A velha sensação de nunca estar satisfeita com nada
Débora Fátima Gregorini
Doutoranda em Filosofia na UNIOESTE
01/10/2025 • Coluna ANPOF
A velha sensação de nunca estar satisfeita com nada, às vezes ela me aparece. Assim como me aparece com frequência os lamentos de alguém que diz “quando eu sonhava com isso parecia tão mais bonito do que agora que o realizo”. E entre o imaginado e o real há um mundo, há o mundo.
O sonho é sonho porque é perfeito, idílico, quando têm defeitos logo chamamos de pesadelo, perde todo o seu sentido de ser ao se transformar em sua faceta mais desagradável. Da realidade não podemos destacar a perfeição, uma vez que é justamente seu estado imperfeito que a delineia. São as normas que muitas vezes diferenciam sonho de realidade, e também o fato de que nessa segunda casa muitos habitantes se entrelaçam, trazendo afetos múltiplos e, por vezes, opostos. No sonho, não aconteceu de minha mãe estar doente quando conquistei meu maior objetivo na carreira, na realidade às vezes acontece.
Ora, mas, para além dessa diferença importante entre o mundo que a gente habita no presente e aquele que idealizamos no passado, há ainda algo mais na experiência da sensação de não satisfação: nosso caráter móvel. Em “Pirro e Cinéias”, Simone de Beauvoir (2025) se demora tentando encontrar a medida de um ser humano, até onde seus projetos podem alcançar e o porquê, primeiramente, se projeta qualquer coisa. Gosto muito do título desse livro em espanhol: Para que a ação? (¿Para qué la acción? [1972]).
Me parece que é justamente esse o tema do livro: para que agir? O diálogo inicial trata de nos colocar a par dos desejos de conquista de um rei, enquanto é interpelado por alguém que constantemente questiona: e depois? Após pensar em muitas terras para conquistar, ele pensa em finalmente descansar. Logo, irrompe a questão capital: por que não descansar desde o início então?
O diálogo entre Pirro e Cinéias me remete a essa velha sensação de que nunca nada está bom: conquisto aqui para depois querer conquistar lá; desejo uma coisa apenas para depois desejar outra. Quando estarei satisfeita e, enfim, irei sossegar? Quando vou apenas aproveitar a conquista que desejei e ponto?
Numa perspectiva beauvoiriana, a resposta é nunca. Pelo que a filósofa nos aponta ao longo do ensaio, percebemos que o nosso movimento transcendente, para fora de si e em direção ao futuro e a coletividade, nos faz sempre almejar o depois. Me faz lembrar que temos um cerne vazio, e que ansiamos por preenchê-lo. O que eu sonhava era mais bonito justamente porque eu ainda não o tinha, o tendo, abro espaço para um novo sonho. A espontaneidade do movimento existencial humano nos empurra sempre para além, numa dança entre reconhecer o vazio, buscar preencher o vazio, notar que não o preenchemos e seguir procurando algo que nos satisfaça.
É aí que ela nos lança a ideia de que um fim não é um fim em si, mas precisa ser pensado dessa maneira em algum momento. Dito de outra forma: precisamos sonhar com algo como se aquilo fosse a maior conquista de nossas vidas para que o persigamos até conquistá-lo, então essa conquista deixa de ser um fim e se torna uma etapa para outra conquista; que será vista como um fim para, em algum momento, ser etapa de outra, e de outra, e de outra, até o fim dos nossos dias.
Cabe, ainda, uma olhada ao que parece ser descansar, sossegar estar satisfeito. Será que aproveitar uma conquista é repetir incessantemente o estado de coisas que ela trouxe? “A mais suave melodia, indefinidamente repetida, se torna um ritornelo irritante; esse gosto inicialmente delicioso logo me enjoa” (Beauvoir, 2025, p. 148). Não me parece que haja apenas fruição numa repetição incessante. A bem da verdade, esse cenário parece muito mais torturante do que prazeroso. O prazer da conquista precisa estar relacionado com o ato de conquistar, quando esse ato se torna algo distante, encerrado no passado, ele carrega consigo a sensação gostosa que trouxe em seu surgimento. Distanciado da ação de conquistar o fato conquistado não gera mais o mesmo gozo.
Findo com o gosto amargo que me resta: aceitar que a dança entre o querer e o conquistar, para querer de novo, faz parte do jogo da condição humana.
Referências
Beauvoir S. ¿Para qué la acción? Trad. Juan José Sebreli. Buenos Aires: La Pléyade, 1972
Beauvoir S. Pirro e Cinéias. In: Beauvoir, S. Por uma moral da ambiguidade seguido de Pirro e Cinéias. Trad. Marcelo Jacques de Moraes. 2ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2025
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.