Colonização cultural e filosofia brasileira
John Karley de Sousa Aquino
Professor de Filosofia do IFCE
18/09/2025 • Coluna ANPOF
Existe uma relação dialética entre o desenvolvimento econômico e a independência cultural, de forma que a dependência econômica se reflete na dependência cultural. Quer dizer, um país pobre e dependente não importa apenas produtos industrializados e tecnologia, mas também bens imateriais, pois “a miséria e a dependência material se refletem na pobreza e heteronomia espiritual”[1]. Essa dependência cultural é uma das causas da intelectualidade brasileira continuamente reproduzir ideias estrangeiras que estão na moda nos países centrais, pois é um país alienado culturalmente, consistindo ainda em grande medida em uma colônia cultural das antigas metrópoles.
E em qual campo a colonização cultural mais foi internalizada do que na filosofia? Algo bastante expressivo é que, segundo consta, durante visita ao Brasil em 1965, o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) teria ficado admirado com os modos franceses de praticar filosofia na USP e comentou que o curso era de fato um “bom departamento francês de ultramar”[2], sendo um departamento ultramarino nada menos do que o modo como os franceses se referem as suas possessões coloniais.
A filosofia brasileira, dentre as diversas áreas do saber, é aquela que mais sofreu os impactos da colonização cultural europeia. Se na literatura, e nas demais ciências humanas, conseguimos minimamente adaptar a forma estrangeira ao conteúdo nacional, em matéria de filosofia importamos as ideias como produtos acabados, a ponto de reproduzirmos sem maiores problemas, ideias absurdas como a de que só é possível filosofar em alemão (!). Entre as áreas do saber é na filosofia que o conteúdo brasileiro mais está ausente, expressando da maneira mais substancial a nossa alienação cultural e intelectual.
A dependência econômica que a colonização nos legou teve como uma das consequências nossa dependência intelectual, e assim como não produzimos tecnologia de ponta, mas a importamos, da mesma forma recebemos as ideias devidamente processadas e prontas para consumo. O que resta para o filósofo subalterno da periferia do capitalismo? Contentar-se com a divulgação das ideias alheias, se tornando uma filial do filósofo estrangeiro que é a matriz original do pensamento. Conforme a divisão internacional do trabalho intelectual no qual estamos inseridos, nos compete realizar o “acúmulo, a memorização e o uso das ideias feitas, feitas pelos outros, em função de ideias que não participamos e em circunstâncias nas quais nunca nos encontramos”[3]. Em suma, praticar filosofia em terceira pessoa em oposição à feita em primeira pessoa.
Em razão da alienação cultural na qual nossa intelectualidade é envolta, o filósofo brasileiro possui uma consciência alienada do Brasil e desconhece a realidade em que vive e o povo do qual faz parte. Ele parece crer que é um europeu vivendo fora da Europa e por isso vive “ilusória e imaginariamente em outro mundo, quer dizer, a Europa”[4] e desta forma dentre todos os trabalhadores intelectuais é o mais alheio à realidade nacional, parecendo que é nesta área do saber em que a colonização cultural mais surtiu efeito.
Um verdadeiro complexo de inferioridade faz com que o filósofo brasileiro não só se considere incapaz de ser um filósofo genuíno, mas que ele também atue alienado da realidade em que vive, pois considera a realidade brasileira indigna de ser objeto de reflexão filosófica. Ele possui uma perspectiva eurocêntrica, e foca toda sua atenção na realidade europeia e acredita que por falar uma língua estrangeira e consumir a alta cultura europeia, como um antropófago que absorve a alma do inimigo devorado, se tornará europeu ao consumir sua cultura.
No entanto, tal alienação é justificada através do argumento do suposto caráter universalista da prática filosófica, isto é, a filosofia não se restringiria a fronteiras nacionais e seria capaz de transcender o tempo e o espaço, alcançando um conhecimento supostamente cosmopolita, pois “existiria uma base comum a todas as culturas, situada justamente na unidade do ser humano como alguém capaz de produzir cultura. Essa unidade poderia justificar a alegada vocação universal da filosofia”[5]. Por conta disso, o filósofo seria mais do que uma pessoa de carne e osso com nacionalidade definida, seria antes de tudo um “cidadão do mundo”. Entretanto, tal universalidade é abstrata e tem caráter ideológico, pois omite que por mais universal que seja a reflexão filosófica, ela é feita em uma língua específica e por sujeitos com valores e perspectivas herdados de uma cultura particular. Além do mais não deixa de ser curioso que até hoje o panteão filosófico seja constituído basicamente de europeus[6]. O que explica o fato da tradição filosófica ser europeia, mesmo a filosofia aparentemente sendo uma atividade independente da nacionalidade? Isso ocorre porque a filosofia é um produto de exportação da colonização europeia como qualquer outro.
Como elemento do sistema colonial, a filosofia é parte indissociável da identidade cultural europeia e apesar de não desfrutar do prestígio de outrora, ainda é considerada um artigo de luxo, “um saber sofisticado, com reconhecido e elevado status acadêmico”[7], mas por conta do seu grau de dificuldade e complexidade não seria algo acessível para “qualquer um”. Seria preciso uma capacidade cognitiva bem desenvolvida para realizar as complexas reflexões filosóficas, algo que povos atrasados e culturalmente inferiores não seriam capazes de fazer, sendo por isso característica de sociedades mais desenvolvidas e superiores, como seria o caso da europeia. Por conta disso a filosofia serviu e ainda serve para justificar “a defesa da noção de que os europeus e o seu projeto civilizatório seriam necessariamente superiores aos de outros povos”[8], sendo parte do projeto geopolítico colonial[9].
Os elementos levantados não têm por objetivo defender que a filosofia é um saber colonialista eurocêntrico e que por isso deve ser denunciada e desprezada, mas sim reivindicar a independência filosófica brasileira, como preconizada por Roland Corbisier, de “luta pela desalienação da consciência nacional”[10]. Por conta da colonização cultural a qual continuamos submetidos, ele acreditava que o Brasil ainda carecia de uma filosofia genuína, pois a filosofia enquanto a autoconsciência cultural de uma nação, ainda não existiria por aqui, pelo menos de modo generalizado. A seu ver, para que a filosofia possa existir efetivamente entre nós é preciso que a realidade brasileira seja não só a “circunstância na qual o pensamento se exerce”[11], mas o próprio conteúdo do pensamento. No qual estamos de total acordo.
Referências Bibliográficas
CAPOVILLA, Cristiano. Roland Corbisier: nacional desenvolvimentismo e hegeliano marxismo no ISEB. Revisa Princípios, n° 162, jul. – out. 2021, p. 75-96.
CORBISIER, Roland. Autobiográfia filosófica: das ideologias à teoria da práxis. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1978.
Notas
[1] COPOVILLA, Roland Corbisier: nacional desenvolvimentismo e hegelianismo marxista no ISEB, p. 83.
[2] RIBEIRO, O atrevimento da filosofia: entrevista com Renato Janine Ribeiro, p. 176.
[3] CORBISIER, Autobiografia filosófica, p. 78.
[4] CORBISIER, Autobiografia filosófica, p. 71.
[5] LUCERO, A questão da autoridade na filosofia brasileira: um exame cartográfico e metafilosófico, p. 74.
[6] “A filosofia ocidental seria universal porque trata do Homem. Esse homem é ocidental, branco, civilizado, adulto, heterossexual e culturalmente cristão” (NOGUERA, O ensino de filosofia e a lei 10.639, p. 23). “Na visão eurocêntrica, universal é a própria filosofia europeia - ou ocidental, para incluir a América do Norte” (LUCERO, A questão da autoridade na filosofia brasileira: um exame cartográfico e metafilosófico, p. 73).
[7] NOGUERA, O ensino de filosofia e a lei 10.639, p. 13.
[8] NOGUERA, O ensino de filosofia e a lei 10.639, p. 30.
[9] “A questão da ‘universalidade’ em filosofia nem precisaria ser considerada como uma categoria de análise para investigar a existência ou não de autoralidade na filosofia brasileira, não fosse a circunstância de estar o Brasil situado na periferia de um sistema eurocêntrico, excludente e inapto a considerar o aporte de ideias provenientes de suas franjas. Nessas condições, a categoria universal provém de um resquício da colonialidade ainda não superada por completo em ex-colônias, em geral, e no Brasil, em particular” (LUCERO, A questão da autoridade na filosofia brasileira: um exame cartográfico e metafilosófico, p. 73).
[10] CORBISIER, Autobiografia filosófica, p. 72.
[11] CORBISIER, Curso de filosofia no Brasil ministrado no ISEB em 1956, p. 232.
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