A Filosofia Latino-Americana diante da Emergência Climática: Ética, Cidadania e Responsabilidade Coletiva

Antonio Felipe de Sousa

Mestre em Filosofia pela UVA; Membro do GT Ética e Cidadania da Anpof

Antonio Francisco Lopes Dias

Professor Associado na Universidade Estadual do Piauí (UESPI); Coordenador do GT Ética e Cidadania da Anpof

08/10/2025 • Coluna ANPOF

Em colaboração com GT Ética e Cidadania da Anpof

A crise climática não é apenas um fenômeno natural, mas um desafio ético e político de proporções globais, que exige uma reflexão profunda sobre os fundamentos de nossa civilização. Como assevera o filósofo argentino Enrique Dussel (2000), em sua obra Ética da Libertação, a raiz do problema está intrinsecamente ligada ao projeto moderno-colonial. Dussel argumenta que a modernidade europeia, desde sua expansão no século XVI, instaurou uma lógica de dominação que objetificou tanto os povos não europeus quanto a natureza, reduzindo-os a meros recursos a serem explorados para a acumulação de capital. Essa visão é sintetizada em sua afirmação:

O final do presente estágio civilizatório se deixa ver no presente em dois limites absolutos do ‘sistema dos 500 anos’ — como o chama Noam Chomsky. Estes limites absolutos são: a) em primeiro lugar, a destruição ecológica do planeta. Desde sua origem, a modernidade constituiu a natureza como um objeto ‘explorável’ com vistas a aumentar o lucro do capital: pela primeira vez, a natureza se transforma puramente em objeto para o homem, em coisa puramente útil; cessa de ser reconhecida como poder para si. (Dussel, 2000, p. 65).

Dussel, portanto, posiciona a crise ecológica como o colapso de um paradigma civilizatório específico, e não como um acidente de percurso. Para ele, a emergência climática é a manifestação terminal de uma ética antropocêntrica e predatória, que há cinco séculos nega a alteridade e a intrinsicidade do mundo natural, tratando-o como um mero meio para um fim econômico.

Tal perspectiva amplia radicalmente a compreensão de que a degradação ambiental não diz respeito somente à técnica ou à economia, mas, sobretudo, ao modo como organizamos ou desorganizamos nossas relações com a Terra, com os outros seres vivos e com as gerações futuras. A partir da crítica de Dussel, compreendemos que soluções puramente tecnocráticas, como geoengenharia ou mercados de carbono, são insuficientes porque não questionam a lógica subjacente que produziu a crise.

A filosofia latino-americana, ao trazer à tona as vozes e os saberes das comunidades indígenas, camponesas e afrodescendentes, tradicionalmente oprimidas por esse sistema, oferece um contraponto vital. Ela nos convida a aprender com cosmovisões que entendem a natureza não como um recurso (resource), mas como fonte de vida (source), como um sujeito de direitos com o qual temos uma relação de reciprocidade e cuidado. Assumir essa responsabilidade coletiva significa, então, transcender uma cidadania baseada apenas em direitos humanos individuais e avançar para uma cidadania ecológica e planetária, que inclui obrigações para com a comunidade biótica como um todo e para com aqueles que ainda estão por vir, exigindo uma transformação radical de nossos modelos de produção, consumo e organização social.

No Brasil, país detentor da maior biodiversidade do planeta e de um dos biomas mais ameaçados, a Amazônia, a reflexão filosófica sobre a emergência climática assume contornos particulares. O cuidado ecológico deve ser visto como dever moral inescapável, porque o sofrimento humano e não humano é consequência direta de escolhas políticas e econômicas. Essa afirmação dialoga com a noção proposta na obra: “O cuidado necessário: na vida, na saúde, na educação, na ecologia, na ética e na espiritualidade” escrita por Leonardo Boff (2013), segundo ele, a Terra é um organismo vivo, Gaia, que pede respeito e ternura. Ele assevera sobre o cuidado como algo intrínseco ao homem quando cita:

Quer dizer, o cuidado se encontra na raiz primeira do ser humano, antes que ele faça qualquer coisa. E, se fizer, ela sempre vem acompanhada de cuidado e imbuída de cuidado. Significa reconhecer o cuidado como um modo-de-ser essencial, sempre presente e irredutível à outra realidade anterior. (Boff, 2014, p. 38).

Diante disso, somos convocados a uma mudança de paradigma uma vez que não basta apenas mitigar danos, é preciso cultivar uma relação de pertencimento e reverência com a natureza. A visão de Boff (2014) nos impele a transcender a ética antropocêntrica e a adotar uma postura de corresponsabilidade com todo o planeta. O cuidado, portanto, deixa de ser uma opção e se revela a única via possível para a sobrevivência de Gaia e de todas as formas de vida que ela abriga, exigindo uma transformação radical em nossos modos de habitar, produzir e coexistir.

Essas vozes demonstram que pensar a emergência climática no Brasil requer diálogo intercultural. Não basta importar teorias europeias: é essencial reconhecer que povos originários e comunidades tradicionais preservam práticas sustentáveis milenares, oferecendo alternativas concretas à lógica predatória do capital.

A filosofia, portanto, não é mera contemplação, mas intervenção crítica na história. Diante da crise climática, sua tarefa é dupla: revelar as raízes éticas do problema e mobilizar a imaginação política. Isso implica descolonizar o pensamento e aprender com outros modos de existência. Nesse sentido, vale afirmar, com Leonardo Boff (2013-2014), que cuidar é mais que um ato, é uma atitude, e com Enrique Dussel (2000), que a vida é o critério último da ética.

Nessa perspectiva, conforme Marilena Chauí (1994), o princípio da responsabilidade configura-se como exigência ética inerente ao sujeito moral, já que a ética não se realiza enquanto mera ação individual, mas como prática intersubjetiva inserida em contextos históricos e materiais. A consciência moral que exige reconhecimento do outro como sujeito e a responsabilidade entendida como assumir os efeitos e consequências de nossos atos são constitutivos do campo ético. A partir daí, a noção de responsabilidade coletiva emerge: os problemas ambientais não se circunscrevem aos atos singulares, mas demandam ação conjunta de toda sociedade. Para Chauí, a defesa da natureza e a luta por um futuro sustentável estão indissociavelmente ligadas à justiça social e à dignidade humana. Essa ligação torna-se ainda mais urgente em periferias, onde a injustiça ambiental adensa-se à desigualdade social historicamente construída. Portanto, a crise climática é também uma questão de justiça: as populações mais vulneráveis são as primeiras e com maior intensidade atingidas por seus efeitos.

Convidar a filosofia latino-americana a esse debate é reconhecer que a emergência climática não é apenas questão técnica, mas de cidadania planetária. Trata-se de reconstruir a relação entre humanos e natureza em bases de solidariedade, justiça e respeito à diversidade. Como adverte Krenak (2019, p. 60): “o fim do mundo talvez seja uma breve interrupção de um estado de prazer extasiante que a gente não quer perder”. A filosofia, ao despertar consciência e ação, pode ajudar a adiar – ou evitar – esse fim, abrindo caminhos para um futuro de equilíbrio e cuidado.

Por fim, a humanidade começa a perceber que o uso abusivo dos recursos naturais produz consequências que retornam contra ela própria. Essa consciência exige repensar as bases éticas da civilização, buscando reparar e minimizar os danos provocados ao longo dos séculos e inaugurando uma nova relação de responsabilidade com a Terra.


Referências

ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro. São Paulo: Perspectiva, 2001.

BOFF, Leonardo. O cuidado necessário: na vida, na saúde, na educação, na ecologia, na ética e na espiritualidade. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

BOFF, Leonardo. Saber Cuidar: ética do humano - compaixão pela terra. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

CHAUI, Marilena de Souza. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1994.

DUSSEL, Enrique. Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão. Tradução: Ephraim Ferreira Alves; Jaime A. Clasen; Lúcia M. E. Orth. Petrópolis: Vozes, 2000.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.