Crença, Fé e entendimento no Ensino de Filosofia

Fabiano da Silva Barcelos

Mestrando no Prof-Filo/UNIRIO

14/10/2025 • Coluna ANPOF

Certa feita, quando eu ainda fazia minha graduação em Filosofia, um aluno ouvinte e já idoso fez uma objeção a um professor de Teoria do Conhecimento a respeito da teoria de Descartes: 

 “Mas eu não acredito nisso”.  O professor respondeu: “Isso aqui não é para acreditar.  Isso aqui é para entender”.  Isso foi algo que está nítido na minha lembrança até hoje.

Com o passar do tempo, e conforme a necessidade no Ensino de Filosofia (a minha profissão), eu aprimorei essa resposta.  Não são poucos os alunos que fazem objeções parecidas.  E a minha resposta tem sido essa: 

“Não se trata exatamente de acreditar.  Acreditar tem mais a ver com religião.  Se você vai à igreja, é esperado que você acredite (ou não) no que o padre ou o pastor está dizendo.  Se você lê a Bíblia, você acredita (ou não) no que está escrito nesse livro.  O mesmo vale para o Corão, o livro sagrado dos islâmicos.  Na Filosofia é diferente.  Se você ler um livro de Filosofia, quando você entender e estiver em melhores condições para refletir sobre o assunto em questão, você vai estar em condições de concordar ou discordar.  Antes disso, você vai precisar entender o que está escrito ou o que está sendo dito.  Os filósofos, em suas teorias, lançam argumentos, não ficam impondo ou oferecendo crenças.  E com argumentos, você concorda ou discorda.  Foi isso o que aconteceu entre os filósofos pré-socráticos.  Foi isso o que aconteceu entre Platão e Aristóteles.  Aristóteles, apesar de ter sido aluno e amigo de Platão, não se viu obrigado a concordar com a teoria do seu mestre, e acreditar ou não nem vinha ao caso”.

Eu não sei o efeito que essas palavras podem surtir na mente dos meus alunos do Ensino Médio.  Não sei se o efeito é o mesmo daquela frase do meu antigo professor sobre os alunos dele naquela virada de século.  Eu não tenho como avaliar isso.  Nunca encontrei algum livro se reportando especificamente a isso, de onde eu poderia tirar alguma base para explicar melhor e aplicar alguma prova.  Nesse sentido, o máximo que eu encontrei foi um livro de metodologia filosófica, no qual os autores afirmavam que “o filósofo (o autor do texto consagrado) tem sempre razão”.  Óbvio que eu não concordei com isso.  Me pareceu um estímulo à subserviência estudantil, nada tão diferente de se propor que se deixe ser guiado por sacerdotes que sempre serão considerados como os mais sábios.  Se Aristóteles fosse partir desse “princípio”, ele não teria sido quem foi.  Nem Marx quanto às teorias de Hegel e de Adam Smith.  Dizer que “o filósofo (consagrado) tem sempre razão” é um desestímulo à emancipação filosófica e intelectual.

 Nas entrelinhas de muitos livros de Filosofia, fica entendido que se trata de algo a ser compreendido e de algo onde é esperado que se concorde (ou discorde).

Em alguns casos, em livros de Filosofia, são encontrados imperativos, axiomas, teorias metafísicas.  Entretanto, não deixa de haver um respaldo explicativo para os mesmos por parte dos filósofos que os lançam.

Um professor de Filosofia de alguma rede pública dispõe da chamada “fé pública”.  Aparentemente isso complica as coisas.  Mas essa fé pública se refere à questão do acato e do respeito.  Um professor de Filosofia, sendo sensato, não vai ficar impondo crenças ou descrenças, teísmos ou ateísmos, e nem mesmo o fanatismo por determinada teoria filosófica.  Ele não vai endeusar algum filósofo como se endeusa a algum santo.  A fé pública de que um professor de Filosofia da rede pública deve dispor se refere a algumas condições para conduzir o seu trabalho.

Enfim, esse é o diferencial da prática filosófica e do Ensino de Filosofia:  professores de Filosofia reconhecem o seu papel na construção do conhecimento através do estímulo aos alunos para que reflitam sobre determinados assuntos, em vez de se proclamarem como doutrinadores ou de elevarem filósofos consagrados ao patamar de divindades.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.