Do Lobo da Estepe à sociedade do cansaço: Eros, carnaval e o esgotamento do sujeito moderno
José Maurício de Lima
Mestre em Filosofia pela UnB
10/02/2026 • Coluna ANPOF
Há obras que, mesmo escritas em registros diferentes, funcionam como diagnósticos de época e, quando colocadas em diálogo, revelam uma continuidade inesperada. O Lobo da Estepe (1927), de Hermann Hesse, Eros e Civilização (1955), de Herbert Marcuse, e A Sociedade do Cansaço (2010), de Byung-Chul Han, permitem acompanhar a transformação das formas de dominação psíquica e social do início do século XX ao início do XXI. A hipótese que orienta este ensaio é que o adoecimento do sujeito moderno acompanha a progressiva neutralização de Eros, do jogo, do limite e da negatividade. Muda o mecanismo histórico: antes, a repressão externa e a moral grave; depois, o princípio de desempenho; por fim, a positividade que converte a liberdade em autoexigência. Mas permanece o resultado: uma vida interna cada vez menos capaz de respirar, brincar e interromper a ordem.
Em Hesse, esse diagnóstico aparece em forma literária, encarnado no drama de Harry Haller. Ele se percebe cindido entre o “homem” racional e o “lobo” instintivo, como se a subjetividade pudesse ser reduzida a dois polos que se alternam e se combatem. O romance, porém, insiste em desfazer essa simplificação defensiva: a psique é plural, atravessada por camadas, personagens e forças que não cabem na moral de uma única identidade. No Teatro Mágico, a ilusão do eu unitário é desmontada e a multiplicidade aparece sem disfarce: “o homem não consiste em duas naturezas, mas em cem, em mil” (HESSE, 2013, p. 76). A suposta divisão entre “homem” e “lobo” é, ela própria, um sintoma: o modo como Harry tenta domesticar a complexidade do que sente e do que deseja.
A chamada “festa do inferno” não é, nesse sentido, uma apologia da decadência, mas uma descida simbólica ao subsolo do sujeito, onde o reprimido retorna sob a forma de jogo, máscara, improviso e inversão. O ponto decisivo é que essa experiência exige suspensão: por instantes, a ordem moral precisa ser relativizada para que o sujeito se veja de fora e se desarme. O fracasso de Harry não decorre da travessia do Teatro Mágico, mas da incapacidade de sustentar sua lógica lúdica. Ele participa do jogo e, ao mesmo tempo, quer julgá-lo; entra na festa e mantém o tribunal dentro de si. Falta-lhe aquilo que, no romance, aparece como condição mínima de saúde espiritual: o humor. Por isso, a advertência é direta e quase cruel: “o homem que não sabe rir de si mesmo está perdido” (HESSE, 2013, p. 152). Rir de si, aqui, não é desprezar a própria dor; é romper, ainda que por segundos, o encanto da seriedade que transforma toda experiência em culpa.
É nesse horizonte que surge, no romance, a imagem deliberadamente absurda da fuga do papa para o Brasil. A cena funciona como alegoria do colapso do centro espiritual do Ocidente: Roma, símbolo de ordem e tradição, torna-se inabitável; o sentido herdado entra em exílio. O Brasil aparece menos como referência empírica do que como figura de deslocamento do centro, associada à mistura, ao corpo e à dissolução de formas rígidas. A imagem sugere que, quando a gravidade cultural se torna insuportável, o sentido busca outro clima, outro ritmo, outra forma de respirar. Esse gesto dialoga com o princípio carnavalesco descrito por Mikhail Bakhtin, para quem o carnaval suspende hierarquias e relativiza o sagrado, permitindo à cultura renovar-se por meio do riso e da inversão (BAKHTIN, 2010). Lido assim, o Teatro Mágico é um carnaval da psique: um intervalo em que o sujeito pode experimentar, sem definitividade, aquilo que a moral diurna proíbe.
Marcuse fornece a estrutura conceitual que torna inteligível, em termos histórico-sociais, o drama encenado por Hesse. Ao reinterpretar Freud, ele distingue entre uma repressão necessária — inerente a qualquer vida civilizada — e uma repressão excedente, produzida historicamente para manter formas específicas de dominação (MARCUSE, 1981). Na civilização industrial, o sacrifício e a produtividade são elevados ao estatuto de virtudes morais, e o prazer, o ócio e a imaginação passam a ser tolerados apenas quando se deixam traduzir em utilidade. A economia psíquica é reordenada: o tempo é capturado pelo trabalho, e o desejo aprende a pedir desculpas por existir. O que, em Hesse, aparece como “inferno da seriedade” ganha, em Marcuse, uma gramática: a seriedade é um dispositivo, uma pedagogia social do desempenho.
Nesse quadro, Eros não designa apenas sexualidade, mas as forças da vida que se opõem à colonização total do tempo pelo trabalho e à redução da existência à utilidade. Marcuse formula isso de modo incisivo ao afirmar que Eros diz respeito “às forças da vida que se opõem à dominação total do trabalho alienado” (MARCUSE, 1981, p. 145). O que Hesse dramatiza como sofrimento individual — a incapacidade de respirar sob uma moral excessivamente grave — Marcuse explica como resultado de um arranjo histórico em que o princípio de desempenho organiza não só a produção, mas também a consciência. A repressão deixa de ser apenas proibição e passa a ser interiorização de um ideal: o sujeito aprende a medir sua dignidade pela própria produtividade. E, quando o prazer só é aceito como “merecido”, ele já não é prazer: é prêmio, instrumento, gestão.
Com Han, o percurso chega ao seu estágio contemporâneo, em que a dominação já não precisa se apresentar principalmente como proibição externa. A sociedade disciplinar, centrada no “não”, cede lugar a uma sociedade do desempenho, centrada no “pode”. O sujeito já não se percebe como obediente, mas como livre — e é justamente essa liberdade, convertida em dever de realização, que sustenta a autoexploração. O indivíduo se torna empreendedor de si mesmo: administra o próprio corpo, otimiza o próprio tempo, monetiza o próprio “eu” e, quando falha, culpa-se por não ter sido suficientemente eficiente. Nesse ambiente, a negatividade — o limite, a pausa, o tédio, a capacidade de dizer “basta” — desaparece. Han resume o efeito psíquico dessa saturação afirmando que “o excesso de positividade conduz à violência neuronal” (HAN, 2015, p. 31). O resultado não é a velha neurose da repressão, mas a depressão, o burnout e o esgotamento que se instalam como normalidade.
Há, aqui, uma ironia sombria: aquilo que em Hesse aparecia como cura possível — o riso que relativiza o eu, a experiência de um jogo que suspende a ordem — torna-se, no presente, facilmente capturado pela lógica do desempenho. O lazer precisa render: vira produtividade, autocuidado performático, capital simbólico. O descanso é monitorado, cronometrado, otimizado; até a pausa pode virar obrigação. A dimensão carnavalesca se empobrece: já não há suspensão real da ordem, mas interrupções administradas, calibradas para que o sujeito volte mais “funcional” ao ciclo de entrega. Mesmo o humor corre o risco de virar máscara de exaustão, uma forma de continuar produzindo sem admitir que se está no limite.
Vistos em conjunto, Hesse, Marcuse e Han descrevem um mesmo movimento em três tempos: do inferno da seriedade moral (onde o desejo é reprimido) ao inferno do desempenho (onde o desejo é mobilizado como energia produtiva) e, por fim, ao inferno do cansaço (onde a energia se esgota). O mecanismo muda — da proibição externa à autoexigência —, mas o núcleo permanece: a neutralização de Eros, do jogo e do limite como condições de uma vida habitável. Por isso, a questão não é nostálgica, mas filosófica: o que acontece com uma civilização que perde a capacidade de suspender a ordem, ainda que provisoriamente? Quando não há interrupção, não há respiro; e, sem respiro, o sujeito não se torna mais racional, mas mais frágil, mais culpado, mais exaurido.
Talvez o maior desafio contemporâneo não seja produzir mais, mas reaprender a suspender: recuperar tempos não produtivos, gestos gratuitos, relações que não precisem virar projeto, e um humor que não seja apenas estratégia de sobrevivência. A lição que atravessa essas obras é que a negatividade não é obstáculo; é condição de saúde. Sem limite, o “pode” vira chicote; sem jogo, a vida vira planilha; sem carnaval simbólico, a cultura perde seu intervalo de renovação. A crítica de Hesse, a teoria de Marcuse e o diagnóstico de Han convergem para um alerta: uma civilização que neutraliza Eros, o jogo e a pausa não se torna mais eficiente e, sim, mais doente. O problema, então, não é “falta de motivação”, mas excesso de captura: do tempo, do desejo e da própria possibilidade de dizer não.
Referências
BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. 7. ed. São Paulo: Hucitec, 2010.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.
HESSE, Hermann. O lobo da estepe. Tradução de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Record, 2013.
JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Tradução de Dora Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2011.
MARCUSE, Herbert. Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia. Tradução de J. Guinsburg. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
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