Comentário ao artigo "A filosofia brasileira sob tutela: desconstrução da autonomia intelectual", de Fernando Alberto Pozetti Filho

Alfredo Pereira Jr.

Professor do Programa de Pós-graduação em Filosofia da UNESP

01/09/2025 • Coluna ANPOF

No artigo “A filosofia brasileira sob tutela: desconstrução da autonomia intelectual”, Fernando Alberto Pozetti Filho, Doutorando em Filosofia da Ciência na UNESP, sob minha orientação para a redação da Tese, apresentou uma interpretação polêmica da formação ideológica da filosofia brasileira contemporânea. A temática não faz parte do processo de orientação, mas julgo ser conveniente trazer alguns esclarecimentos, para dirimir possíveis erros fatuais.

Fernando lembra que durante os anos 1950 e 1960...cientistas financiados pelo Departamento de Estado e pela CIA investigavam seriamente habilidades telepáticas e parapsicológicas, almejando utilizá-las como armas de guerra contra os soviéticos”, o que teria influenciado o pensamento filosófico brasileiropela Escola Superior de Guerra...e Serviço Nacional de Inteligência pré- e pós Golpe Militar de 1964”.

A evidência para esta afirmação provém de relato confidencial feito ao autor, por parte de uma pessoa que teria protagonizado o contato do serviço de inteligência norte-americano com o então Reitor da USP, Dr. Miguel Reale, que também liderava o Instituto Brasileiro de Filosofia (IBF). A partir deste contato, supõe-se que outros grupos teriam absorvido a orientação estrangeira, no sentido de se professar uma filosofia desvinculada dos interesses do povo brasileiro.

Pode-se especular que a influência do IBF poderia ser encontrada no grupo, liderado por Antonio Paim, que adotava a "filosofia brasileira" de Miguel Reale na PUC-RJ. Este grupo hostilizou o Pe. Henrique Cláudio de Lima Vaz, um dos mentores da Teologia da Libertação, na PUC carioca, e mais tarde deu apoio à carreira do Dr. Ricardo Vélez Rodrigues, que se tornaria Ministro da Educação no governo Bolsonaro. O teórico de direita Olavo de Carvalho também teria tido alguma proximidade para com esta corrente, sendo considerado, juntamente com Antonio Paim, o referencial teórico da atuação de Vélez Rodrigues junto ao governo Bolsonaro.

A filosofia hegeliana "de esquerda" do  Pe. Vaz inspirou o movimento da Teologia da Libertação, que lutava por uma libertação do povo latino-americano frente ao imperialismo norte-americano. Em sua área de influência, que abrangia colegas atuantes em universidades públicas de diversos estados brasileiros, veio a se formar mais tarde a Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficas, e a própria ANPOF, que congregou a maioria, senão a totalidade dos programas de PG das universidades públicas brasileiras, junto com colegas de algumas universidades privadas. O pensamento do IBF, voltado para uma "filosofia brasileira", estava eivado de preconceitos contra o marxismo, considerado "filosofia estrangeira", o que não impede que tenha sido importante no resgate do pensamento de filósofos brasileiros esquecidos no ensino universitário.

Vélez Rodrigues desenvolveu sua carreira na UFJF, cujo Departamento de Filosofia (onde realizei minha graduação) foi formado por filósofos católicos de direita, alguns dos quais – segundo relatos de colegas, ao final da década de 1970 - mantinham contato com serviços de “inteligência” da ditadura militar, denunciando alunos considerados ”comunistas”. Como se sabe, foi um grupo de intelectuais que se reunia no Aero-Clube de Juiz de Fora que planejou o golpe militar de 1964, executado pelo General Olímpio Mourão Filho, e influenciou a composição do corpo docente da UFJF, durante a segunda metade dos anos 60.

Entretanto, mesmo que houvesse influência pontual de filosofias anti-comunistas baseadas em ideologias de controle da mente difundidas pela CIA, em alguns Departamentos de Filosofia de universidades brasileiras da época, não me parece que esta influência teria se tornado hegemônica nas universidades públicas. Tal influência é, com certeza, nula, na contemporaneidade, mesmo nas referidas instituições– talvez com alguma exceção que confirme a regra.

Já a extensa influência de Olavo de Carvalho se deu fora do espaço acadêmico, tendo – felizmente – zero impacto na Filosofia da Mente feita nas nossas universidades. Parte de seu pensamento se aproxima das pesquisas sobre uso da parapsicologia e controle da mente em guerras híbridas, difundidas pela CIA norte-americana, e possivelmente reforçada na ideologia dos agentes do Serviço Nacional de Inteligência (SNI) e escolas de formação militar brasileiros. Olavo teve grande sucesso em cursos via Internet, difundindo a ideologia de militância cultural via desinformação que embasou a criação da indústria de "fake news" que tem assolado o país. Neste caso, pode-se dizer que tal indústria teria sua origem na ação dos serviços de (des)informação e (des)inteligência norte-americanos, trazidos ao Brasil na preparação do golpe de 1964 e na ditadura militar que se seguiu. Cinqüenta anos depois, estes métodos são retomados e ampliados pela extrema direita internacional, por ocasião do Brexit no Reino Unido e da primeira eleição de Trump à presidência americana, contexto no qual também emergiu o bolsonarismo no Brasil.

Referindo-se exclusivamente ao contexto americano, Fernando lembra que “universidades de prestígio receberam milhões de dólares para criar programas de pesquisa em filosofia (analítica) da mente e da cognição, formaram professores especializados e incluíram progressivamente a contribuição acadêmica no currículo de formação dos agentes e espiões. Essa mobilização intelectual tinha um objetivo claro: desenvolver técnicas de controle da mente que informassem novas estratégias de campo para uma guerra sem contato, para uma guerra travada psicologicamente”.

Após citar este financiamento, que teria acontecido nos EUA, Fernando aponta que a pesquisa sobre a consciência, com fins bélicos, “migrou dos laboratórios militares para as universidades, moldando gerações de pesquisadores em filosofia. Esse sistema de controle permitiu a implementação de uma política de poder-saber que precisava ser reformulada: privilegiar os estudos da mente e da consciência em detrimento do pensamento crítico”. Em seguida, passa a se referir à filosofia nas universidades brasileiras, o que não se segue da situação americana, uma vez que no Brasil não ocorreu tal tipo de pesquisa nem de financiamento.

Embora as críticas que Fernando faz à filosofia brasileira possam ser válidas, em seu ponto de vista (do qual não compartilho, nesta temática), julgo ser importante esclarecer que as pesquisas atuais em Filosofia Analítica da Mente, que ocorrem no GT de Filosofia da Mente desta ANPOF, não têm qualquer conexão, de conteúdo ou de financiamento, com as referidas pesquisas que ocorreram nos EUA, sob patrocínio de entidades de cunho militar, como a CIA e a DARPA. Não poderia ser de outra maneira: a Filosofia Analítica é crítica quanto às pressuposições metafísicas das abordagens parapsicológicas da consciência, preferindo focar na linguagem que usamos para descrever e explicar os fenômenos conscientes.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

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