Dhuoda: um espelho da maternidade filosófica
Camila Ezídio
Professora do Departamento de Filosofia da UFRN
11/05/2026 • Coluna ANPOF
É tradição na história da filosofia a escrita de manuais morais, mas aqui falamos de um manual que carrega uma especificidade: ele foi escrito por uma mãe para um filho do qual foi separada. Foi isso que fez Dhuoda, uma mulher da primeira metade do século IX, de contornos biográficos imprecisos, cuja voz nos chega por meio de uma única obra: o Liber Manualis ou Manual para meu Filho.
O livro nasce de uma ausência, ele é, ao mesmo tempo, instrução, oração e conselho sobre como Guilherme deve bem conduzir suas ações. A princípio, poderíamos dizer que Dhuoda participa de uma longa tradição que pensa a educação como formação moral. Desde a filosofia antiga, educar nunca foi apenas transmitir conteúdos, mas ensinar a viver bem. No mundo cristão medieval, essa ideia se intensifica: viver bem passa a significar também salvar a alma. O filho de Dhuoda não precisa apenas agir corretamente no mundo terreno, ele precisa orientar sua vida em direção à salvação. O projeto de Dhuoda é, por isso, político e espiritual.
Mas há algo no Liber Manualis que escapa à simples inscrição em uma tradição. O manual não é apenas um compêndio de ensinamentos. Ele é, antes, uma tentativa de presença. Porque Dhuoda não escreve como quem observa de fora. Ela escreve como quem está implicada. E isso muda tudo. Em muitos momentos da narrativa, Dhuoda insiste na própria fragilidade, na sua inferioridade. Essa posição humilde, tão comum na escrita medieval, pode soar, à primeira leitura, como um recuo. Mas, ao longo do texto, outra coisa se impõe: Dhuoda é uma mulher culta que, através das autoridades sagradas e filosóficas, afirma a sua própria autoridade e organiza um sistema de formação que a aproxima do filho através do conhecimento. É nesse ponto que algo interessante acontece: a mãe e a filósofa não figuram em papéis separados. Em Dhuoda, elas se fundem, porque ela escreve ao filho como mãe, mas pensa como filósofa. Ou melhor: é filósofa a partir do ser mãe.
Quando escreve ao filho — “apesar de tudo, sou tua mãe” — não se trata apenas de afirmar um vínculo afetivo, mas de sustentar uma autoridade dupla: aquela que nasce do cuidado, mas também do estudo. Sua obra, frequentemente classificada como um “espelho de príncipe”, não remete aqui apenas a um gênero literário. A imagem do espelho é central: o livro não serve apenas para instruir, mas para refletir. Nele, Guilherme deveria contemplar a própria alma, examinar sua conduta, reconhecer-se. Mas, em Dhuoda, o espelho não reflete apenas o filho. Ele também guarda a imagem da mãe. A escrita torna-se, assim, uma forma de permanência, como se, ao organizar conselhos, regras e reflexões, ela tentasse garantir que algo de si, da sua presença, continuasse a acompanhar o filho.
Essa presença construída pela escrita também reconfigura a própria concepção de maternidade na história da filosofia. Em um contexto em que o papel feminino frequentemente era reduzido à dimensão biológica passiva, Dhuoda aparece como aquela que produz, organiza e transmite conhecimento. A etimologia lembrada por Isidoro de Sevilha, que aproxima mater de matéria, ganha aqui uma força particular: a mãe como aquela a partir de quem algo é feito. No caso de Dhuoda, o que se engendra não é apenas um filho, mas um modo de vida.
Ler Dhuoda hoje é, de certo modo, ainda deslocar nossas próprias categorias. Por muito tempo a filosofia separou a criação intelectual da experiência afetiva, o fazer filosófico deveria ser marcado pelo crivo da razão que neutraliza, controla ou rechaça as emoções. O Manual de Dhuoda sugere outra postura: o pensamento e o ensino podem ser atravessados por vínculos. E, é também por isso que seu texto ainda nos toca enquanto um gesto que continua a se repetir, de muitas formas: mães filósofas que escrevem, que ensinam, que organizam um caminho no mundo para seus filhos e filhas mesmo em condições adversas, mesmo na ausência, mesmo entre os limites de suas carreiras.
Se há algo que permanece em Dhuoda, não é apenas o conteúdo de seu manual moral, mas o movimento que o produz: transformar a distância em linguagem, a ausência em presença possível, o amor em conhecimento.
Feliz Dia das Mães filósofas.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.