Considerações sobre a criação e a edição de uma revista schopenhaueriana brasileira

Vilmar Debona

Professor de Ética e Filosofia Política da UFSC

16/01/2026 • Coluna ANPOF

* O presente texto é uma versão resumida da Apresentação à Edição Comemorativa de 15 anos da Revista Voluntas, publicada em versão física em outubro de 2025. Hoje o segundo mais importante periódico especializado em Schopenhauer no mundo, a revista é uma atividade da Seção Brasileira da Schopenhauer-Gesellschaft e do GT Schopenhauer da ANPOF. Acaba de ser classificada no estrato A1 do Qualis/CAPES para o período 2021-2024.

A Voluntas: Revista Internacional de Filosofia, que até 2018 se intitulou Revista Voluntas: Estudos sobre Schopenhauer, completa seu 15º aniversário (2010-2025).

Mesmo que seja a tendência de um editor que se sente muito realizado, não gostaria, aqui, de avaliar a história, o impacto e a atual situação de uma revista que, embora com idade debutante, está consolidada – e acaba de ser classificada no estrato máximo do Qualis Periódicos da CAPES para o quadriênio 2021-2024. Ao invés disso, para festejarmos os 15 anos e essa conquista grandiosa do A1 do periódico da Seção Brasileira da Schopenhauer-Gesellschaft, hoje um dos mais importantes da área de Filosofia no Brasil, pensei que seria oportuno tecer algumas breves considerações que, em grande parte, não estão ditas em nenhum de seus 37 números já publicados, não estão em seu website, nem poderiam estar nas inúmeras double blind peer reviews.

A primeira consideração é sobre a concepção e o surgimento da revista. Aconteceu em 2009. Renato Nunes Bittencourt, em conversa comigo e com Diana Chao Decock no intervalo de um pequeno evento sobre Schopenhauer no Rio de Janeiro, elaborou a pergunta que fez nascer a Voluntas: já temos tantas revistas dedicadas a Kant e a Nietzsche, por que ainda não temos uma dedicada a Schopenhauer? Acho que levei demasiadamente a sério aquela constatação de um colega extremamente proativo, sem, num primeiro momento, ser tomado por preocupação institucional ou burocrática significativa. Voltei para Curitiba e – à época professor iniciante na PUCPR e doutorando na USP – escrevi aos colegas que me propunha a iniciar imediatamente os contatos com quem fosse preciso em vista das primeiras providências. O nome da revista também foi sugerido por Renato e, após breves ponderações, foi imediatamente acatado por nós. Era, a nosso ver, o nome mais apropriado para o primeiro periódico em idioma neolatino dedicado ao pensador da vontade. Esse latim Voluntas que, no entanto, nunca prescindiu do Wille, inclusive porque as relações Alemanha-Brasil na seara da pesquisa Schopenhauer sempre foram as melhores, em especial pelo reiterado incentivo do Presidente da Sociedade Internacional, Prof. Matthias Kossler, não apenas à nossa revista brasileira.

Passados poucos meses daquela ideia inicial, no ano (2010) em que recordávamos o 150º aniversário da morte do pensador, Renato, Diana e eu assinávamos o editorial do primeiro número, o qual intitulamos Germinou e nasceu. De lá em diante, insistências e resistências permitiram que a revista adquirisse robustez, tanto quantitativa quanto qualitativa, como expressam as avaliações do Qualis Periódicos da CAPES, que acabam de culminar no A1, e as métricas de bases de dados. Ocorrem-me dois exemplos para demonstrar esse “Qualis-Quantis”: i) no momento em que escrevo esta Apresentação, o site da revista indica cerca de 90.500 pageviews para o período de agosto de 2023 a setembro de 2025; ii) somente no Schopenhauer-Jahrbuch de 2020 (Bd. 101), na sua seção Schopenhauer-Bibliographie, a Profa. Margit Ruffing – que é outra grande incentivadora da Voluntas - catalogou 22 produções da Voluntas numa seleção geral de 139 publicações dos dois anos anteriores. Talvez, hoje, mais do que na época dos primeiros passos da revista, não seja algo sem sentido imaginar que, mesmo se o Buda de Frankfurt jamais gostasse de samba ou bossa-nova - o que seria difícil, sobretudo depois que Vinícius de Moraes garantiu ser o samba “a tristeza que balança” -, ele teria gostado de uma revista de origem brasileira dedicada ao seu pensamento, publicada na língua de Camões e de Machado de Assis, mas também aberta a todo o globo por meio da língua de Shakespeare e de outros quatro idiomas. Com efeito, a Voluntas é publicada em seis idiomas - português, inglês, alemão, espanhol, italiano e francês.

Outra consideração refere-se aos muitos percalços. Após a empolgação de seus inícios, percebemos que a tarefa editorial da Voluntas não faz exceção no diagnóstico schopenhaueriano de que há mais sofrimento do que felicidade no mundo. Não foram poucos os fins de semanas anulados em prol de revisões, editorações e formatações de textos para a revista, o que somente poucas pessoas à época muito próximas tiveram ciência. É igualmente oportuno considerar que nunca houve apoio institucional direto para a revista, seja em forma de destinação de recursos de editais específicos ou de agências de fomento, seja como apoio técnico contínuo que liberasse os editores para se dedicarem apenas às tarefas de articulação e políticas editoriais diversas. A exceção se deu com o apoio determinante dos últimos anos, a partir de 2018, por parte da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com sua Central de Periódicos, especialmente por meio do auxílio técnico competente de Débora Dimussio e de Roberto Bordin. Nesse sentido, os intensos trabalhos exigidos semanalmente ao longo de todo esse tempo, foram, no geral, sempre trabalhos voluntários. Lembro-me de que, se não fosse uma disposição absolutamente ímpar de Rodrigo Francisco Barbosa em diagramar gratuitamente os PDFs, com acurácia e alto rigor técnico, não teria sido possível editar a Voluntas antes de 2018. Ou seja, o caso da nossa revista não foi diferente em relação aos tremendos desafios para um periódico acadêmico brasileiro conseguir se afirmar em meio à precária situação dos suportes institucionais.

Não obstante essas muitas dificuldades, a revista cresceu a cada novo número, foi atraindo submissões de autoras e autores de países cada vez mais variados, e sendo reconhecida interna e externamente. Reconhecimentos por parte da Schopenhauer Forschung internacional também não demoraram, em especial por parte de diferentes Seções da Sociedade Schopenhauer e notadamente pela Seção italiana e pelo Centro Interdipartimentale di Ricerca su A. Schopenhauer e la sua Scuola da Università del Salento, liderados pelos Profs. Domenico M. Fazio e Fabio Ciracì, bem como pela Japan Schopenhauer Society, liderada pelo Prof. Yasuo Kamata.

Em 2012, quando estive em Frankfurt a.M., no Schopenhauer-Archiv (a partir de um período de doutorado sanduíche em Lecce), falei sobre a nossa revista brasileira de estudos schopenhauerianos com o Dr. Mathias Jehn, responsável pelos Arquivos. Ele providenciou, em poucos dias, uma notícia em alemão sobre a revista no site da Biblioteca da Goethe-Universität. Pouco após meu retorno ao Brasil, no início de 2013, a Voluntas se tornou oficialmente o periódico da Seção Brasileira da Schopenhauer-Gesellschaft. Isso foi possível graças ao incentivo direto da Presidenta brasileira da Sociedade, Profa. Maria Lúcia Cacciola, e de muitos outros pesquisadores brasileiros – em especial membros do GT Schopenhauer da ANPOF, como os Profs. Oswaldo Giacoia Jr., José Thomaz Brum, Eduardo Brandão, Selma Bassoli, Jarlee Salviano, Flamarion Caldeira Ramos, Eduardo Ribeiro da Fonseca, Diana Chao Decock, Luan Corrêa da Silva, Felipe Durante, Ana Carolina Soliva Soria, Dax Moraes, Leandro Chevitarese, dentre outros.

Seguiu-se uma série de outros acontecimentos igualmente marcantes, como: i) em 2018, a Voluntas passou a ser vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e, com isso, pode finalmente ser hospedada num Portal de Periódicos (da UFSM) que garante não apenas os DOIs para todos os itens publicados, mas também o sistema operacional OJS/SEER, em portal institucional que, desde então, publica a revista e lhe oferece suporte por meio da Central de Periódicos da Universidade; ii) Entre 2018 e 2019, uma mudança importante alterou o próprio subtítulo da revista, que a partir de então passou a publicar, também, ao lado do seu expediente originário e de fluxo contínuo Estudos Schopenhauerianos, Dossiês temáticos sobre temas e autores diversos da área de Filosofia de alguma forma relacionados com o pensamento schopenhaueriano; iii) Em 2020, o Prof. Luan Corrêa da Silva assumiu como editor principal, desempenhando individualmente a função até 2023 (e até 2025 comigo e com Felipe Durante), com dedicação que vale reconhecer como determinante para chegarmos onde chegamos; iv) Atualmente, eu e Felipe Durante estamos à frente da revista, mas contamos também com quatro editores associados: um brasileiro (José Lourenço da Silva), um alemão (Daniel Schubbe), um italiano (Fabio Ciracì) e uma japonesa (Yukiko Hayashi). Parece-me, não apenas por esse quadro de colaboradores, que a Voluntas extrapolou o mundo neolatino. Ela também conta com uma importante comissão editorial, à qual se somaram recentemente Ângela Calou, como revisora estilística dos textos, e Isabela Franzoi, como responsável pelas redes sociais e pela divulgação em geral da revista.

Entre esses e muitos outros episódios, dados e histórias, se, passados esses primeiros 15 anos, a Voluntas ainda não se mostrou tão exitosa quanto gostaríamos, se ela ainda não atingiu sua máxima projeção, é possível afirmar que ela cresceu conforme fomos crescendo. Ou, como elaborou recentemente Felipe Durante numa reunião de trabalho com a equipe editorial, que “crescemos na carreira na medida em que a Voluntas foi crescendo”. A vida da revista é, assim, uma tradução do percurso maturado de um grupo de pesquisadoras e pesquisadores, que, no entanto, conta com outros grandes marcos anteriores: se o periódico completa seus 15 anos, o livro de Maria Lúcia Cacciola, Schopenhauer e a questão do dogmatismo, que em outra ocasião chamei de “livro-mãe” da pesquisa schopenhaueriana brasileira, completou 30 anos em 2024; a primeira tradução integral do Tomo I de O mundo como vontade e representação, de Jair Barboza, bem como a criação da Seção Brasileira da Schopenhauer-Gesellschaft, também completam, em 2025, 20 anos; e os tradicionais Colóquios Internacionais Schopenhauer, bianuais e em sua 11ª edição, estão próximos dos 25 anos (a 1ª edição, em Curitiba, aconteceu em 2001). A Voluntas é, portanto, o mais novo fruto maduro no celeiro das nossas produções acadêmicas sobre o filósofo da vontade.

Cabe, por fim, agradecer calorosamente a todas as pessoas que colaboraram e colaboram para que o projeto da Revista Voluntas seja viável. Nosso enfático agradecimento, em especial, às e aos pareceristas, às autoras e aos autores, às técnicas e aos técnicos da Central de Periódicos da UFSM.

A essa nossa revista genuinamente brasileira, no instante em que celebra seu A1 no Qualis/CAPES, e que desde seu primeiro número é internacionalizada, auspicio os melhores votos para os seus próximos 15 anos.

Florianópolis, janeiro de 2026.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.