Brasileira, filósofa e desqualificada
Divina Mendes Chagas
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
16/09/2025 • Coluna ANPOF
Minha inquietação quanto à possibilidade de pensar a filosofia dos povos originários brasileiros é recente. Sendo fruto de uma graduação em filosofia de viés confessional, fortemente marcada por recortes específicos do pensamento cristão, os cânones me pareciam seguros. Contudo, há algum tempo venho questionando o que é possível aprender com a filosofia indígena, em especial com o conceito de bem viver, que se apresenta como resposta possível a uma sociedade do cansaço – aquela que se auto explora até o limite e, simultaneamente, exaure os recursos naturais indispensáveis à sobrevivência sustentável.
O processo de se perceber filósofo brasileiro no meio acadêmico associado à necessidade de ouvir vozes brasileiras sobre os temas que nos inquietam em nossas investigações, constitui um movimento que pode ou não ocorrer no percurso formativo de um estudante na filosofia. Ao iniciar meu doutorado em filosofia na Universidade Federal de Mato Grosso, encontro-me atravessada por essa inquietação.
A filosofia, enquanto experiência filosófica, enraíza-se nas questões que nos afetam e nos deslocam (Chagas, 2021). Trata-se de um movimento: partir de uma pergunta que nos desestabiliza e, por meio de construções conceituais e tentativas de resposta, alcançar um ponto de repouso – provisório ou duradouro. Essa experiência não se dá no vazio; ela ocorre em contato com pensamentos já sistematizados por filósofos antigos ou contemporâneos, transformando-se em nova experiência filosófica. Assim, esse processo é inevitavelmente situado em nossas condições biológicas e culturais: sou mulher e sou brasileira. Diante disso, por que se percebe um apagamento das vozes brasileiras na construção da filosofia?
Segundo Aquino (2024), a historiografia da filosofia brasileira revela uma tradição de desqualificação que remonta a Tobias Barreto (1926) e Sílvio Romero (1878). Ambos defendiam a tese de que não existe – nem poderia existir – uma filosofia brasileira. Nessa perspectiva, haveria uma suposta inaptidão inata do brasileiro para a filosofia, ou, quando não, uma deficiência técnica que resultaria em uma prática malfeita. Esse posicionamento deriva, em grande parte, do processo de colonização, que institui a necessidade de importar a filosofia europeia como modelo.
Contudo, como observa Aquino (2024), essa tese é sustentada muitas vezes por quem raramente leu, de fato, os filósofos brasileiros. Em outras palavras, afirma-se a inexistência ou irrelevância da filosofia nacional sem que se empreenda uma investigação real sobre suas produções.
Na mesma direção crítica, Fornet (2003), questiona quais contribuições a experiência latino-americana pode oferecer a um diálogo filosófico verdadeiramente universal. Ele destaca que a filosofia na América Latina nasceu sob o signo da colonização e, desde então, foi marcada pelo eco do pensamento europeu, afastando-se das culturas originárias (maia, guarani, andina, entre outras), relegadas ao estágio pré-filosófico em função da violência epistêmica colonial.
Enquanto Hegel e Heidegger localizam a origem da filosofia em um ponto único – a tradição grega -, Fornet propõe uma concepção intercultural, que reconheça a convergência de diferentes experiências filosóficas. Trata-se de aproveitar, na filosofia, toda a experiência cognitiva da humanidade, sem produzir a figura do colonizador que se impôs sobre as culturas periféricas (FORNET-BETANCOURT, 2003, p. 25-28).
A partir da década de 1970, o movimento da Filosofia da Libertação redirecionou o olhar latino-americano para suas próprias fontes, seus documentos e memórias. Esse deslocamento sinaliza o distanciamento progressivo de uma filosofia entendida apenas como reflexo da europeia e a afirmação de uma produção situada nas tradições e realidades periféricas.
Assim, torna-se imperativo buscar e reconhecer as múltiplas vozes culturais que compõem a filosofia latino-americana. Como conclui Fornet-Betancourt (2003, p. 11), é urgente denunciar a falácia de uma globalização que impõe um modelo único de pensamento e, em contrapartida, valorizar a universalidade que emerge do intercâmbio livre entre a diversidade.
Concluímos, ainda que de forma provisória, que é urgente resgatar as vozes brasileiras da filosofia e construir uma historiografia radicada em nossas experiências, vivências e territórios. Os problemas globais nos afetam, mas nossa experiência particular e coletiva diante deles produz respostas enraizadas no contexto cultural brasileiro. Essa é nossa contribuição para a universalização do pensamento filosófico. Se a história da filosofia permanecer voltada unicamente ao pensamento grego clássico ou europeu comprometeremos a possibilidade de novidade. A filosofia é também acontecimento do presente, atravessada por seus desafios e condições históricas.
Referências
AQUINO, John Karley de Sousa. A historiografia da desqualificação da filosofia brasileira. Coluna ANPOF, 09 ago. 2024. Disponível em: https://anpof.org.br/comunicacoes/coluna-anpof/a-historiografia-da-desqualificacao-da-filosofia-brasileira. Acesso em: 22 ago. 2025.
CHAGAS. Divina Mendes. O ensino de Filosofia e a experiência filosófica no Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA). 2021.
FORNET-BETANCOURT, Raúl. Culturas y poder: interacción y asimetría entre las culturas en el contexto de la globalización. Bilbao: 2003.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.