05/01/2026
Edição Atual da Revista Estudos Libertários: NEOCOLONIALISMO E MILITARISMO NO TEMPO PRESENTE
UFRJ
Chegamos ao final de 2025 e lançamos mais um número da nossa querida REL. Este volume reafirma o compromisso da Revista Estudos Libertários em ser uma plataforma de crítica radical às estruturas de poder, violência de Estado e colonialidade, ao mesmo tempo que celebra e investiga as formas de resistência, autonomia e construção de mundos outros. Neste número, os artigos dialogam em torno de eixos urgentes: a necrofilia colonialista outrocida que opera em favelas e territórios ocupados; a crítica ao militarismo e à colonialidade algorítmica; as epistemologias anarquistas, decoloniais e libertárias; e as histórias subterrâneas de saberes e tecnologias insurgentes de africanos no Rio de Janeiro escravista. Dessa forma, celebramos um espaço, no qual a discussão sobre a mais ampla defesa da liberdade associada a mais profunda crítica a toda forma de discriminação, seja ela racial, patriarcal, estadolátrica e/ou capitalista, encontre acolhimento. Por isso, nos denominamos um lugar de reflexão libertária e decolonial.
Vivemos um momento histórico de recrudescimento global das forças autoritárias. A extrema direita avança em parlamentos e nas ruas, normalizando discursos de ódio, militarizando a vida cotidiana e aprofundando lógicas necrofílicas, autoritárias e coloniais. Diante dessa ofensiva, o pensamento e a prática anarquista e decolonial libertária reafirmam sua urgência. Não se trata de buscar refúgio em purismos ideológicos, mas de atuar nos movimentos sociais com autonomia radical, promovendo a ação direta, o apoio mútuo e a construção de poder popular desde baixo. As lutas contra-coloniais, antirracistas, feministas, ambientais e pela moradia são, todas elas, trincheiras onde se disputa não apenas políticas públicas, mas a própria ideia de futuro.
A capa desta edição tenta expressar duas das vertentes dessa violência. A chacina no Morro do Alemão e o genocídio na Faixa de Gaza, embora inscritos em contextos geopolíticos distintos, revelam uma mesma lógica contemporânea da violência: a naturalização da morte de populações racializadas e territorializadas como efeito colateral aceitável para os governantes neocolonialistas e neocruzadistas. No caso brasileiro, o militarismo permanente das favelas, legitimada por discursos de guerra às drogas, expõe o Estado como agente produtor de morte, suspendendo direitos e instaurando um regime de exceção seletivo, no qual corpos negros e pobres tornam-se alvos cotidianamente.
Em Gaza, a lógica se radicaliza: sob a retórica da autodefesa e do combate ao terrorismo, instala-se um dispositivo colonial de aniquilação sistemática, no qual a destruição de infraestruturas civis, o bloqueio humanitário e o extermínio em massa são normalizados por alianças geopolíticas e pela assimetria do poder militar. Em ambos os casos, opera-se uma convergência entre corpo matável, racialização e produção deliberada de indiferença moral, sustentada por regimes midiáticos, jurídicos e tecnológicos que administram quem pode viver e quem deve morrer.
É nesta linha crítica que abrimos a presente edição da REL com o texto de Wallace de Moraes. Seu artigo “AS FAIXAS DE GAZA DO MUNDO: CRUZADISMO E A NECROFILIA COLONIALISTA OUTROCIDA” nos apresenta um paralelo entre a situação na Faixa de Gaza e nas favelas e periferias do Rio de Janeiro, em especial o Complexo do Alemão. Em sua análise, De Moraes forja conceitos cruciais como “Cruzadismo” e “Necrofilia Colonialista Outrocida” para desvelar a lógica colonial de desumanização que subordina corpos racializados. Este estudo é uma contribuição fundamental para as pesquisas decoloniais e libertárias, oferecendo um ferramental analítico urgente para quem busca compreender as violências estatais em escala global e local.
Flávio dos Santos Gomes e João Flávio dos Santos Gomes, em “TECNOLOGIAS LADINAS, AFRICANOS E TRABALHO URBANO NO RIO DE JANEIRO: PRIMEIRAS REFLEXÕES”, nos apresentam uma contranarrativa fundamental. Trata-se de pesquisa inédita no campo da historiografia atlântica, que realiza uma profunda escavação dos diferentes papeis que os negros tiveram durante a escravidão. O artigo recupera as contribuições tecnológicas africanas — nos modelos construtivos, nas técnicas de mineração, agricultura e urbanização — que moldaram materialmente a cidade do Rio de Janeiro ao longo do século XIX. Ao focar na mão de obra africana, escravizada e liberta, e no conceito de ladinização, o texto não apenas revela um legado apagado, mas também inscreve a resistência negra no próprio tecido urbano. Uma leitura essencial para repensar a história das cidades brasileiras e desnaturalizar a narrativa colonial do progresso.
Inserido no escopo da teoria anarquista, o artigo “ANÁLISE COMPARATIVA DAS CONCEPÇÕES DE CIÊNCIA ENTRE MIKHAIL BAKUNIN E PIOTR KROPOTKIN”, de Mariana Brasil Ramos e João Gabriel da Costa, interessa a pesquisadores de campos que vão além da Filosofia. Os autores abordam as semelhanças e diferenças entre os dois pensadores mais influentes do anarquismo no que se refere ao papel da ciência na sociedade. Ao apresentar uma síntese bibliográfica das concepções epistemológicas de cada autor, o artigo conclui que as afinidades prevalecem sobre as divergências. Uma contribuição valiosa para os estudos sociais da ciência e para a filosofia política, reafirmando a potência do pensamento anarquista na crítica à neutralidade científica.
Ainda no campo do Anarquismo, mas adentrando uma discussão contemporânea e específica, Ricardo Mendes Mattos em “PÓS-ANARQUISMO DE SAUL NEWMAN” apresenta uma intrigante reflexão teórico-conceitual que envolve os termos pós-anarquismo, anarquismo e pós-estruturalismo, tendo como pilar as reflexões do cientista político britânico Saul Newman. Ao reconhecer a vitalidade do movimento anarquista no século XXI, o artigo expõe críticas ao pós-anarquismo e conclui que ele pode se inserir na pluralidade do anarquismo contemporâneo. Um texto provocador e necessário para quem acompanha os debates teóricos de vanguarda e as transformações do pensamento libertário no presente.
Em “A ALGORITMIZAÇÃO DA MORTE: A MILITARIZAÇÃO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E A COLONIALIDADE ALGORÍTMICA”, Juan Filipe Loureiro Magalhães investiga como o uso de sistemas automatizados de seleção de alvos, especificamente Habsora, Lavender e Where’s Daddy? reconfigura a decisão letal. O estudo mostra como o extermínio se transforma em um processo operado por Inteligência Artificial, atualizando a colonialidade para uma lógica do século XXI e instituindo uma verdadeira colonialidade algorítmica. Uma análise pioneira e alarmante, que conecta estudos críticos da tecnologia, segurança internacional e filosofia política, essencial para compreender as novas frentes da guerra e do controle.
Pamela Cristina Gois, Rejane Aparecida Cassiano e Alcione Raimunda Araujo, na obra “PEDAGOGIA DA DECOLONIALIDADE, INCLUSÃO E DIVERSIDADE: REFLEXÕES A PARTIR DO ROMPIMENTO DA BARRAGEM EM MARIANA/MG EM ESPAÇO ESCOLAR”, abordam a necessidade de uma educação antirracista, tendo como pano de fundo as consequências dos crimes da Vale em Mariana (2015) e Brumadinho (2019). O artigo destaca as cicatrizes deixadas especialmente entre populações indígenas, negras e quilombolas. Uma leitura obrigatória para os campos da educação decolonial e da justiça ambiental, articulando pedagogia, território e memória.
Guilherme Xavier Santana, em “OCUPAÇÃO OU INVASÃO DAS ESCOLAS? UMA INTERPRETAÇÃO POLÍTICA PELO VIÉS ANARQUISTA ACERCA DO FENÔMENO DAS OCUPAÇÕES ESTUDANTIS EM 2015-2016”, propõe uma revisão das análises acerca do fenômeno das ocupações escolares. Identificando lacunas nas interpretações dos mais variados espectros políticos, o autor propõe uma leitura orientada por um referencial filosófico anarquista. Uma reflexão crucial para a sociologia dos movimentos sociais e a educação libertária, que recupera a potência da ação direta e da autogestão estudantil.
Rafael Batista Dias, em “PERCEPÇÃO E EXPERIÊNCIA ESTÉTICA EM WALTER BENJAMIN: A ANESTÉTICA MEIO À CATÁSTROFE”, recupera as categorias benjaminianas de ruína e sensação para decifrar a modernidade capitalista e buscar, nos escombros, vestígios de um futuro por vir. Uma contribuição fundamental para os estudos de teoria crítica e estética política, que demonstra a atualidade do pensamento de Benjamin para ler nosso tempo de colapso e esperança.
Marcus Vinícius Teixeira dos Anjos, no artigo “SEM SELA E ARREIOS: PRIMEIRAS APROXIMAÇÕES AO SATTELZEIT DE REINHART KOSELLECK”, desenvolve uma crítica ao uso reducionista da história dos conceitos. Propõe uma inversão da lógica europeizante e colonial de Koselleck, dando voz aos povos originários e às classes subalternas para fazer da história social o suporte metodológico da história dos conceitos. Uma intervenção ousada e necessária na teoria da história, abrindo caminhos para uma historiografia verdadeiramente descolonizada.
Que os artigos desta edição da REL sirvam como ferramentas de reflexão e como combustível para a ação. Eles nos lembram que a violência de Estado — seja no Morro do Alemão, em Gaza ou nos algoritmos de morte — não é um acidente, mas um projeto. E que a resistência — seja nas ocupações estudantis, nos zines anarcofeministas, nas tecnologias ladinas ou na organização comunitária — é, ela também, um projeto de mundo. Um mundo sem senhores, sem soldados e sem cercas.
Desejamos a todos uma excelente leitura e que 2026 sejá revolucionário!
Saudações libertárias e quilombolas!
A Equipe Editorial da Revista Estudos Libertários (REL/UFRJ)
Wallace dos Santos de Moraes
Juan Filipe Loureiro Magalhães
Pamela Cristina de Gois
Ana Carolina dos Santos da Silva
Publicado: 2025-12-31