trabalho, exercer sua fala, dialogar e ocupar seu espaço de direito. Convidamos à participação neste processo filosófico e nada linear, mas que sempre nos permite criar outros mundos, interagir, se inspirar, ousar sonhar diferente. A palavra chave é comparecer, e esse verbo só adquire significado em presença corpórea, situada especificamente e participante da história.

Realização do evento: 03 a 07 de novembro de 2025.

Período de inscrições: da publicação deste edital até 03/10/2025.

Local: Campus Reitoria, Universidade Federal do Paraná, intersecção das ruas XV de Novembro, Dr. Faivre, Amintas de Barros e General Carneiro, Centro, Curitiba – PR.

Link: https://petdefilosofiaufpr.wordpress.com/2025/07/07/chamada-para-a-semana-academica-de-filosofia-feminismos-teorias-e-ativismos/