25/08/2026
Gigantomachia Dialetheia: O Problema do Ente Contraditório (CHAMADA)
Online
Editores: Gabriel Azevedo Cruz/Gac (UFRRJ); Aleph Cedrim Barbalho (UFPel); Gabriel Loureiro (UFRGS).
Conforme consta nos registros, o pensamento de potência filosófica sempre foi capaz de alçar vôos rumo a postulações progressivamente mais assombrosas. O avanço ilimitado sempre transpareceu como parte de sua natureza, exceto por uma instância problemática — uma pedra no caminho, uma fissura na malha de travessia, um buraco no espaço-tempo: a contradição e o paradoxo. Esses termos, enquanto aproximados por (ainda que) vaga sinonímia, se impõem como os maiores opositores do pensamento filosófico-metafísico, sendo responsáveis por colapsar todo sistema ontológico positivo de que se tem notícia — o que tem sido efetuado por ambos desde os tempos antigos.
Foi pela explicitação de contradições na suposta descoberta do Ser parmenídico que Górgias conquistou seu espaço crítico na história da filosofia. Foi pelo parto de compromissos contraditórios mantidos por seus interlocutores prepotentes que Sócrates conquistou o título de “a mosca de Atenas”. Foi pelo evidenciar da mútua defensabilidade de teses antagônicas que Protágoras, os Céticos Acadêmicos e os Cético Tardo-Pirrônicos desenvolveram algumas armas filosóficas capazes de fazer desmoronar todo e qualquer sistema metafísico-onto-epistemológico postulado na história da filosofia ocidental — as quais, seguindo Jonathan Barnes, transparecem como eficazes ainda nos dias de hoje. Foi para escapar da mútua contradição tensional do campo-de-batalha-sem-fim que Kant operou seu giro copernicano, introduzindo as condições transcendentais do conhecimento no centro do filosofar rigoroso. Na tentativa de evitar a proliferação de verborragias insípidas — porque arbitrárias, na medida em que são tão defensáveis quanto opções que as contradizem — foi que os chamados “correlacionistas” e “construtivistas” abandonaram a investigação sobre o “em-si”. Por fim, no início do século XX eclode, para escapar das contradições internas dessas formas de anti-realismo aparentemente excessivas, a “virada realista”.
Sempre, de novo e mais uma vez, o que a história do pensamento ocidental usualmente apresenta é uma perene tentativa de escapar da contradição e do contraditório. Afinal, é pela inserção de itens desse tipo que sistemas filosóficos, baseados na coerência harmônica, colapsam: como é possível que um sistema, cujo princípio seja a consonância interna, abra espaço, dentro de si, para o oposto de si, que, simplesmente por existir, nega a validade iniciática do princípio primeiro pelo qual começamos? Talvez seja impossível entreter pensamentos deste tipo. E, no entanto, as contradições, espectros desviantes de que o filosofar harmonicista tenta desesperadamente fugir, continuam surgindo, reaparecendo, retornando. Esses são os fantasmas que assombram a produção metafísica em nível nevrálgico.
Isto posto, a proposta do presente dossiê é simples: angariar conteúdos, de origens múltiplas, que forneçam modos de lidar com esses “itens inconvenientes”, incluindo-os, de maneira que transpareça como produtiva, em sistemas lógicos, ontológicos, metafísicos, epistemológicos etc. Buscamos, portanto, uma filosofia do inimigo da filosofia — ao menos para olhos como os de Aristóteles —, isto é, uma filosofia de inimizade interna que, com sorte, possa germinar, por sua tensionalidade suprema, no thauma do jovem Sócrates ante Parmênides e na mais profunda amizade em relação ao saber — i.e. na mais potente philo-sophia.
Sabemos, ademais, que esses projetos de reconciliação entre paradoxo/contradição e filosofia pautam-se em estratégias amplamente distintas que, enquanto pleiteiam a possibilidade de estarem corretas, negam-se mutuamente, em um processo belicoso sem precedentes. Esse é o sentido da Gigantomachia Dialetheia, um domínio de disputas entre posturas robustas que buscam resolver o que transparece como o mais difícil problema do filosofar.
Convidamos, portanto, filósofos da paraconsistência, dialeteístas e dialeteístas absolutos, dialéticos, céticos ou pseudo-céticos, pensadores da paradoxico-metafísica, teóricos da espectralidade, deleuzeanos de pendor dark, neohegelianos, metafísicos românticos, paradoxistas e paradoxólogos em geral para que enviem suas contribuições em forma de Artigo, Ensaio, Entrevista, Resenha ou Tradução.
Submissões até 31 de Dezembro de 2026.
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